De acordo com um estudo realizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, 1 em cada 5 portugueses sofre de uma doença mental (23% da população) e quase 65% das pessoas com uma perturbação psiquiátrica não recebeu qualquer tratamento.

No tempo dos nossos avós, pouco se falava em doenças mentais. Ou a vida era melhor e as pessoas sabiam como ultrapassar os problemas com facilidade, ou a psicologia tinha pouca visibilidade e era quase um tema tabu. E não acreditamos na primeira hipótese.

A depressão era tratada como uma “fita” e o mais certo era não se procurar ajuda para o problema, porque esse apoio também era escasso. Mas 70 anos depois, o paradigma é outro: a ajuda está a tornar-se mais presente, a depressão é tema de conversa em cafés e até o burnout já faz parte da lista de doenças mentais. Só que o preconceito não se perdeu. Os dados não enganam: o número de casos com doenças mentais continua a aumentar e a percentagem que recorre a um especialista na área da psicologia mantém-se reduzida.

A psicologia ainda é um tabu? Porque é que não é vista como uma consulta de rotina? Que problemas podem surgir na ausência de um tratamento adequado? A MAGG falou com as psicólogas Cristina Sousa Ferreira e Andreia Figueiredo, da Oficina da Psicologia, para perceber porque é que a ida a um psicólogo continua a ser encarada com desconfiança.

“Procurar o psicólogo é sinal de fraqueza”. Será?

Se sentimos uma dor no dente, vamos dentista. Se as lentes já não nos permitem ver as letras mais pequenas, trocamos de óculos. E nunca temos problemas em assumi-lo publicamente. Mas em relação ao foro psicológico a conversa é outra. Na experiência profissional de Andreia Figueiredo, as desculpas que surgem mais frequentemente são algo como: “Não tenho tempo”, “não tenho dinheiro”, “os meus problemas são causados por outros” ou “procurar o psicólogo é sinal de fraqueza”.

E o problema não é o psicólogo não ser uma rotina, porque nem todos vamos ao dentista anualmente. O problema é que as desculpas são só um disfarce para o preconceito. E como todos os preconceitos, é necessário um processo de desmistificação que não passa apenas por contrariar este desconhecimento.

“A ideia de recorrer a serviços de psicologia ou psiquiatria é para ainda, para muitos, vergonhosa”, diz Cristina Sousa Ferreira à MAGG.

Durante alguns anos, continua, “existiu uma conotação muito negativa sobre as perturbações psicológicas fundamentalmente associadas a um imaginário de contexto em hospitais psiquiátricos muito austeros, filmes que retratavam a doença mental grave aguda ou crónica, pessoas que sofriam e eram colocadas à margem da sociedade com rótulos de perigosidade.”

Mas atualmente, a especialidade continua a estar pouco clara para a maioria. E o facto de não sabermos o que vai acontecer dentro da consulta de psicologia, deixa-nos receosos.

“Quero procurar ajuda de um psicólogo mas tenho medo. Como é que vou falar com um estranho?”

Mas se por um lado receamos o aconselhamento, por outro não vemos a medicação da mesma forma. O consumo de antidepressivos não para de aumentar e Portugal está em terceiro lugar na lista dos países desenvolvidos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) que mais consome estes medicamentos.

Para além disso, o mito de que para se ver refletido o efeito da psicoterapia são necessários anos de tratamento, reforça a ideia dos encargos monetários associados a este especialista.

“A psicoterapia é um processo individual e por isso o tempo necessário é variável (12 sessões, 6 meses…), que deve ser discutido com o psicólogo quando se estabelecem os objetivos terapêuticos”, afirma. 

As consequências de não procurar ajuda quando é necessário podem tornar um problema de resolução simples (ou menos complicada) em algo complexo e doloroso — no momento ou anos mais tarde. A negligência com a saúde mental pode manifestar-se também através de sintomas físicos e gerar problemas crónicos.

“O que acontece quando deixa agravar uma dor na garganta? Agravamento dos sintomas, maior sofrimento, crescimento da infeção, prejuízo da saúde física, maior compromisso da vida pessoal e profissional”.

Quando é que devo ir ao psicólogo?

O processo de desmistificação deve passar por perceber quem é que temos à nossa frente e qual é o papel do terapeuta no processo de ajuda. Não, o especialista não vai resolver os problemas por si, e esse também é o objetivo, porque assim seria dependente dele para o resto da vida.

“Um psicólogo pode ajudar a manter uma mente clara e saudável, a lidar e gerir o seu stresse, melhorar as suas relações e contribuir para uma vida feliz e adequada”, explica Cristina Sousa Ferreira.

Mais importante do que atuar no momento do problema, é prevenir. E prevenir é implementar hábitos de bem-estar e de comportamentos condizentes com um estilo de vida saudável. E a rotina para a saúde mental passa por “manter uma alimentação saudável, o equilíbrio trabalho/família, as atividades de lazer, o estabelecimento e manutenção de relações com os outros gratificantes, as atividades de desenvolvimento pessoal, o exercício físico….”.

Se não se sente confortável consigo, se não consegue perceber os motivos pelos quais está triste ou se mês após mês não consegue encontrar resolução para a agitação, irritabilidade ou ansiedade, talvez seja o momento de pedir ajuda para restabelecer o equilíbrio.

Não consigo esquecer o meu ex-namorado e isso limita a minha vida

E o preconceito da comparação mantém-se. A tendência de comparar o seu problema com os das pessoas que o rodeiam é um erro. Não, não reagimos todos da mesma forma às adversidades e não é porque aquilo que o seu melhor amigo está a ultrapassar lhe parece mais grave que não se pode sentir pior, ou recorrer a ajuda.

“Não precisamos de ficar assustados com estes momentos menos positivos, fazem parte de estar vivo. Mas se forem muito intensos e persistentes, não devemos deixar de pedir ajuda e marcar uma consulta com um psicólogo para uma intervenção que nos devolva o bem-estar e a nossa qualidade de vida”, explica a terapeuta à MAGG.

O que é que é necessário fazer?

“Assistimos com frequência ao lançamento de campanhas de rastreio e informação emitidas pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS) como as campanhas de vacinação, de rastreio de diabetes, de hipertensão, rastreios de cancro da pele e da mama, do HIV, mas não vemos da mesma forma rastreios de saúde mental.”

Muito do trabalho que tem de ser feito passa pelas organizações de poder. Porque a desmistificação tem de começar pela abertura do tema. Mas o sistema de saúde também precisa de melhorias — o número de especialistas na área continua a ser reduzido e por mais que o utente possa procurar ajuda, o tempo de espera leva a que muitos desistam ou que o problema agrave.

Como se educa para a equidade de género?

“Se houvesse o mesmo tipo de apoio financeiro para com esta especialidade [como há para outras], com certeza haveria um impacto na redução dos sintomas a nível da população, e possivelmente menos entradas nas urgências por motivos de ataques de pânico, ansiedades e depressões, por exemplo”, explica Andreia Figueiredo.

A imagem da psicologia já não é mesmo que se tinha há alguns anos e “todos os dias há notícias sobre psicologia ou que contam com a opinião de um psicólogo”, diz Cristina Sousa Ferreira. Parte importante desta evolução está também nas escolas. A presença do especialista junto dos jovens, tem tornado o recurso e a procura mais naturais.

O processo é demorado, precisa ainda de ajustes e do fim de muitos preconceitos, mas passo a passo a evolução vai nascendo.

“Este ano foi a primeira vez em 20 anos que foi aberto um concurso público para a entrada de 20 novos psicólogos no SNS. Parece-me que isto traz novidade e esperança”.

E não se sinta fraco. “Admitir que se precisa de ajuda de outro para resolver questões pessoais requer coragem e força”, afirma Andreia Figueiredo.