Há duas semanas escrevi um artigo sobre uns vídeos que circularam em grupos de WhatsApp. Dois casais de estudantes faziam sexo em público depois de saírem da Latada, uma festa académica em Coimbra. Como já é habitual, os comentários foram todos dar ao mesmo: por um lado, tínhamos os pais a julgar, mesmo sem contexto, aquilo que aconteceu; por outro, os comentários machistas — que, note-se, também foram deixados por mulheres.

Todos eles tinham um alvo: as raparigas. Nos vídeos que circularam viam-se dois adolescentes, um rapaz e uma rapariga, e nenhum deles estava mais ou menos envolvido do que o outro. Mas por alguma razão as críticas tenderam, como já é costume, a ser redigidas para o sexo feminino.

“Essa agora, a rapariga ‘bebeu demais’, não beba, ponto final! Assim sóbria sabe bem aquilo que faz não vem depois com a desculpa ridícula que é do álcool, pouca vergonha!”. Só para deixar um exemplo.

WhatsApp. Estão a circular vídeos de jovens a terem sexo na rua em festas académicas

Entre os comentários deixados nas redes sociais, há uma mulher que, em conversa com outros utilizadores, afirma que só tem filhos rapazes, mas que, caso tivesse uma filha, aplicaria regras muito mais restritivas. Isto porque, garante, “educar uma rapariga é diferente de educar um rapaz.” Este comentário fez-me perceber que não é só a minha avó que ainda acha que o lugar da mulher é na cozinha. E isso é preocupante. 

Qual é a diferença entre equidade e igualdade?

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O termo mais utilizado é “igualdade de género”, mas os sexos não são iguais — e igualdade é dar a todos o mesmo, independentemente das suas características e necessidades. Só que, repetimos, os dois sexos não são iguais, portanto faz mais sentido falar em equidade. A equidade prevê um ajuste das respostas às necessidades e características de cada um, independente do sexo.

Confesso que fiquei a refletir sobre aquela frase durante algum tempo. De facto é importante ajustar a educação ao género, mas nunca diminuindo um em prol do outro. Mas então, no dia a dia, de que forma é que os pais podem pôr isto em prática? O que é que devem ter em consideração na forma como educam um rapaz e uma rapariga sem nunca descriminar um ou outro?

A psicóloga Rita Fonseca de Castro, especializada em psicologia clínica e terapia familiar, e Raquel Carvalho, formada na área da psicologia clínica infanto-juvenil, ambas da Oficina da Psicologia, tentam ajudar-nos a chegar a uma resposta.

Em primeiro lugar, os pais têm de ter consciência de que os estereótipos existem

Somos todos fruto de expectativas e estereótipos da sociedade. É algo que nos é imposto ao longo da vida, seja em casa, na escola ou no mercado de trabalho. Quando somos pais, inevitavelmente passamos isso para os nossos filhos.

“Todos nós temos heranças da desigualdade de género. A maioria dos pais nem se apercebe que tem as suas próprias expectativas diferentes no que toca ao que deve ser a educação de um menino ou uma menina”, explica à MAGG Raquel Carvalho.

Nunca antes se falou tanto de equidade de género. A minha mãe, por exemplo, tem 49 anos e, há quase 30 anos, era impensável sair à noite. Se por acaso conseguisse ficar na rua até mais tarde, toda a gente sabia e de certeza que tinha alguém a fazer-lhe companhia — ou a vigiá-la, na verdade. Para o meu pai, que tem 53 anos, era exatamente ao contrário. Sempre entrou e saiu de casa quando lhe apeteceu, sem ter de prestar contas a ninguém.

A minha geração é diferente. Aos 21 anos, as regras que me foram impostas foram bastante mais brandas em relação àquelas que a minha mãe viveu. E isso, garante Raquel Carvalho, é essencial: os pais têm de ser capazes de ajustar as suas vivências à realidade atual dos filhos.

“É necessário romper com esse legado”, explica a especialista. “Tendo, primeiramente, consciência dele, como é natural.”

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Em termos práticos, o que é que diverge na educação de um rapaz e de uma rapariga?

A educação parte do exemplo. Para que um rapaz possa ser ensinado a olhar para os dois sexos sem estereótipos, é preciso que os próprios educadores tenham esse tipo de atitudes. De nada adianta tratar um rapaz e uma rapariga da mesma forma se o comportamento enquanto casal não reflete essa equidade.

“Se a criança crescer num ambiente onde não há tarefas exclusivas ou proibidas para o pai ou para a mãe, observando, por exemplo, o pai a coser um botão no casaco ou a aspirar o chão, e observar a mãe a mudar um pneu ou a fazer bricolage, e vice-versa, então a probabilidade de a criança quebrar com os estereótipos existentes na sociedade é maior.”

E qual deve ser o papel da escola neste processo?

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“Não se pode delegar nas escolas toda a responsabilidade para trabalhar esta temática, mas o seu papel é fundamental”, explica Raquel Carvalho. Como fonte de influência sobre as crianças, as escolas e os professorem devem ser também responsáveis pelo trabalho no sentido da equidade.

“Integrar esta temática no currículo escolar através da área de projeto e educação cívica, e implementar Guiões para a Educação Género e Cidadania para todos os graus de ensino”, poderá ser um dos passos relevantes neste processo, diz a psicóloga.

Mas as limitações não são só impostas ao sexo feminino — os rapazes são restringidos à sensibilidade e à fraqueza, por exemplo. O “és um homem ou um rato?” ainda não passou de moda e as crianças do sexo masculino continuam a ter vergonha de chorar, mostrar afetos ou sensibilidade em relação a algo. Nas raparigas, pelo contrário, é esperada vulnerabilidade emocional. Mais um exemplo: a irritabilidade e o recurso à força são mais toleradas nos rapazes do que nas raparigas.

Só que isto pode tornar-se um problema: além de os estereótipos serem errados, podem trazer complicações para as crianças, sejam elas rapazes ou raparigas. A tentativa de reprimir e controlar as emoções e atitudes dos miúdos, e de esconder a sensibilidade do sexo masculino, pode originar dificuldades no individuo, quer nesse período, quer anos mais tarde.

“Este facto tem implicações na própria capacidade de regulação emocional das crianças e adolescentes. Há estudos que indicam que há uma menor procura de ajuda profissional a nível de saúde mental por parte dos homens, que é influenciada por crenças estereotipadas — como por exemplo: “O homem não sofre; o homem é forte”, explica Raquel Carvalho.

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Portanto, é preciso eliminar qualquer estereótipo da educação dos miúdos. Até porque, e isto é essencial compreender, nenhuma criança nasce com estereótipos ou ideias pré-definidas em relação ao outro sexo. Se estas ideias não lhes forem passadas, não vão crescer com elas. É por isso que, explica Rita Fonseca de Castro, é importante não evidenciar ao rapaz que vive numa sociedade mais vantajosa para o sexo masculino. Fazê-lo é, desde logo, incutir-lhe um sentido de superioridade. 

“A existirem momentos em que o rapaz confronte os pais com situações de outro tipo de educação de que se aperceba, como pode acontecer na escola, estas deverão ser igualmente contextualizadas”, explica.

Outro aspeto importante, continua, é permitir que os miúdos tomem as suas próprias decisões: “Deixar em aberto a escolha das brincadeiras por que a criança sente mais interesse e apetência, não assumindo que vai gostar mais disto ou recusar aquilo porque é rapaz ou rapariga”.

Não há uma forma perfeita de educar uma criança. Ninguém consegue garantir que os rapazes e raparigas cresçam com um sentido de equidade, por mais que os pais se esforcem para fazê-lo. No entanto, é essencial que procurem falar abertamente sobre o assunto, até para que se promova um ambiente onde podem discutir a educação que tiveram e o que a sociedade lhes começa a impor — inevitavelmente, alguém acabará por dizer que um menino não pode brincar com uma boneca e uma menina não se pode sentar de pernas abertas.

Mais importante do que incutir um tratamento justo para os dois sexos, portanto, é promover a capacidade de espírito crítico, “ajudando as crianças e jovens a questionar padrões estabelecidos e a refletir sobre questões”, diz Raquel Carvalho. “Por exemplo: faz sentido que um homem ou mulher ganhem salários diferentes quando desempenham a mesma tarefa? Faz sentido que uma rapariga tolere que um rapaz seja violento no namoro porque é rapaz? Faz sentido que não se escolha determinado percurso académico porque é uma profissão ‘de mulheres’ ou ‘de homens’?”. Não faz. E os pais poderão mostrar-lhes isso.