Antes de mais, pedimos desculpa pela presunção do título. Não queremos insinuar que está desatento ao ponto de não conhecer a nova série elogiada pela crítica. Até porque, neste caso, a culpa não é inteiramente sua. “Modern Love” é a nova produção exclusiva da Amazon Prime Video, o serviço de streaming da Amazon que, pelo menos em Portugal, é pouco falado — embora tenha um catálogo muito interessante, ainda que reduzido quando comparado com o das concorrentes.

É de lá que vem “The Man in the High Castle”, “The Marvelous Mrs. Maisel” ou “Fleabag”, a série vencedora de múltiplos Emmys, inclusive o de Melhor Comédia — batendo outras grandes produções na mesma categoria como “Russian Doll”, “The Good Place” e “Veep”.

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Além dos exclusivos disponíveis, é o único serviço de streaming em Portugal onde, por enquanto, pode ver séries como “Seinfeld” ou a versão americana de “The Office”. E embora não haja números oficiais que mostrem o grau de popularidade do serviço em País, será provavelmente o mais desconhecido de todos — em parte porque a empresa nunca teve grande presença no mercado português através de campanhas de publicidade ou de afirmação de marca.

Mas o paradigma promete mudar em breve depois de, em agosto, ter sido assinado um contrato de distribuição na Europa que vai permitir que o serviço da Amazon faça parte da oferta para clientes MEO. Isto surge numa altura em que o mercado se encontra à beira da saturação — espera-se que, só nos próximos meses, cheguem a Portugal os novos serviços de streaming da Apple e da Disney. Já vamos em quantos?

Mas de volta às séries, “Modern Love” deverá continuar a passar despercebida em Portugal mas é uma das grandes estreias de outubro que tem conquistado a crítica internacional.

Embora seja criada por John Carney, é inspirada na famosa coluna do jornal “The New York Times” que, todos os domingos, publica as melhores histórias de amor dos seus leitores. As histórias reais, muitas vezes contadas em excertos de cerca de 1.500 palavras, falam de como é estar apaixonado ou manter uma relação num mundo contemporâneo, moderno e frenético.

Daniel Jones, jornalista e editor da coluna do jornal, ajudou o criador da série a adaptar algumas das histórias para a televisão e revela em exclusivo ao “Express” que, embora a base das histórias seja real, a equipa responsável pelo argumento e produção da série tomou algumas liberdades criativas.

“Os episódios inspiraram-se, mais do que se basearam, nas histórias que publicámos na coluna porque os produtores tomaram algumas liberdades criativas em alguns dos casos e mudaram os nomes das personagens. Mas diria que na metade desses casos eles foram muito fiéis às histórias originais. Noutras situações foram um bocadinho mais longe”, explica.

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Mas embora o tema principal da série seja o amor, Daniel Jones garante que aqui não se assiste a uma representação hollywoodesca do que é o romance entre duas pessoas.

“Um dos fatores diferenciadores da série face a outros projetos é que aqui se fala de vidas reais que não estão polidas, que têm finais que não são expectáveis e que não correspondem à representação do amor tal como os escritores de Hollywood o entendem”, continua.

No primeiro episódio, por exemplo, é dada a conhecer a história de uma mulher que tenta encontrar o seu par romântico através de sucessivos encontros que parecem nunca resultar. Até porque, cada vez que conhece um homem novo, sente a pressão de que o porteiro do prédio onde vive, aprove os potenciais parceiros. E nenhum parece passar no teste.

O que diz a crítica?

Ainda que não esteja previsto que a série se torne num sucesso de audiências, “Modern Love” é considerada uma produção “fofinha” pela maior parte dos críticos de televisão. A revista “Forbes”, por exemplo, escreve que a “série está feita para ser muito fofinha, mas não muito mais do que isso”.

“No geral, são oito histórias curtas de amor. Se um episódio em particular mexer convosco (e suspeito que pelo menos um vai mexer), isso é incrível. Não vejo a série a ter um grande impacto junto dos espectadores. Mas se estiverem a ter um dia mau e quiserem sentir-se melhor, peguem nas pipocas e ponham-se confortáveis”, lê-se na crítica à série.

Já o jornal britânico “The Independent” diz que a série ganha pontos por mostrar uma visão “encantadora sobre a decência humana”, onde vale “sempre a pena percorrer o arco-íris porque, eventualmente, consegue-se chegar ao outro lado.”

“O mundo pode parecer terrivelmente escuro e assustador nos tempos que correm. ‘Modern Love’ diz-nos que de vez em quando é bom afundarmo-nos em doses de otimismo”, e que é essa sensação que a série proporciona ao longo dos episódios.

O que diz Miguel Somsen?

Em Portugal foi difícil encontrar quem tivesse visto a série, precisamente porque há quem não tenha interesse em subscrever mais um serviço de streaming que não faz por se dar a conhecer a potenciais utilizadores.

Mas Miguel Somsen, entusiasta e crítico de cinema e televisão, teve oportunidade de ver os oito episódios de rajada e diz à MAGG que “Modern Love” é uma série facilmente recomendável, “até porque uma série nova não deve ser desdenhada, especialmente com oito episódios” que, garante, se veem “muito facilmente”.

"Nova Iorque não pesa muito, mas dá a 'Modern Love' uma aura típica dos filmes de Woody Allen. É uma mística especial", garante Miguel Somsen

Miguel Somsen

“Hoje somos hiper-realistas com a hipersexualidade das relações e com os comportamentos que temos online. Face a isso, a série vai no sentido totalmente contrário. Aliás, recupera elementos do romance, que achava que podiam ser meros acessórios e estar completamente ultrapassados, para se focar naquelas histórias de amor”, explica.

E embora seja uma série regular, com um ritmo e uma atmosfera muito próprias, Somsen diz que há episódios fortes e outros que são um “bocadinho mais fraquinhos”. Ainda assim, destaca o segundo capítulo “sobre um criador de uma app de dating que, como não podia deixar de ser, tem problemas nos seus relacionamentos.”

Mas porque falar de amor moderno implica que se esteja atento a temas contemporâneos e prementes, há episódios duros como aquele em que Anne Hathaway é protagonista e no qual, diz Somsen, “se descreve muito bem o que é sofrer de depressão e de bipolaridade” num episódio também ele muito bipolar em ritmo.

“Há outro sobre um casal gay que quer ter um filho e que, para isso, acaba por contratar uma barriga de aluguer que é uma mulher sem-abrigo.” Mas embora considere que é fácil ser-se cínico em relação à série, porque fala do amor e de um lado da vida mais cor de rosa, “é uma série mesmo fofinha para um domingo à tarde e que se vê toda de uma vez.”

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E continua: “É o que as pessoas querem, porque é transversal e porque funciona bem. Quando se chega ao final da história, vê-se como John Carney [o criador] foi capaz de embrulhar tudo aquilo de forma muito elegante e bonita.”

Os episódios passam-se em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e embora não tenha grande destaque, contribui para a aura e a mística da série.

“Nova Iorque não pesa muito, mas dá a ‘Modern Love’ uma aura típica dos filmes de Woody Allen. É uma mística especial porque faz de Nova Iorque um lugar regional que, além disso, também pertence ao mundo e que serve como caixa de ressonância para as relações amorosas ali retratadas”, conclui.

“Modern Love”, da Amazon Prime Video, já foi renovada para uma segunda temporada. No elenco estão nomes como Anne Hathaway, Tina Fey, Julia Garner, Cristin Milioti e John Slattery.