Sociedade

Programa Aconchego. Histórias de quem foge às rendas elevadas e fica na casa de um idoso

Os universitários conseguem alojamento por 25€ e os idosos têm companhia durante a noite. Duas jovens e uma idosa contam a experiência do programa que une gerações.

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O Programa Aconchego já beneficiou 424 pessoas

Filipa Brito

O Programa Aconchego já beneficiou 424 pessoas

Filipa Brito

Micaela Pimentel é estudante de direito do 3º ano na Universidade Lusófona do Porto. Tem 21 anos e, desde que partiu da Ilha Terceira, nos Açores, para estudar no continente, que usufrui do Programa Aconchego. Teve conhecimento através do pai, que investigou na internet alternativas para a jovem se adaptar melhor à cidade.

“O Porto e os Açores têm uma realidade totalmente diferente. Eu estava à procura de uma casa calma, que fosse mais parecida com a minha, e, para ser sincera, não me estava a ver a viver em apartamentos ou residências com muita gente”, explica Micaela à MAGG.

Arriscou candidatar-se e assume que teve sorte. Vive há três anos na casa de Maria José Cardoso, 94 anos, na Boavista, e trata-a como “tia”. Faz-lhe companhia, vai ao supermercado, levanta receitas no médico, ajuda-a em questões tecnológicas e auxilia-a a fazer o jantar. E não podia ser mais feliz. 

Na sua opinião, o processo de inscrição é “idêntico ao programa ‘Casados à Primeira Vista‘”, da SIC. “Primeiro o jovem inscreve-se, o sénior diz que tipo de estudante gostava de receber em sua casa, o estudante tem uma entrevista para se apresentar e depois a partir das características eles tentam juntar os mais parecidos”, explica.

Micaela Pimentel e Maria José Cardoso vivem juntas há três anos

Milhares de estudantes conseguem entrar na universidade todos os anos, mas muitos não conseguem arranjar uma casa com as condições mínimas a um preço razoável. Encontrar um quarto é cada vez mais complicado: há muita procura e pouca oferta. Resultado? Muitos universitários sujeitam-se a (muito poucos) metros quadrados sem janelas ou, se tiverem possibilidades económicas, pagam entre 300€ a 400€ por mês — em alguns casos sem despesas e sem contratos. Estes valores são preocupantes, sobretudo quando o salário mínimo no País é de 600€.

Mas vamos a números concretos: o valor médio de arrendamento para estudantes universitários subiu em comparação ao ano passado. Em Lisboa passou para 399,56€, e no Porto para 299,16€, segundo dados apurados até agosto pela plataforma Uniplaces. Mais uma vez, repetimos: o salário mínimo é de 600€.

Os jovens vivem asfixiados por preços incomportáveis. Mas uma geração mais envelhecida também enfrenta uma realidade inquietante: a solidão. Há cerca de 45 mil idosos a viver sozinhos em Portugal, segundo o jornal “Diário de Notícias“. Portugal está na lista dos países mais envelhecidos: ocupa precisamente o quinto lugar do país mais envelhecido do mundo e o quarto no ranking europeu.

Existe um cenário caótico para ambos os grupos etários, portanto: os mais novos têm dificuldade em arranjar alojamento e os mais velhos não têm companhia — e arranjar uma pessoa para pernoitar nas suas casas também lhes pode custar a reforma. A pensar nisto, surgiram nos últimos anos programas que pretendem resolver dois problemas numa casa só.

Um deles é o Programa Aconchego, promovido pela Câmara do Porto em parceria com a Federação Académica do Porto (FAP). Os jovens universitários e idosos inscrevem-se neste programa, delineando as características que procuram num futuro parceiro de casa. Se houver match, promove-se um encontro e, correndo tudo bem, está feita a parceria durante o ano letivo.

Como é que funciona o programa que junta estudantes e idosos

A forma como escolhem os alunos no Programa Aconchego parte das características da personalidade de cada um. Fernando Paulo, vereador da Habitação e Coesão Social, conta à MAGG que têm uma equipa técnica que faz uma avaliação dos idosos e simultaneamente uma inscrição dos estudantes, de forma a perceber o que os motiva a candidatarem-se. É então traçado um perfil, há uma entrevista, um encontro e uma decisão final — ou decidem avançar ou passam para outro candidato.

O Programa Aconchego foi implementado em 2004 e pretende hospedar estudantes do ensino superior durante o ano letivo (durante a semana de segunda a sexta-feira; o período de fim de semana é facultativo) em casas de seniores no Porto, numa troca mútua de companhia e serviços. Os jovens pagam 25€ por mês, para ajudar nas despesas da casa, mas não precisam de o fazer em dinheiro — podem contribuir com alimentos ou outros produtos essenciais.

Os jovens têm de ter uma idade entre os 18 e os 35 anos e os seniores ser residentes do Porto, ter mais de 60 anos, viverem sozinhos ou apenas com o cônjuge e terem condições para receber um estudante em casa. De acordo com Fernando Paulo, o programa “tem sido cada vez mais procurado e acompanhado”.

Desde 2010, e até ao final do ano letivo anterior, 424 pessoas beneficiaram deste programa, o que representa 212 processos de adesão. “Quem estuda tem casa, quem tem casa tem companhia”, afirma Fernando Paulo.

E se as coisas correrem mal? A realidade é que ainda não tiverem problemas, mas, de acordo com Micaela, em caso de incompatibilidade poderia ser colocada na casa de outro idoso. Mas, repetimos, a verdade é que isto nunca aconteceu: “Tem resultado muito bem”, garante Fernando Paulo. “Os idosos ganham companhia e os estudantes ganham de forma gratuita um estabelecimento. Acabam por partilhar afetos. Os jovens ganham um tio ou uma avô e esses afetos vão perdurando”.

“Acho que foi benéfico. Eu recomendo — graças a Deus tive sorte”

Micaela e Maria não se conheciam até se candidatarem ao programa. Foi um familiar que inscreveu a idosa de 94 anos após a morte da funcionária que trabalhava na sua casa desde os 17 anos. Sozinha, precisava de ter companhia. A escolhida foi Micaela.

Tanto Micaela como Maria estavam receosas do que iriam encontrar. A jovem admite que o primeiro ano é o “mais estranho”, mas com a confiança e o avançar do tempo passaram a ver-se como elementos da mesma família.

“Eu acho que é tudo bom. [A Micaela] faz uma boa companhia”, garante Maria à MAGG. “Se eu metesse uma empregada, podia não ter os mesmos conhecimentos e assim estou com uma pessoa que é evoluída e que está no bom caminho. É como se fosse uma familiar — quando tenho alguma coisa de que não gosto, digo. Tal como ela me diz a mim, mas tem corrido tudo bem.” E garante: “Acho que foi benéfico. Eu recomendo — graças a Deus tive sorte”.

Ana Paula Cruz e Dona Adelina em Serralves, no encontro anual do Programa Aconchego

Filipa Brito

“Tive muita sorte, é como se fosse minha avó”

Ana Paula Cruz, 20 anos, partilha do mesmo sentimento em relação à idosa com quem divide a casa, Adelina, 71 anos. “Eu tive imensa sorte, a dona Adelina é uma querida. Ela vem a minha casa imensas vezes, os meus pais vêm cá também, é como se fôssemos da família. Tive muita sorte, é como se fosse minha avó”, explica. No 3º ano de Engenharia Física, na Universidade de Ciências do Porto, Ana usufrui do programa desde o ano passado. Uma das grandes vantagens é o facto de Adelina viver perto do Parque da Cidade, o que lhe permite “poupar muito tempo em viagens”. Além disso, tem “companhia todos os dias”.

Privacidade não lhe falta. Ana Paula tem um quarto e uma casa de banho só para si, com “condições excelentes”, e uma verdadeira amiga com quem partilhar casa. “A Dona Adelina tem uma casa em Vila do Conde mesmo em frente à praia e até já levei lá uma amiga a dormir e tudo. Ela convida e faz questão disso”, refere, mostrando a confiança que a idosa tem nela.

Projeto Lado a Lado

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O Programa Aconchego vai replicar-se em Mirandela, segundo o vereador Fernando Paulo. O acordo já foi assinado. Em Coimbra também há um programa semelhante: chama-se Lado a Lado e tem o mesmo objetivo de reduzir a solidão dos idosos oferecendo alojamento em conta aos jovens.

Quando falou com os colegas da universidade sobre este programa, recorda Ana Paula, a maioria ficou reticente, a pensar que tipo de implicações isso poderia trazer. No entanto, a jovem garante que os colegas mudaram radicalmente de opinião quando conheceram a dona Adelina — e até já levou uma colega a inscrever-se no programa.

“Ganhamos as duas: tenho um sítio muito mais barato onde ficar, demoro menos tempo a ir para a faculdade e a dona Adelina tem uma companhia”, afirma.

Tanto para Ana Paula como Micaela, o único problema é o facto de não poderem sair à noite com regularidade. Não é que as idosas tenham nada contra isso. Pelo contrário: no caso de Ana Paula, até foi a própria dona Adelina a motivá-la a ir ao jantar de curso.

O problema é que o grande objetivo deste programa é dar acompanhamento efetivo aos idosos — em particular durante a noite.

“O principal objetivo do programa é que o sénior não fique sozinho em casa à noite”, diz Micaela. “Claro que se houver um dia ou uma festa, ela não me prende, mas não posso ter essa liberdade de sair e entrar quando quiser sem dar justificações. Tenho de dizer onde vou, a que horas vou chegar e pelo menos à noite tenho de fazer companhia”.

Ainda assim, afirma, mais importante do que sair à noite é mesmo ter a companhia de Maria. Até porque, recordamos, toda a família de Micaela vive nos Açores. “A minha tia e a família dela desempenharam um papel idêntico ao dos meus pais. A família é espetacular”, diz, acrescentando ainda: “Tenho um apoio mais adulto quando estou mais em baixo”.

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