Não há qualquer dúvida de que o crime cometido pela mulher de 22 anos, agora detida, foi hediondo. Começo por frisar isto muito bem porque sei que haverá sempre alguém neste mundo a achar que eu concordo com o que ela fez. Não concordo que se faça isto aos animais, quanto mais a um bebé. O crime que ela cometeu — porque é essa a palavra certa, crime — é hediondo, os indícios de prática de homicídio qualificado são fortes e é absolutamente dramático que isto tenha acontecido.

Fiquei tão chocada como qualquer outra pessoa com as notícias que saíram sobre este tema. Uma mulher de 22 anos deu à luz e enfiou o filho, ainda com restos do cordão umbilical, dentro de um ecoponto. A criança só sobreviveu porque um homem a ouviu chorar. Não tinha uma única peça de roupa, foi abandonado para morrer.

Não consigo sequer imaginar o que sentirá esta criança no dia em que souber que a mãe, aquela que lhe deu vida, pegou no seu frágil corpo e o meteu no lixo. Não o deixou à porta de um hospital, numa corporação de bombeiros, nada. Meteu-o no lixo, na esperança que morresse e o seu sufoco por ter um filho, seja ele qual fosse, terminasse. O sentimento de rejeição pode vir a ser avassalador um dia. Não consigo sequer pensar como é que ele vai lidar com isso para o resto da vida.

Editorial. As mulheres são o maior alvo de ódio da internet. E quem as ataca são as mulheres

Esta mulher de 22 anos cometeu um crime. Mas na era das redes sociais, somos tão rápidos a julgar e a criticar o outro que nos esquecemos que o mundo não é a preto e branco. Era fácil se assim fosse, mas não é — e as pessoas em particular não podem ser categorizadas dessa maneira porque, infelizmente, somos demasiado complexos para isso.

Ela cometeu um crime, sem dúvida. Só que eu recuso-me a chamar-lhe monstro. Cometeu um ato monstruoso? Sim. É um monstro? Não sei. Não faço a menor ideia, e vocês também não. Não fazemos a menor ideia do que passava na sua mente no momento em que deu à luz. Ainda sabemos tão pouco sobre ela — as últimas notícias dão conta de que era sem-abrigo e que sempre negou a gravidez, dizendo que eram problemas no intestino. É pouco, é demasiado pouco para partirmos para a condenação em praça pública.

Somos todos ótimas pessoas atrás de um computador. O problema é quando a vida nos leva ao limite e cometemos atos monstruosos, daqueles que nunca julgámos ser capazes de cometer. Eu não me consigo imaginar a meter um filho no lixo, claro que não. Mas recuso-me a atirar esta mulher para a fogueira antes de saber em que condições psicológicas se encontrava. Ela pode ser um monstro. Ou pode ser uma mulher altamente perturbada que precisa de ajuda.

Este ponto deixou muita gente revoltada na página de Facebook da MAGG esta semana. A jornalista Filipa Novais falou com uma psicóloga para tentar perceber o que leva um indivíduo a livrar-se de um filho assim — na altura ainda não se sabia que tinha sido uma mulher, mas a especialista referiu condições específicas do sexo feminino que poderiam levar a que isto acontecesse.

“A maior parte das vezes isto não acontece por um ato de maldade”, disse à MAGG a psicóloga Júlia Machado. “A maioria das mulheres que cometem este ato encontram-se uma situação de medo ou de pânico”. Estão a atravessar um período de grande dor emocional, podem não conseguir aceitar a gravidez por ser fruto de uma violação, podem estar em depressão profunda.

Júlia Machado sabe que o mundo não se divide em pessoas más e pessoas boas — excelentes pessoas podem cometer atos horríveis, da mesma forma que pessoas más podem protagonizar atos de puro altruísmo. Só que atrás desta caixinha mágica, somos todos superiores, somos todos magnânimos e somos todos juízes.

Editorial. Ninguém quer saber de mulheres violadas

“Nem os animais abandonam as crias”, disseram muitos leitores. Em primeiro lugar, isso não é verdade — é de conhecimento geral que muitas espécies abandonam as crias mais fracas. Mas não vou perder tempo a explicar isto porque, vá lá, nós não somos animais irracionais, somos seres humanos. Querem discutir se os animais são melhores do que nós? Não vale a pena, concordo convosco. Em muitas situações, são. Mas nós não somos iguais, portanto não podemos comparar-nos.

Não condenem. Não atirem pedras e condenem à forca esta mulher antes de saberem exatamente o que é que aconteceu. Ela cometeu um crime hediondo, repito. No entanto, pode não ser uma pessoa hedionda. Pode ter sido levada ao limite.

E sim, pode precisar de ajuda.

E sim, merece ser ajudada.

Esta semana, os jornalistas Fábio Martins e Ana Luísa Bernardino estiveram na Web Summit à procura das startups mais giras e inovadoras. Destaco aqui três: a BeRightBack, onde paga 50€ mensais e tem direito a três viagens por ano; a Smart Break, que quer combater o sedentarismo nas empresas com treinos flash; e a Seamless Flow, criada com objetivo de acabar com as filas nos controlos de segurança.

Editorial. Como é que os nossos filhos não haviam de criar grupos de ódio?

Mas vale a pena ler também o artigo onde tentamos responder à pergunta “Está mesmo alguém a espiar-nos do outro lado do ecrã?“. Dois especialistas na Web Summit explicam quão reais são os riscos e se deve ou não preocupar-se.

Já Marta Cerqueira ia a caminho de um almoço de imprensa quando recebeu uma chamada de Alexandra Lencastre. Ainda dentro do autocarro, saiu a correr na paragem seguinte e enfiou-se no primeiro restaurante que encontrou: “Desculpem, precisava mesmo de fazer uma entrevista. Importam-se que me sente aqui um bocadinho?”.

Enquanto os funcionários ainda varriam o espaço vazio, Marta Cerqueira e Alexandra Lencastre passaram 30 minutos a conversar sobre a “Rua Sésamo”, que naquela quarta-feira, 6 de novembro, fazia 30 anos que tinha chegado a Portugal. O resultado dessa conversa é delicioso, sobretudo para a geração que aprendeu a ler e a escrever com estes bonecos.

Há mais. Desde as histórias de quem sofre de alergias alimentares até ao drama de Dinis, uma criança de apenas 3 anos que sofre uma doença rara e precisa de ajuda, contamos-lhe ainda o trágico romance entre Keanu Reeves e Jennifer Syme e mostramos-lhe um estudo que revela que afinal o clitóris não serve só para o prazer.

Até para a semana.