Olá amigos verdes! Estou de volta de uma viagem que serviu não só para retemperar forças como também para levar uma chapada de consciência ambiental todos os dias.

É que sais de Lisboa rumo à América do Sul com aquele snobismo europeu de quem troca o salto alto (figurado, no meu caso) pelo chinelo e o copo de vinho pelo pisco sour e a pensar que “na escola onde estes meninos andam já eu fui professora”. Pois bem. A verdade é que foram quase tantas as vezes que saquei do telemóvel para fotografar exemplos de sustentabilidade como aquelas que o fiz para registar uma das sete maravilhas do mundo.

E comecemos por aí. Fiz um trekking de cinco dias para chegar ao Machu Picchu e posso garantir que o mal, nesta zona, só o da altura. Enjoos e dores de cabeça à parte, a paisagem é incrível e imaculada, sem um único plástico à vista. E sem para isso ter que haver um aviso ou uma ameaça de multa a cada esquina.

Mini Oreo a Granel. E Conguitos. E bolachas de água e sal. E gomas.

É certo que o efeito Greta não passou ao lado do espaço aéreo do Peru e que isto da sustentabilidade tem tanto de urgente como de tendência. Mas aqui, nota-se que a preocupação é orgânica. E porquê? Porque esta gente venera Pachamama. Não falamos aqui do extinto restaurante lisboeta nem da marca de pão artesanal com o mesmo nome. Falamos aqui da Mãe Terra, que para os peruanos é tão essencial como aquela com quem festejamos o primeiro domingo de maio.

Antes de alguém beber um bebida alcoólica, deita um golo ao chão, “para a Pachamama”. Há quem enterre comida e folhas de coca e também quem cante mantras. Javier, o guia que me acompanhou durante a caminhada, confidenciou-me que já fez trekkings mais longos e mais exigentes usando apenas umas sandálias. Com os pés enfiados numas botas da Decathlon e bem almofadados com dois pares de meias, arregalo os olhos e pergunto porquê. “Pachamama”, responde Javier, de braços abertos ao céu. Javier prefere caminhar com os pés o mais próximo do chão possível e, num hábito já pouco comum entre os mais jovens, passa o dia a mascar folhas de coca. Eu também o fiz porque me prometiam que ajudava com a altitude, mas Javier, nascido e criado numa das cidades mais altas do país, mascava porque, bom, “Pachamama”.

Mas para a minha mãe não pensar que estive três semanas enfiada numa seita, voltemos à realidade. Cafés, restaurantes e mercados. Há muita carne e peixe por todo o lado — ou não estivéssemos nós na região do ceviche e do porquinho da Índia (ah pois é, muito fofinhos, mas tal como as alpacas, aqui também se servem no prato) — há opções vegetarianas em todos os restaurantes. Mas mesmo todos. Até nos mercados mais recônditos, onde só vemos locais a almoçar e onde rezamos a Pachamama para que o nosso prato venha livre de bichinhos da natureza que o nosso intestino europeu não consegue digerir.

Crónica. Não vai conseguir acabar com o plástico da noite para o dia, ok?

E foi exatamente nos mercados e supermercados que me deparei com a maior das surpresas: a normalidade do granel. Por cá abrem-se mercearias — e ainda bem, venham elas — a lembrar as compras de antigamente e os hábitos dos avós, mas por lá a coisa não é nova. Aliás, foi com espanto que muitos me viram a fotografar os sacos gigantes de massa fusili ou de arroz integral que cada cliente podia levar na quantidade certa. Mas há mais. Farinhas, feijões, chocolates, bolachas. Até vi Oreo, Conguitos, crakers e gomas de ursinhos. Mas ganharam o meu coração quando me deparei com a secção animal. Comida de cão, gato, piriquito, esterilizado, bebés, adultos. Tudo. E tudo a granel.

Durante três semanas, encontrei lojas com sacos feitos com fécula de milho, deram-me papel higiénico biodegradável para usar na montanha e percebi que a luta contra o uso do plástico naquele país tem tanto de invejável como de cómico. “No quiero eso en mi ceviche” é o mote de uma campanha que pretende diminuir o uso de plástico no país. Foram distribuídos dois mil saleiros cheios de micro plásticos para dar uma noção real às pessoas daquilo que lhes chega ao prato.

Havia comida de animal a granel em todos os mercados e lojas do Peru

É certo que comi ceviche no primeiro dia de férias — que também sou filha de Pachamama — mas a partir dali seguiram-se muitos dias de quinoa, maracujá, manga e abacate. É que se é para comer estas coisas exóticas, que seja quando são colhidas a dois passos de nós. E como para já a outra Marta da MAGG não me deixa abrir uma delegação latina, vim eu com o salero dentro da mala. “Há aí qualquer coisa no fundo da mochila”, avisa o supervisor do aeroporto. O colega chama-me à parte, e no meio dos sacos de souvenirs e roupa suja, encontra o meu tesouro. “Ah, pode passar, é só quinoa”. Respirei fundo, agradeci à Nossa Senhora das Alfândegas e prometi que na próxima salada de quinoa peruana, a primeira garfada é em honra de Pachamama. Amén!