E se o cancro da mama pudesse ser detetado antes de aparecerem os primeiros sinais clínicos? Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Nottingham garante que isto vai ser possível. Na conferência nacional de cancro em Glasgow, na Escócia, que decorre entre 3 e 5 de novembro, os cientistas garantiram que um simples exame de sangue vai conseguir revelar a doença cinco anos antes de os sinais clínicos aparecerem nos pacientes.

O estudo foi realizado através de substâncias químicas, produzidas por células cancerígenas que desencadeiam uma resposta imune, designados por antígenos — substâncias estranhas capazes de entrarem num organismo, desencadearem a produção de anticorpos contra as células cancerígenas (autoanticorpos) e bloquearem os antígenos invasores.

Os cientistas, que fazem parte do Centro de Excelência em Autoimunidade em Cancro (CEAC) de Nottingham, realizaram o estudo com uma amostra de 90 pacientes recém-diagnosticados com cancro da mama para tentarem descobrir se os anticorpos presentes foram desencadeados por antígenos de células tumorais. Dos resultados recolhidos e comparados com um grupo de 90 pacientes sem cancro, os investigadores detetaram que em 37% dos casos, os auto-anticorpos foram desencadeados por antígenos tumorais nos pacientes com cancro da mama. 79% da amostra não tinham cancro.

Daniyah Alfattani, um dos membros da equipa de Nottingham, afirmou: “Conseguimos detetar o cancro com razoável precisão, identificando esses autoanticorpos no sangue. Depois de melhorarmos a precisão do teste, abre-se a possibilidade de usar um simples exame de sangue para melhorar a deteção precoce da doença.

Ter um cancro antes dos 20 anos. “As únicas palavras do médico foram: ‘Tens cancro. Aproveita muito bem porque tens um mês de vida’”

O grupo afirma que é possível detetar cancro da mama precoce desta forma, no entanto outros especialistas da área alertam que estas alegações devem ser tratadas com cautela. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, o epidemiologista de cancro da Universidade de Cambridge, Paul Pharoah, explicou que os dados são “muito preliminares”.

“Seria necessária muito mais pesquisa antes que qualquer alegação possa ser feita de que isso provavelmente represente um avanço significativo na deteção precoce do cancro”, assumiu. O professor de oncologia molecular da Universidade Warwick, Lawrence Young, reconheceu que é uma “pesquisa encorajadora”, mas que é muito cedo para afirmar que este teste é capaz de servir como rastreio do cancro da mama precoce. “É necessário mais trabalho para aumentar a eficiência e a sensibilidade da deteção do cancro”, explica.

A equipa de investigador também reconheceu que é preciso desenvolver mais este teste e para isso estão agora a testar as amostras em 800 pacientes. Daniyah Alfattani salienta as vantagens desde teste de sangue para detetar precocemente o cancro da mama, principalmente nos países com baixos ou médios rendimentos. “Seria também um método de triagem mais fácil de implementar em comparação com os métodos atuais, como a mamografia ”, acrescenta.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 2,1 milhões de mulheres são diagnosticadas com cancro da mama anualmente, e 627 mil mulheres morreram só no ano passado.

Daniyah Alfattani vai apresentar o estudo na conferência anual do Instituto Nacional de Pesquisa do Cancro. Os investigadores acreditam que o teste poderá estar disponível numa clínica entre quatro ou cinco anos, através de um programa de desenvolvimentos totalmente financiado.

Os estudos estão a estender-se para o cancro de pâncreas, colorretal e hepático.”Um exame de sangue capaz de detetar qualquer um desses cancros em um estágio inicial é o objetivo primordial do nosso trabalho”, diz Alfattani.