Curto, longo, sem princípio, pingado, duplo, americano, carioca, descafeinado. Há várias formas de pedir o seu café, mas uma dúvida pode persistir em todas estas denominações — afinal de que é feito um descafeinado? Sabemos que o curto é um café mais curto, o longo é exatamente o contrário, o sem princípio é sem o início do café, e por aí fora. Então e o descafeinado?

Há quem diga que é feito com o resto dos cafés tirados anteriormente na máquina de um estabelecimento. Outros juram a pé juntos que o descafeinado não tem menos cafeína do que um café normal, enquanto outros ainda garantem que faz mal à saúde. Alguém tem razão no meio disto tudo? Para chegar a uma resposta, fomos falar com quem mais percebe do assunto: os especialistas em café da Associação Industrial e Comercial do Café (AICC).

Grão a grão, lá se vai a cafeína

Antes de chegarmos ao descafeinado, vamos colocar os pontos nos grãos e perceber como é feito o café. Apesar de existirem diferentes processos para obter o café, tudo começa com a colheita do fruto — manual ou mecânica — que está nas plantas. De seguida, o fruto é sujeito a um método de secagem e posteriormente é esmagado, de acordo com a AICC.

Segue-se então a torrefação (os grãos são torrados dentro de um cilindro de metal que gira sem parar) cuja etapa está concluída quando se atinge uma temperatura entre 200 a 250.º C, e passa-se para a mistura, um dos processos mais importantes na produção, já que é daqui que resulta o aroma e o sabor do café — sobre os quais os portugueses são bastante críticos.

Todas estas etapas culminam no embalamento dos grãos, que seguem depois para os restaurantes e cafés ou supermercados. O processo seguinte já conhecemos: chegar a um estabelecimento, pedir um café e esperar que os grãos sejam moídos no momento para reverter a bebida para a chávena.

Eis que lhe é então servido um café normal que resulta de todas estas etapas. Mas em qual delas é que entra o processo que leva ao descafeinado? A resposta está na etapa que se segue à colheita.

“A retirada da cafeína do café é idêntica qualquer que seja o tipo de café posteriormente comercializado. Essa extração é processada através de diversos métodos no grão de café antes torrar (o chamado café verde)”, explica a AICC.

A extração da cafeína é feita através de produtos químicos ou de métodos que apenas utilizam água. E há ainda uma outra forma: a aplicação de dióxido de carbono. Por isso, ao contrário da produção dos grãos de café normais, o café descafeinado implica que os grãos estejam em contacto com algumas substâncias que vão transformar a composição dos mesmos.

Se estes três métodos são uma novidade para si, talvez aquele que suscite mais dúvidas é o que usa químicos. Os compostos usados, de acordo com os especialistas, são o acetato de etilo, normalmente presente de forma natural no grão de café e o diclorometano. Como associamos normalmente os químicos a algo que não é saudável, deduzimos que este método é prejudicial. Ou não será? 

“Estes compostos químicos possuem temperaturas de ebulição relativamente baixas (inferiores a 100ºC) e, mesmo que por algum eventual erro de processo possam permanecer em quantidades superiores ao estabelecido no café verde, durante o processo de torra estes seriam eliminados por vaporização, pelo que se pode afirmar que o descafeinado não é prejudicial à saúde”, garante a associação.

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O descafeinado é feito com o resto dos cafés?

“Um café descafeinado deve resultar apenas e só da extração de café moído descafeinado e nada mais”, afirmam os especialistas da comissão técnica da AICC.

Na eventualidade de algum estabelecimento aplicar esta prática, é considerado um ato ilegal. Isto porque mesmo os restos de café têm cafeína e, caso seja servido um descafeinado usando estes restos, pode ter consequências graves em pessoas que sejam intolerantes ou alérgicas à cafeína.

Um descafeinado não tem cafeína?

“Os cafés e chás descafeinados têm menos cafeína do que os normais, mas continuam a conter alguma cafeína. Por exemplo, um descafeinado tem habitualmente entre 2 a 15 miligramas numa chávena com mais de 200 mililitros”, indica uma investigação do FDA.

De acordo com os especialistas da AICC, a legislação portuguesa estabelece que o café descafeinado deve conter menos de 0,1% de cafeína, ao passo que um café normal tem um valor superior a 1,7%. Apesar de notória, esta diferença não é adequada para quem tem dificuldade em dormir na influência de cafeína.

“No caso de pessoas com problemas de sono, deverá ser evitado. O mesmo para todas as situações clínicas onde o café esteja contra-indicado”, indica a nutricionista Maria Inês Soares à MAGG, exemplificando situações como hipertensão, ansiedade e gastrite.

Contudo, sabemos que há quem seja dependente em cafeína, o que pode até resultar em sintomas como dor de cabeça na ausência de café, sendo por isso mais difícil de cumprir com a contra-indicação dada por um médico.

Nesse caso, “se o consumidor não demonstrar agravamento da patologia ou da situação clínica que leva à contra-indicação, se o método de descafeinização for o mais natural possível e se o consumo for reduzido ao mínimo, a ingestão não é desaconselhada”, conclui a nutricionista.

“É importante a leitura do rótulo da embalagem”

Ainda para esclarecer sobre o facto de o descafeinado ser ou não prejudicial, a nutricionista Maria Inês Soares revela que, de acordo com os dados da agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (FDA), a quantidade de solventes químicos usados atualmente na transformação do descafeinado é demasiado pequena para afetar prejudicialmente a saúde do consumidor. 

No entanto, “é importante a leitura do rótulo da embalagem, procurando um café descafeinado através de um método natural, apenas com água, preservando o sabor e aroma original”, aconselha a nutricionista.