Como andavam os dois a um passo acelerado, Leonard Cohen e Perla Batalla tinham por hábito dar um passeio juntos assim que chegassem a uma nova cidade. E às vezes nem falavam. Não era preciso.

Preferiam que as palavras lhes saíssem em canto, num palco no qual um assumia o lugar de personagem principal e outro de secundário, ainda que na hierarquia de Cohen fosse a música a ficar sempre em primeiro plano.

Após dez anos em digressão como back vocal de Leonard Cohen, Perla Batalla decidiu assumir o legado e continuar a cantar as canções que, durante anos, foram dos dois. 

Cohen assistiu às gravações de “Bird on the Wire”, aconselhou-a na escolha dos temas e participou na sessão de fotos para o projeto. Porque se havia alguém que queria ver a cantar as suas músicas era Perla.

Depois da morte do cantor, em 2016, Perla decidiu dar um toque ainda mais pessoal à lista de canções escolhidas e leva agora para o palco as piadas e as histórias de Cohen — aquelas que ele fazia questão de contar antes de cada música. “Acho até que ele gostava mais de contar histórias do que de cantar”, conta a cantora à MAGG.

É então com “House of Cohen” que Perla se apresenta ao mundo e, agora, a Portugal. Dia 4 de dezembro sobe ao palco do Salão Preto e Prata do Casino do Estoril.

Perla Batalla, nascida e criada em Los Angeles, mas com um nome que não nega outras raízes.
Eu cresci em Venice, onde a minha família tinha uma loja de música mexicana chamada Discoteca Batalla e que serviu como um hub para a cultura latina na zona oeste de Los Angeles. Por causa disso, sempre senti a influência afro-mexicana do meu pai e a mistura europeia, argentina e judaica da minha mãe. Esta é a minha mistura mestiça e não a trocava por nada neste mundo. Está na minha arte, na minha paixão, nos meus ossos, nas minhas raízes.

Não uso a minha voz só para cantar uma canção. Para me entregar completamente, tenho que usar todo o meu corpo. Tem que ser sincero, tem que vir de dentro.

Com a ligação dos seus pais à música, poderia ter sido outra coisa que não cantora?
Os meus pais não queriam que eu fosse cantora. Quando finalmente anunciei que era isso que queria para a minha vida, eles renegaram-me por uns tempos. Aos poucos, perceberam que a música era a minha paixão e no final ficaram orgulhosos do meu percurso.

Quando é que percebeu que a música poderia ser o seu trabalho?
Eu não escolhi a música, a música é que me escolheu. Eu venho de uma longa linha de músicos do lado do meu pai e de pessoas do teatro do lado da minha mãe.

A minha vontade de cantar chegou cedo, quando a minha família fez um acampamento. Lembro-me de estar sentada sozinho entre as árvores a cantar para elas. Inventei uma música na hora e a sensação foi estranha, mas boa. As árvores são um público muito atento.

Já mais velha, lembro-me de ver os meus tios e o meu pai (que geralmente eram bastante assustadores) a cantar canções tradicionais depois do jantar e a chorar abertamente enquanto cantavam. Foi aí que percebi que a música tem um poder único. Em adolescente comecei a estudar ópera e a cantar em clubes noturnos. Nunca mais quis fazer mais nada.

Mas acredito que para si a música não seja apenas um emprego.
Para mim a música é aquilo que um emprego deve ser. É algo que tenho que fazer. Se não pudesse cantar, pararia de viver.

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Como é que o seu caminho se cruza com o de Leonard Cohen?
Fui convidada para uma audição para a digressão mundial “I’m Your”, em 1988. Estava na casa dos 20 e nunca tinha viajado para fora do país. E na altura não fazia ideia de que conhecer o Leonard iria mudar o curso da minha vida e influenciar tudo o que aconteceria a partir daí.

A primeira vez que nos vimos foi para fazer um teste num estúdio de ensaio em Los Angeles, pouco antes da tal digressão mundial. Caminhámos na direção um do outro e ele vestia preto da cabeça aos pés. Eu estava vestida de branco. O Leonard olhou para mim, sorriu e disse: “Querida, somos a combinação perfeita”.

Quantos concertos fizeram juntos?
Sinceramente, não faço ideia. Mas sei que há fãs dos Cohen que contam essas coisas. Para mim, cada espetáculo parecia-me sempre o primeiro. Acontecia sempre algo novo em cada um deles.

Como era a ligação com Leonard em palco?
Ele não era só o meu mentor ou meu amigo, ele foi uma verdadeira inspiração. Nova como eu era quando comecei a trabalhar com ele, olhava para ele como que para um mestre e tentava aprender o máximo que podia. Ele sentia uma necessidade de ter uma plateia confortável e é por isso que nas primeiras tours ele contava histórias antes de cada música, e sempre histórias verdadeiras e engraçadas sobre a sua vida. As histórias era sempre semelhantes, mas o mais curioso é que me pareciam sempre novas e isto devido à sua honestidade e à sua capacidade de ser autêntico. Ele teve uma grande influência no que eu faço e na forma como atuo também.

Tinham algum ritual antes de entrar em palco?
Um copo de Chateau La Tour de 1970 antes de cada espetáculo.

Que momentos guarda desse tempo passado juntos?
Cada vez que chegávamos a uma cidade, eu e o Leonard gostávamos de caminhar, muitas vezes sem sequer falarmos. Lembro-me de uma vez em que ele comprou uma caixa de donuts e nos sentámos no passeio a comer. Claro que as pessoas passavam e ele começou a oferecer donuts a toda a gente.

Ser um back vocal foi suficiente para si? Nunca ambicionou uma carreira a solo nessa altura?
Sinto prazer em fazer as duas coisas. Adorei ser back vocal do Leonard, porque a música dele era todo um outro nível, assim como era a sua integridade — e que é tão rara no mundo da música. O Leonard encorajou-me a começar a escrever e a gravar as minhas próprias canções. Eu gravei seis CD a solo e estou orgulhosa de todos eles. O “Mestiza” foi muito pessoal, foi aí que lidei com o facto de não pertencer a nenhuma cultura, estranho sentimento comum a vários americanos com origem mexicana. Já o CD “Discoteca Batalla” foi uma homenagem à loja de música dos meus pais. Mas cada um dos meus projetos é sempre muito pessoal.

Como é cantar canções do Cohen sem ele presente?
No espetáculo “House of Cohen”, às vezes peço ao público para cantar comigo. Sinto que quando as vozes se juntam, atingimos o poder de chegar ao espírito de Leonard e prestar-lhe uma homenagem. A música ao vivo tem tudo que ver com o viver o momento, e eu sempre tive um desejo secreto de que, ao levantarmos as nossas vozes, poderíamos sentir o Leonard entre nós… E normalmente sinto.

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Qual é a sua canção do Cohen preferida?
Varia todos os dias. O Leonard pediu-me para cantar a “Bird on the Wire” no aniversário do seu mestre budista Roshi e isso ficou-me para sempre no coração. A “Came so far for Beauty” é a história de Leonard. Tenho também a “If it be your Will” como a canção que cantávamos no final de cada concerto.

E qual era a canção que Leonard mais gostava de cantar?
Isso ele nunca deixou transparecer. Acho até que ele gostava mais de contar histórias do que de cantar.

Era fácil trabalhar com ele?
Como em qualquer experiência profunda e complexa, foi ao mesmo tempo fácil e profundamente difícil.

Onde estava quando soube da notícia da sua morte?
Lembro-me de estar em Madrid. Tentei entender aquilo que era impossível de entender. Andei horas e horas e a certa altura ocorreu-me que a primeira vez que fui a Madrid foi com ele. Estava na Plaza Santa Ana ao entardecer e quando olhei para cima, para a estátua gloriosa de Federico Garcia Lorca, vi um passarinho a levantar voo. Esse momento cheio de significado tirou-me o fôlego.

Numa das pontas dessa praça está o Café Central, o clube de música ao vivo mais famoso de Espanha. Fui lá tomar café e disse que queria voltar dali a um ano para cantar as músicas de Leonard Cohen. Voltei em 2017 e 2018 e cantei por sete noites seguidas para um público amoroso.

Considera que tem a missão de continuar com o legado de Cohen?
Completamente. E posso fazer isso continuando a manter a música dele viva e a mostrá-la a novos públicos. Uma vez ele pediu-me para que que continuasse a cantar as canções dele e é isso que quero continuar a fazer.

É isso que faz com o espetáculo “House of Cohen”?
Comecei a cantar as músicas do Leonard há muitos anos. Ia visitá-lo muitas vezes à sua modesta casa em Los Angeles e, numa dessas vezes, enquanto tomávamos um café, ele mencionou que estava atento às mudanças no mundo da música e em como essas mudanças podiam fazer com que ele deixasse de ser relevante. Foi aí que eu decidi gravar um tributo, só para poder expressar o meu amor por ele e pelo seu trabalho. Foi um trabalho feito com muito amor. Fiquei tão contente quando veio ao estúdio só para me dar o seu aval e tirar umas fotografias.

Logo após as gravações, comecei a tour do CD “Bird on the Wire” e percebi que aquela era a oportunidade perfeita para contar a minha história e a história da minha amizade com o Leonard. E como passávamos tanto tempo sentados na cozinha dele, decidi chamar ao concerto “Perla Batalla in the House of Cohen”.