Já ninguém quer saber do texto. Que se lixem as entrevistas, os apontamentos de reportagem ou os artigos de opinião. Que se lixem as palavras, as frases, os parágrafos, essas quimeras de outros tempos que ficaram perdidas quando nasceram as redes sociais. Já ninguém quer saber do texto, já ninguém quer saber dos jornalistas. As palavras de ordem hoje são influenciadores e Instagram.

Não é um assunto novo nas redações. Antes mesmo de existir esse conceito excecional de “influenciador”, os jornalistas já eram confundidos com bloggers. Víamos isso quando íamos a apresentações ou viagens de imprensa, quando se contavam mais bloggers do que jornalistas e éramos tratados como igual, como se estivéssemos ali para o mesmo. Claro que não estávamos. E claro que isso dava azo a confusões.

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Respeito o trabalho de um blogger e de um influenciador, mas detesto hipocrisias: não fazemos a mesma coisa. Os jornalistas regem-se por um código deontológico que os obriga a serem fieis aos leitores, à linha editorial do meio e a um conjunto de regras. Se estão a fazer um artigo editorial, têm de ser imparciais; se estão a fazer um artigo de opinião, têm de dar a sua mais sincera opinião. E isso implica, muitas vezes, falar mal.

Um blogger ou um influenciador, por mais que queira ser transparente perante os seus seguidores, vive da exposição de marcas. E não falam mal — raramente falam mal. É sempre tudo lindo, perfeito e maravilhoso, vale sempre tudo a pena, é sempre tudo o máximo. Não há cá empregado mal-educado, comida sem sabor ou quartos sujos. É tudo bom, é tudo recomendado.

Ora esse não é o trabalho de um jornalista. A parte “chata” de ser um jornalista na área de lifestyle é que é preciso ser-se aquela besta quadrada que diz que o restaurante X precisa de melhorar o sabor da comida ou o hotel Y precisa de ter mais atenção à forma como limpa os quartos. É aborrecido, envolve muitas discussões no dia a seguir, mas é necessário. Mais: é imperativo.

Consoante a área, cada jornalista tem a sua função. Um jornalista político tem obrigação de escrutinar o poder, um jornalista da área de sociedade tem de ir ao encontro das dúvidas, problemas e necessidades das pessoas. Um jornalista de lifestyle apresenta novidades de lazer aos seus leitores, e, nos espaços próprios faz recomendações, críticas e análises, para que as pessoas saibam onde é que vale mesmo a pena gastarem o seu tempo e dinheiro.

Compreendo que, da parte das marcas, seja mais vantajoso receber bloggers e influenciadores do que jornalistas. Também quero acreditar, porém, que para os leitores seja muito mais válida a opinião destes últimos do que qualquer um dos primeiros. Mas não nos desviemos do assunto: os dois trabalhos não são iguais. E não podem ser encarados como se fossem.

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Esta semana, e a propósito de um convite para visitar um espaço, a troca de emails chegou rapidamente à quantidade de fotografias que iriam ser publicadas nas redes sociais pela MAGG. É frequente as marcas questionarem-se se vai haver divulgação nas redes sociais — tudo bem até aqui, faz parte e é usual, não vivemos debaixo de uma pedra e apreciamos o contacto com os leitores nas redes sociais como qualquer comum mortal.

O que não é normal é haver uma proposta muito específica do número de fotografias que pretendem que nós publiquemos nas redes sociais.

Não somos influenciadores, caramba. A decisão de publicar uma foto ou 30 nas redes sociais é única e exclusivamente editorial. Há uma coerência imperativa, até em relação a outros espaços. À pergunta “Sra. jornalista. quantos posts vai fazer no Instagram?”, vou sempre responder “Não faço ideia”. E isso é bom para toda a gente.

Até para a semana.