Alexandra Lencastre já apresentou um programa chamado “Na Cama com“. Já protagonizou cenas ousados ao lado de Rogério Samora no filme “O Delfim“. Já se mostrou sem medo das formas que lhe dão um cunho extra de feminino vezes sem conta. Mas antes de todo este sex appeal que quase abafa os prémios e reconhecimentos que ganhou ao longo de uma carreira de sucesso enquanto atriz, Alexandra já foi apenas a Guiomar, uma miúda que vestia calças de ganga, camisolas larga e ténis. O cabelo aí ia solto e cheio de formas, a maquilhagem era apenas a suficiente para evitar os brilhos televisivos e Alexandra ainda tinha no rosto o sinal que lhe foi característico durante anos.

Chamou a atenção no meio de um grupo de miúdas que queriam participar num projeto dirigido ao público infantil mas que por cá ainda era desconhecido. “Rua Sésamo” ainda não era expressão sonante, mas quando viram Alexandra sabiam que preenchia os requisitos. Já vinha com o Conservatório e obras de Tchecov no curriculum, era gira, simpática, gostava de crianças e parecia mais nova do que realmente era.

Alexandra Lencastre tinha 22 anos quando encarnou a estudante de arquitetura que fazia a ponte entre os adultos, as crianças e os bonecos. Deu a mão a Poupas, discutiu muitas vezes com Ferrão, aprendeu truques de beleza com a gata Tita e recebeu mimos da Avó Chica.

A 6 de novembro de 1989, a Rua Sésamo estreava-se em Portugal e a 6 de novembro de 2019, a MAGG falou com a atriz de 54 anos sobre o projeto que a lançou para um eterno mundo do faz de conta. Trinta anos depois, Alexandra fala do programa como se tivesse acabado de sair dos estúdios da Tóbis, em Lisboa, que, devido à falta de ar condicionado e à presença de bonecos peludos, chegava a atingir os 70 graus.

Recorda o humor de Vítor Norte, as mãozinhas do Poupas que, de tão grande, era impossível abraçar. Fala daqueles nove dias passados nos estudos americanos da Rua Sésamo original e do quão bem impressionados os produtores ficavam com o que se fazia em Portugal. E é por isso que não se arrepende de não ter feito uma carreira internacional e mostra um orgulho imenso em ter feito parte da equipa que ensinou as crianças dos anos 90 a ler e escrever. “Se pudesse dizer uma coisa à Alexandra dessa altura era: ‘Nunca te esqueças que tiveste este privilégio'”.

Na altura, com 22 anos, qual era a sua experiência na área da representação?
Muito pouca. E nem pensei ser a escolhida. Eles procuravam uma menina que fosse a mediadora entre as crianças e os adultos, que fosse simpática e acessível. A Guiomar tinha que ser ternurenta, tinha que gostar de crianças, características que por acaso tinham que ver comigo.

Então porque não esperava ser escolhida?
Porque achei que precisavam de uma miúda mais nova. Eu agora pareço mais velha, mas na altura, vá lá, parecia mais nova. Tinha a vantagem de não ter histórico e por isso não tinha termo de comparação e, além disso, tinha acabado de fazer um outro programa para crianças. Contava um bocadinho de uma história todos os dias à noite.

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Que recordações tem desses anos?
Foi uma altura maravilhosa da minha vida. Era muito jovem e trabalhava com profissionais que eu admirava e que foram fundamentais para o meu percurso.

Mas tudo acontecia em condições de outra época. Trabalhávamos na Tobis que, por não ter ar condicionado, chegava aos 70 graus. Ainda assim, os bonecreiros sofriam muito mais do que nós, porque estavam dentro de pelo. Mas nunca vi ninguém desistir nem nunca vi ninguém mal disposto.

Como era contracenar com bonecos?
Era diferente, mas tenho tantas saudades. Assim como tenho saudades de contracenar com o António Feio [responsável pelas dobragens], algo que não vai ser possível de fazer nesta vida, talvez na próxima.

Tem saudades dos bonecos?
Tenho. Criei com eles uma relação não só afetiva como física. No caso do Poupas, ele era muito grande, era difícil de abraçar. Mas aquela mãozinha que ele me esticava a pedir ajuda, ou quando ele ficava triste e virava aquele bico gigante para baixo… Já o Ferrão, tínhamos uma relação quase de namorados. Houve ali uma altura em que acho que me apaixonei um bocadinho pelo Ferrão. Eu não, a Guiomar [risos]. O ator que lhe deu vida acrescentou-lhe um lado maroto. Ele era rezingão mas com a Guiomar ele derretia-se um bocadinho.

Mas o que poucos sabem é que só para fazer o Ferrão eram precisos dois bonecreiros que trabalhavam dentro de um barril. Um fazia a manipulação da cabeça e de um braço e o outro fazia do outro braço. Era um trabalho mesmo muito exigente. Mas era tão bom. Que saudades tenho também dos meus avós, a Avó Chica e o Sr. Almiro. Não eram meus, eram os avós da Rua Sésamo.

Tenho uma franja de fãs que me dizem: “Sigo-a desde a Rua Sésamo”. É uma frase que se não ouço todos os dias, ouço dia sim dia não.”

Era abordada por crianças na rua?
Era muito, mas hoje em dia também. Tenho uma franja de fãs que me dizem: “Sigo-a desde a Rua Sésamo”. É uma frase que se não ouço todos os dias, ouço dia sim dia não. Alguns ainda são novos, mas na altura eram mesmo crianças pequenas, que me dizem que aprenderam a ler com a Rua Sésamo. Esse carácter pedagógico foi muito importante. Até alguns adultos, que eram analfabetos, aprenderam a ler e a escrever com a Rua Sésamo. Era muito didático sem ser aborrecido.

Foi fácil passar desse registo infantil para outros trabalhos?
Foi uma ótima forma de começar. Ser ator em Portugal não é fácil, ou melhor, acredito que não seja fácil em nenhum lugar do mundo. É sempre difícil criar personagens e manter uma vida dita normal, com todas as barreiras e fronteiras que se tem que criar entre os dois mundos. Em Portugal é mais difícil ser ator, como também é mais difícil ser jornalista ou ser médico.

Mas este projeto lançou-me para outros projetos, porque foi uma montra muito digna. Isso deixou-me tão orgulhosa. A Rua Sésamo nunca devia ter terminado. Acabou por razões económicas e nunca por falta de vontade.

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Na altura tinha a noção da dimensão do projeto?
Todos os anos, uma equipa da RTP ia a Nova Iorque fazer uma espécie de refresh, workshops, conhecer novos realizadores e produtores. Nunca havia budget para irem atores nem bonecreiros, mas um ano, eu decidi ir, pagando as minhas despesas. Foi aí que tive a oportunidade de conhecer os estúdios da Rua Sésamo americana. Foi uma viagem a um maravilhoso mundo novo e foi nesse momento que percebi a dimensão do projeto. Como não ia ver montras sozinha nem tinha dinheiro para fazer compras, ficava a vê-los trabalhar. O grau de exigência com que o faziam foi um exemplo para nós.

Estávamos muito atrás?
Não. Aliás, quando eles souberam que eu tinha estudado no Conservatório e que já tinha feito Tchekhov ficavam muito espantados. Lá, normalmente contratavam atores mais ligados às dobragens, quase sem experiência de teatro.

Perceberam então a qualidade do projeto português?
Sim. Principalmente quando vinham cá e viam o que fazíamos nas condições que tínhamos. Viam a Tobis, tão pequenina, com 70 graus em estúdio. Tínhamos que parar para desligar as luzes, para irmos apanhar ar. E perceberam também que todos adorávamos o que estávamos a fazer.

Eram um grupo unido?
Muito. Até os técnicos, mesmo os que vinham a achar que seria uma seca, apaixonavam-se pelo projeto. Já cantavam e tudo. O Vítor Norte ajudava muito, é quase impossível trabalhar com ele e não nos desmancharmos a rir. Foram muitas as vezes que repetíamos porque ele nos desarmava. Havia momentos em que todos queríamos matar o Vítor, mas matar com beijinhos [risos]. E nós tínhamos que ter muito cuidado com o que dizíamos, era um segmento para crianças.

Qual era o seu boneco preferido?
Ai isso é muito chato de se dizer. O meu coração de mãe dava muito colo ao Poupas, mas o meu lado de miúda, namoradeira, tinha escolhido o Ferrão. Riamo-nos imenso os dois, havia muito improviso, se um dizia mata o outro dizia esfola. Com a gata Tita, vinha ao de cima o meu lado mais feminino. Quase que dava lições à Guiomar de como uma menina se devia apresentar, principalmente porque a minha personagem começou por se vestir de forma muito desportiva. Isso também é outro ponto engraçado, a evolução das personagens. O Poupas cresceu, o Ferrão ficou mais chato ainda, mas um chato com razão. As questões que ele punha eram bastante pertinentes.

E sendo uma jovem de 22 anos, bonita, fez com que o seu sucesso chegasse também aos pais das crianças que viam a Rua Sésamo?
Na altura não tinha noção disso, se calhar agora sim. Vejo adultos que me abordam agora e que na altura eram miúdos e que, alguns deles, tiveram uma paixoneta pela Guiomar. Mas ela tinha um ar tão desportivo, tão despretensioso, que nunca pensei muito nisso. Além disso, os americanos são muito pudicos em relação a isso. Se a Guiomar ia à praia, não ia de fato de banho nem de calções curtos. Não lhes interessava ter ali uma sedutora.

Se pudesse dizer alguma coisa à Alexandra dessa altura, o que dizia?
Isso é muito difícil. Por um lado, dizia-lhe para voltar a Nova Iorque e tentar outro tipo de carreira. Mas, por outro lado, não me arrependo de ter ficado em Portugal. Adoro ser atriz cá e nunca tive a ambição de sair daqui. Mas dizia-lhe: “Boa sorte e espero que não te aconteçam algumas coisas que sei que vão acontecer” [risos]. Agora a sério, acho que lhe dizia: “Espero que faças televisão sempre com o mesmo prazer”. A verdade é que eu gostava de trabalhar mais vezes com e para crianças mas, como sabe, não podemos fazer sempre o que desejamos. Mas nessa altura senti-me parte de uma equipa de eleitos e acho que era isso que mesmo que dizia à Alexandra dessa altura: “Nunca te esqueças que tiveste este privilégio”.