Tomás Branquinho da Fonseca não tem ninguém na família ligada ao ramo dos antiquários, ou até das galerias de artes. Não houve influências diretas em criança, nem sequer de um amigo dos pais ou dos colegas de escola. Ele próprio não sabe explicar muito bem, mas a verdade é que desde miúdo que é apaixonado por antiguidades.

“Foi uma coisa que sempre me fascinou desde muito novo. Obviamente não tinha a menor ideia do que as coisas eram, do valor que teriam, mas sempre gostei de as ver e de fazer perguntas sobre elas”, recorda à MAGG. A ligação mais direta a estas peças antigas veio do facto de ter familiares com alguns exemplares em casa. Talvez tenha vindo daí a influência: “Acho que o gosto foi passando pela convivência com as mesmas no dia a dia”.

De uma licenciatura em Direito, Tomás Branquinho da Fonseca, um dos mais jovens antiquários em Portugal, com apenas 26 anos, pôs de lado o curso em que se licenciou e decidiu dedicar-se a uma paixão que vinha desde criança: peças antigas.

O gosto tornou-se profissão no final de 2017, quando decidiu pôr em prática uma ideia que já tinha há algum tempo: abrir um antiquário. A única coisa que Tomás não sabia é se se iria dedicar a este espaço a tempo inteiro. Mas, passado um ano, acabou mesmo por tornar-se a sua principal atividade — já que, como diz, “isto dá trabalho”.

A loja chama-se TBF Fine Art, fica no número 230 da Rua de São Bento, em Lisboa, e tem uma grande variedade de peças, desde pintura, mobiliário, pratas, joias, porcelanas e outros objetos decorativos.

TBF Fine Art, loja de antiguidades e galeria de arte

Tomás Branquinho da Fonseca

É uma loja leve e não tem um estilo pesado, nem velho. Não tenho nada exposto daquela forma em que ninguém consegue ver nada. As coisas têm espaço para respirar”, diz o responsável pela TBF Fine Art.

Mas o que é que leva um jovem de 26 anos a apaixonar-se por peças com séculos de história? “Sempre achei graça saber as histórias das coisas. Às vezes até eram só compradas. Mas há sempre uma história, nem que seja a história de como é que foi comprada, como é que se descobriu, como é que se tropeçou. Porque nós tropeçamos nas coisas às vezes nos sítios mais improváveis”, refere o antiquário.

Contudo, com a internet o mercado das antiguidades globalizou-se, e apenas com um clique é possível ter acesso a peças únicas do mundo inteiro. Isto acaba por ser uma desvantagem: “Cada vez é mais difícil encontrar peças que as pessoas não tenham já visto”.

Este ponto pode representar um desafio para os antiquários, já que o objetivo é conseguir peças raras ou únicas, que ainda não tenham sido descobertas ou que tenham sido descartadas por alguém — tendo um forte valor emocional. Por isso, descobrir um artigo raro é um feito. Difícil? Sim. Gratificante? Sem dúvida.

“Às vezes compramos peças a particulares e são peças que temos de batalhar para as ter. Ou porque não conseguimos comprar por aquele valor, ou porque a pessoa tem um sentimento especial pelas peças”, refere Tomás, que acrescenta ainda que a coisa mais fantástica que conseguiu foi uma mesa portuguesa de escrita indo-portuguesa, do século XVII.

Mesa portuguesa de escrita indo-portuguesa, do século XVII

Tomás Branquinho da Fonseca

A loja de Tomás vai além das antiguidades

A TBF Fine Art funciona também como galeria de arte, misturando as tais peças antigas com pintura contemporânea — formando um leque de artigos que vão desde o século XVII até aos dias de hoje. “Acho que conseguir misturar peças mais antigas com outras mais modernas pode ter resultados muito interessantes”, refere.

De facto, são as peças antigas que envolvem um maior trabalho — seja ele na procura de algo que não se sabe se existe ou a investigação da história que está por detrás de uma nova peça.

“Sempre que recebo uma peça tento fazer o máximo de contextualização histórica e pesquisa cientifica para conseguir classificar o melhor possível aquilo que tenho. Se tiver dúvidas tenho colegas com quem discuto opiniões, tenho o suporte de livros. Uma das dificuldades que posso ter é saber que livros comprar”, diz. Este problema não se resolve com uma pesquisa no Google, mas com a partilha de ideias com os colegas antiquários.

Uma vez nas suas mãos, todo o cuidado é pouco, mas Tomás defende que as peças não devem ser restauradas: “Eu acredito que as peças têm a sua historia. O tempo que passou também conta uma história. Eu não tenho interesse em ter tudo a a brilhar. Não acredito em restaurar extensivamente as peças para que pareçam algo que não eram quando foram feitas”, explica o jovem, apesar de admitir que comercialmente o restauro das peças, tornando-as mais estéticas, poderia ser uma vantagem.

Só que é precisamente a exclusividade que define um bom negócio, já que é muito raro uma peça estar em bom estado. Ainda assim, “felizmente há coisas que são mantidas e conservadas para que possam durar uns bons tempos”.

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Seja qual for a peça que Tomás adquira, há um pré-requisito que cumpre sempre: “Faço coleção de tudo o que seja excecional, de época e sobretudo aquilo de que eu gosto. Isso é o mais importante. Porque podemos ter as peças durante anos connosco. Portanto, se comprarmos coisas de que gostamos, não só temos mais facilidade em vendê-las, como a convivência com essa peça é muito mais fácil”, diz.

Esta quarta-feira, 13 de novembro, começa a segunda edição da Feira de Outono, uma feira que conta com peças de antiquários, galeristas portugueses e, claro, as peças da TBF Fine Art.

“Todas as feiras são importantes para mim e representam a possibilidade de ir buscar novos públicos. Esta é uma feira muito recente, é só a segunda edição. Todas as peças presentes na feira são peritadas por pessoas muito respeitadas em cada uma das suas áreas”, refere Tomás, acrescentando que esta verificação da qualidade acaba por transmitir segurança a quem compra nestas feiras.

A Feira de Outono, organizada pela Associação Portuguesa dos Antiquários (APA), decorre até 17 de novembro na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa e a entrada tem um custo de 10€. Para esta feira, Tomás conta levar peças de renome para o expositor. Desde mobiliário do século XVIII, passando por pinturas de Manuel Cargaleiro, José de Guimarães, Mário Cesariny, ou de Sofia Simões, até à porcelana chinesa.

“Vai ser no fundo uma mistura de coisas que transpõem para a feria aquilo que eu tento fazer todos os dias na minha loja. Tal como a disposição. Vai ser uma coisa clean”.