Crónica

Marta partiu "não acompanhada" para Bali. Objetivo? Aprender mais sobre comida vegan raw

"A palavra 'sozinha' remete-nos para solidão, e se há coisa que eu não senti foi solidão", explica. Na primeira pessoa, ela conta-nos tudo sobre esta experiência transformadora.

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Ingressei num curso de três semanas na Alchemy Academy para aprender a preparar alface das mais diversas maneiras

Ingressei num curso de três semanas na Alchemy Academy para aprender a preparar alface das mais diversas maneiras

Uma das co-fundadoras do Yum Lab, um projeto de partilha de conhecimento sobre comida saudável, Marta Candeias esteve em Bali para tirar um curso de três semanas na Alchemy Academy, uma escola de culinária de comida vegan raw — comida vegan crua, portanto, ou cozida até ao máximo de 42º C.

O objetivo da escola é educar para uma revolução consciente: partilhado a paixão por comida nutritiva e saudável, contribuem para uma humanidade e um planeta mais saudáveis. Será que o objetivo foi cumprido? Das pessoas aos ensinamentos, das maiores dificuldades às lições que nunca mais vai esquecer, Marta Candeias conta-nos tudo na primeira pessoa.

“Um mês em Bali. E um mês que teve de tudo. Não é mesmo por acaso que se diz que é impossível ficar-se indiferente à ilha dos Deuses.

Mas vamos por partes. E comecemos pelo principal motivo (achava eu) que me fez sair da minha zona de conforto e meter-me num avião sozinha: comida. Vegan. E raw. Aos olhos dos mais críticos, ingressei num curso de três semanas na Alchemy Academy para aprender a preparar alface das mais diversas maneiras. E se as há! Mas não. A healing food (alimentos que curam), expressão muito usada durante estes dias, é muito mais do que folhas e plantas.

Elti. Um restaurante sem rótulos e sem desperdício

Sim, cura. A todos os níveis. O “eat medicine every day and never get sick”, lema da Shanti Allen, fundadora da academia, é mesmo levado à letra. Todas as manhãs começavam com um shot. Todos diferentes, com ingredientes que servem um objetivo específico, mas nem todos deliciosos. Terminar o de folhas de papaia (puro) é um verdadeiro desafio (abençoada rodela de limão que veio tornar o processo mais agradável). Mas, sinceramente, aqui o sabor é o que menos interessa. Desculpem a minha frontalidade, mas quem vai a uma farmácia à procura de um menu de degustação que atire a primeira pedra.

O que conta verdadeiramente são as propriedades de cada um destes “remédios” naturais e o impacto positivo que vão causar no nosso bem-estar. Quando sabemos (e sentimos) os benefícios de tomar um “básico”, mas poderoso, sumo de aipo em jejum — conhecido por ser uma bebida altamente alcalina que, segundo os especialistas, melhora significativamente a digestão e a saúde geral do intestino e, pelas suas propriedades anti-inflamatórias, é essencial para os que sofrem de doenças auto-imunes —, automaticamente o nosso discurso passa a ser outro: “Shot? Que venha o jarro se faz favor”.

Tomada a bomba matinal, normalmente depois da aula de ioga ou de meditação, era tempo de fotografar. Não, não havia no horário do curso um espaço dedicado à fotografia, mas era impossível ficarmos indiferentes ao pequeno-almoço que os voluntários da academia nos preparavam diariamente.

E, aqui, o objetivo estava longe de ser o de captar o melhor ângulo da bowl ou de fazer sobressair as cores da pitaya. Embora os olhos também comam, o desafio era que sentissem também. Não queríamos de forma alguma filtrar a boa energia, nem tão pouco deixar de realçar a magia daquele lugar. Ajuste? Só na quantidade de frutos secos, porque dispensá-los estava fora de questão. Sem qualquer sombra de dúvida que é nestes pequenos (grandes) momentos que começamos a olhar para a vida de uma perspetiva diferente. Somos atingidos por uma onda de inspiração, sem que a procuremos de forma consciente. Os gestos e as ocasiões de partilha constantes, sem tabus ou quaisquer juízos de valor, as conversas sem cronómetro e a simplicidade que vemos no “outro”, fazem-nos mudar o foco e exigir viver o presente, em contraste com o automatismo e encontros à velocidade máxima de um flash a que, muitas vezes, estamos habituados.

Foi ali, em Bali, com aquelas pessoas escolhidas a dedo, que se me deu o clique. E há lá legenda para isso. Trocadilhos à parte, não trocaria esta viagem por nada.

Corpo e mente bem nutridos e conversas deixadas a meio, era então altura de pôr as mãos na massa (raw, claro). Mas porquê raw? A resposta está nas enzimas, no facto de não sobreviverem a altas temperaturas, o que poderá comprometer uma boa digestão e o papel que desempenham numa dieta anti-inflamatória. Por alguma razão, a expressão “enzymes are the life force” é muito usada pelos gurus da área. E agora por mim, que adotei a máxima do “sentir para crer”. Para além de matar as enzimas, as temperaturas elevadas destroem as vitaminas e os minerais, essenciais ao bom funcionamento do nosso organismo.

Mas desengane-se quem ache que tudo se resume a comida crua. Uma alimentação raw (ou “viva”, como muitos chamam) tem por base alimentos de origem vegetal que não tenham sido sujeitos a temperaturas superiores a 42ºC (sendo que há quem defenda um valor que ronde os 46ºC, 48ºC). O desidratador, um equipamento que nos permite não exceder este limite, passa então a ser um dos nossos melhores amigos na cozinha. Pelo menos, era presença assídua nas nossas aulas.

Desde “iogurtes” e “queijos”, com vários módulos e demonstrações dedicados ao processo de fermentação — que fizeram com que o kimchi deixasse de ser chinês (até porque é coreano) —, passando pelo sushi e pelas pizzas, aos merengues e cheesecakes, tudo é possível. E permitido, já que nem o chocolate ficou de fora. Fora, só mesmo o que não fosse reciclável ou compostável, já que o desperdício zero era prática diária.

Na Academia, planta-se, colhe-se, cozinha-se e come-se. Sem dúvida que o meu jantar favorito foi o mexicano, não fosse eu a maior fã de nachos, chili e guacamole, mas confesso que as saladas, cobertas por molho pesto ou molho caesar, mas completamente despidas de qualquer culpa, foram elevadas a todo um outro nível.

Yum Lab. Preparem-se, a Marta e a Inês vão pôr-vos mais saudáveis

E, nesta mesma academia, também se adapta. Um gesto tão importante, mas tantas vezes esquecido em outros lugares. Eu, pessoa que franze o nariz a qualquer adoçante, ainda que na despensa não houvesse nenhum tipo de açúcar refinado à nossa disposição, jamais fui confrontada com olhares reprovadores ou sujeita a um certo desconforto por esta minha mania opção. Tudo é genuinamente aceite. A facilidade com que, ali, se mantém um estilo de vida vegano e saudável, sem abdicar da parte social, foi o que mais me conquistou. O não constrangimento ou a necessidade de ceder a pressões sociais só porque se opta por algo diferente do que, ao dia de hoje, é comum, dá-nos um verdadeiro sentimento de pertença e de relaxamento.

Por falar em relaxar, nem tudo se resumia às quatro paredes, ou falta delas, da Alchemy Academy. Embora tivéssemos vontade de lá passar as 24 horas do nosso dia, havia sempre tempo para excursões a spas onde, mais uma vez, a natureza e o que dela colhemos eram os ingredientes principais, e a restaurantes. E que restaurantes! Para além de visitarmos os “bastidores” — spoiler alert: há salas dedicadas exclusivamente à produção de chocolate (e mais não digo!) —, tivemos o privilégio de assistir a demonstrações ao vivo dos respetivos chefs. O wrap de abóbora com “queijo” de caju, do Moksa, é uma verdadeira ode ao paladar. E ao bem-estar, ou não fosse o lema deste lugar “Everybody loves food. However, certain types of food really love you back!” E a sopa de batata doce e moringa com “leite” de coco, do Zest? Ou as sobremesas do Alchemy…

Esta viagem foi um despertar, em todos os sentidos. O “vou pela experiência gastronómica” cai por terra — literalmente, já que o mês que lá estive ficou marcado pelos vários sismos que se fizeram sentir (#prayforlombok) — quando o que ganhamos vai muito para além da comida.

Bali não é apenas um destino de surf ou o paraíso para quem procura um estilo de vida mais saudável no que respeita a alimentação. É verdade que ondas não faltam e que, em cada esquina, damos de caras com restaurantes que não ficam de fora do roteiro dos mais céticos, mas são as pessoas que fazem daquela ilha uma verdadeira fonte de inspiração. E o viajar não acompanhada (a palavra “sozinha” remete-nos para solidão, e se há coisa que eu não senti foi solidão) faz-nos estar mais disponíveis para as observar e assimilar o que nos rodeia. Ao fim de muito pouco tempo, sentimos que fazemos parte daquele lugar e deixamos de ser meros convidados. E os balineses, os grandes anfitriões, são os principais responsáveis. Por acreditarem no karma, proporcionam-nos uma verdadeira sensação de “welcome home”. A facilidade com que celebram e vivem a vida é contagiante e, sem nos darmos conta, passamos a querer adotar toda aquela simplicidade.

5 formas de tornar o seu dia a dia mais sustentável

Um dia, o Madê, motorista que muitas vezes me acompanhava, disse-me que não se considerava muito inteligente porque não era ambicioso como o filho. O que o deixava verdadeiramente feliz eram os momentos e os lugares e que, para ele, o ter menos lhe dava mais liberdade. Apesar de ele não se aperceber, isto é um verdadeiro tipo de inteligência que não precisa de qualquer certificado.

No final daquela conversa, já a caminho do meu quarto, parei. Parei para pensar. Pensar neste desapego e nesta forma de estar realmente presente que o Madê me ensinou. Aos 28 anos, chegou o momento em que, de forma despropositada (ou não), me obriguei a refletir sobre o que me apaixona e qual o caminho que quero percorrer. E este exercício é fundamental. Seja em Bali ou em qualquer outra parte do mundo. Mas foi ali, naquele sítio mágico, que tudo ficou mais claro para mim.

Terima Kasih.”

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