Olhamos para a solidão como um indicador de infelicidade, mas de acordo com a ciência este estado potencia problemas de saúde reais. A afetar pessoas por todo o mundo, com o tempo torna-se numa “doença incapacitante”, como refere o jornal inglês “The Telegraph”, que fala da solidão como uma “epidemia”, com implicações sérias na qualidade de vida.

As pessoas idosas são as que mais sofrem deste problema, ainda que as camadas mais jovens comecem a ser cada vez mais afetadas pela solidão. Um estudo de agosto, que envolveu 20.000 participantes com mais de 18 anos, concluiu que nos Estados Unidos a geração Z — neste momento com 18 a 22 anos — é a que se sente mais só.

O Hospital Universitário de Copenhaga revelou em novembro os resultados do mais recente estudo relativo aos efeitos da solidão. A instituição dinamarquesa analisou, ao longo de um ano, o estado de saúde de 13.443 pessoas que já sofreram um ataque cardíaco.

Concluiu que as mulheres que se descreviam como solitárias eram as que tinham três vezes mais probabilidade de morrer um ano após o ataque, face às que tinham uma vida social ativa. Num contexto idêntico, no caso dos homens esta probabilidade decrescia para duas vezes mais probabilidade.

Segundo a investigação, os pacientes mais sós eram também aqueles que tinham três vezes mais probabilidade de se sentirem ansiosos e deprimidos, descrevendo um cenário de qualidade de vida inferior.

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Estudos anteriores já tinham analisado as repercussões da solidão no estado de saúde. Uma investigação de 2010 comparou as consequências desta condição aos efeitos do tabaco ou da obesidade, ao haver um risco de morte aumentado em 26%. O que é que acontece no corpo para isto ser possível? Um dos motivos poderá estar relacionado com o aumento de inflamação do organismo, associado ao stress, capaz de danificar o sistema imunitário do corpo.

Dentro das consequências físicas, também as doenças cardíacas e o aumento da incapacidade física têm maior potencial de aparecer em indivíduos que estejam muito sós, sugeriram os resultados de uma investigação de 2016 publicada na plataforma científica “Heart BMJ“.

Os seres humanos são indivíduos sociais e, por isso, também as doenças mentais são potenciadas pela solidão e consequente isolamento.  De acordo com um estudo de 2011, a solidão em idade sénior aumenta a velocidade do declínio cognitivo, ajudando a que se desenvolvam problemas de memória e dificuldades de aprendizagem. A mesma investigação aponta para que as pessoas sós tenham 64% maior probabilidade de desenvolverem demência, face às que têm uma vida social ativa.

Os casos de depressão também aumentam com a solidão. As pessoas que se sentem sós são as que mais tomam medicamentos, visitam médicos, sendo que maior risco acrescido de sofrer um acidente por queda. São o grupo que mais risco corre de ir para lares e centros de dia.

Também há estudos com resultados positivos. Uma forma de combater eficazmente a solidão passa por frequentar eventos ou ter interações sociais desenhadas para combater este problema.

O jornal inglês fundou a The Silver Line, uma linha de apoio para pessoas mais velhas que sofrem de solidão e que liga voluntários a idosos para conversas semanais. Nos resultados do estudo levado a cabo para compreender o impacto do projeto, notaram que a sensação de solidão tinham diminuído muito — concluindo-se que o mais pequeno gesto e contacto com o mundo exterior pode ajudar a diminuir as repercussões deste problema.