Domingo, 10 de junho de 2007. Numa altura em que as famílias ainda se juntavam religiosamente em frente à televisão para acompanhar um programa, estreava-se o último episódio de “Os Sopranos” na HBO. O final de uma das séries mais importantes do canal foi visto por uma média de 11,9 milhões de espectadores e marcou um aumento de 49% face às audiências do penúltimo episódio.

Os dias seguintes à estreia foram de um enorme burburinho. Além do luto de ver chegar ao fim uma das séries mais queridas do público, o famoso ecrã negro no final do episódio deu lugar à frustração, à raiva e ao ódio de muitos espectadores. Tanto que hoje ainda é alvo de discussão e teorias.

E porque a fase final do luto é a da aceitação, os fãs e a própria HBO começaram a olhar para aquela que pudesse ser a grande sucessora de “Os Sopranos” e da era dourada da televisão composta por clássicos como “O Sexo e a Cidade” e “Sete Palmos de Terra”.

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E falar em série sucessora é, acima de tudo, falar em produções que sirvam como âncora do canal, que sejam capazes de pôr toda a gente a falar dela, que gerem multidões e, por fim, dinheiro à HBO. “Os Sopranos” foi tudo isso: marcou a mudança de paradigma na forma de se fazer televisão, gerou T-shirts, pósteres, canecas e toda uma parafernália para os fãs e formou um culto em redor daquela história e daquelas personagens.

A HBO e a procura de uma nova série âncora do canal

Em 2011, chegou “A Guerra dos Tronos” que gerou precisamente o mesmo efeito mas a uma escala maior, batendo o recorde de audiências de “Os Sopranos”. Cerca de oito anos depois, a história repete-se: “A Guerra dos Tronos” termina e voltamos a questionar-nos sobre qual vai ser a próxima grande série a servir de âncora da HBO.

Pelo meio estreou-se “Westworld”, que não foi assim tão popular, e “Succession”, que embora só recentemente esteja a ser elogiada pela crítica internacional, tem cerca de 600 mil de espectadores por episódio — o que equivale a um décimo das audiências que “Os Sopranos” conseguiu nas primeiras temporadas. Além disso, e a caminho da terceira temporada, não é expectável que “Succession” se torne maior do que já é.

É neste contexto que surge “Watchmen”, aquela que promete ser a nova grande série da HBO ao reunir um conjunto de grandes nomes do meio para continuarem o livro de banda desenhada publicado em 1987.

Além de Regina King (“Se Esta Rua Falasse”) e de Jeremy Irons (“Os Bórgia”) nos papéis principais, a série conta ainda com a banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, responsáveis pela música em filmes como “A Rede Social” (que lhes valeu um Óscar em 2011) e “Em Parte Incerta”.

Damon Lindelof. De “Perdidos” a “Watchmen” (que o deixou “miserável”)

Mas o nome principal desta série é o de Damon Lindelof, o argumentista americano que regressa à televisão depois de “Perdidos” e “The Leftovers”. No entanto, e segundo fez saber numa entrevista que deu à “Vulture”, este é um projeto que o deixou “miserável”, e que só aceitou fazer depois do terceiro pedido da Warner Bros em conjunto com a HBO.

As recusas sucessivas tiveram que ver com o facto de Alan Moore, o escritor do livro, nunca ter aprovado qualquer adaptação para cinema ou televisão do universo que criou.

Esta posição terá sido agravada depois de ter perdido os direitos da obra já que, no contrato que assinou com a DC Comics, uma das maiores editoras de banda desenhada, ficou estabelecido que os direitos autorais de “Watchmen” lhe pertenceriam se o livro alguma vez deixasse de estar em circulação e a editora não quisesse reutilizar as personagens e o universo.

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Problema? O livro foi um sucesso e ainda hoje continua a vender milhares de exemplares por ano — o que significa que a história já não pertence a Alan Moore que, entretanto, cortou relações com a editora.

Em entrevista à mesma publicação, Damon Lindelof falou do dilema ético e moral que o fez perder várias noites de sono durante as gravações dos episódios. “Quais são as ramificações éticas de a série existir quando estou completamente do lado do criador e reconheço que ele foi explorado por uma empresa? É que essa mesma empresa está-me a agora a pagar para continuar isto.”

“Se eu soubesse que outra pessoa estava a fazer uma série da HBO chamada ‘Watchmen’ e que não seria uma adaptação do livro, provavelmente ficaria muito zangado. E depois ia vê-la [risos]”, revelou.

Mas o argumentista diz ainda que o facto de só ter a aprovação de um dos criadores do livro (Dave Gibbons, o ilustrador) terá contribuído para achar que Alan Moore, que sempre disse ser praticante de magia, lhe deitou mau-olhado.

“Vou dizer uma coisa completamente ridícula mas com toda a sinceridade: estive durante muito tempo convencido de que o Alan Moore me tinha lançado mau-olhado”, revelou. E identifica os vários efeitos psicológicos que sentia diariamente. “Nunca tive pensamentos suicidas, mas senti-me muitas vezes sem forças e sem esperança para sair da cama”. Damon garante que não tem dúvidas de que todas essas sensações estão ligadas à série.

“O que dizia muitas vezes às pessoas que trabalhavam comigo era: ‘Isto foi um erro gigante. Nunca deveria ter feito isto, porquê é que aceitei?”, confessou.

“Apesar de haver um grau de narcisismo enorme em acreditar que ele perdeu tempo a deitar-me mau-olhar, a verdade é que fiquei mesmo convencido disso e pensei: ‘Pelo menos vou sentir-me constantemente miserável e mereço isso’. Os profissionais na área da psicologia provavelmente vão dizer que criei esta ideia como forma de me reconciliar com a imoralidade de ter aceite este projeto.”

“Watchmen” como retrato dos Estados Unidos da América de Donald Trump

Ao contrário do que acontece no livro original, que se passa em 1985 e onde a ameaça global é a de uma guerra nuclear com a União Soviética, a série da HBO é mais atual. Passa-se em 2019 e aborda o clima de tensão racial que se vive nos EUA e que obriga agentes da polícia a cobrir o rosto com máscaras para não correrem risco de vida — vítimas de uma organização criminosa ligada à extrema-direita.

E embora envolva máscaras, a série não é de super-heróis. Aqui a ideia não é desconstruir o mito do super-heróis, que já foi feito no livro, mas sim perceber o que acontece quando usamos uma máscara, por que razão o fazemos e de que forma poderá isso alterar o nosso comportamento numa sociedade à beira da violência.

Porque é que as cenas de “A Guerra dos Tronos” estão cada vez mais escuras?

Será que no meio da violência e do caos, que só podem representar o extremismo e o racismo dos EUA de Donald Trump, as máscaras servem como pretexto para que estes agentes possam, também eles, ser violentos sob proteção do anonimato?

Parece ser esse o caminho de Damon Lindelof, assumindo-se crítico do status quo, da brutalidade policial e da intolerância propagada pelo presidência do país onde vive.

O primeiro episódio de “Watchmen” estreou-se esta segunda-feira, 21 de outubro, na HBO Portugal e vai contar como nove episódios.