Uma feira com produtos locais é quase sempre sinónimo de uns enchidos pendurados nas bancas, uns queijos — cujo vendedor nem precisa de ter trabalho a chamar pelos clientes, porque o cheiro encarrega-se disso — uns frascos de mel e, logo ao lado, um frasco com polén de abelha.

Esse produto tem feito sucesso nas feiras, mercados e, como sempre que há procura, também nas prateleiras do supermercado. Mas afinal para que é que serve? Porque é que o polén de abelha se tornou mais popular nos últimos tempos? Tem benefícios nutricionais? É mesmo um superalimento?

A nutricionista Rita Lopes e o apicultor João Teixeira Gomes explicam.

Da flor até ao frasco — como é que o polén de abelha chega até nós?

“O pólen é, possivelmente, um dos produtos da colmeia mais trabalhoso de se obter”, indica João Teixeira Gomes, responsável técnico da empresa apícola APICANT Queen Bees, em Cantanhede. O apicultor explica que o processo começa com a seleção e preparação das colónias destinadas à produção, nas quais são aplicados os capta pólens. 

São estes dispositivos, explica João, que retêm à entrada da colmeia o polén que as abelhas operárias recolheram no campo. Iniciando-se o processo de produção e recolha de pólen, este é armazenado em arcas frigoríficas.

“A segunda fase do trabalho é a desidratação do pólen”, que, segundo o apicultor, é a etapa que antecede a fase de limpeza, onde é removida alguma sujidade — como patas ou asas de abelhas — e os grãos são calibrados. Por fim, o polén é embalado (em bidón ou frasco selado) e aí é administrado gás carbónico, para garantir a máxima segurança alimentar.

Tal como no caso do mel, há dois tipos de pólen: o monofloral e o multifloral. O primeiro, como o nome indica, é aquele que tem “quase exclusividade de uma só origem botânica”, explica o apicultor. Já o multifloral resulta de um contributo de várias flores, proporcionando propriedades bioquímicas variadas.

É por isso que, como refere a nutricionista e coach nutricional Rita Lopes, a composição nutricional pode variar: “Depende da sua origem e de fatores como as condições climatéricas, o tipo de solo, a atividade dos apicultores e os diferentes processos de armazenamento e produção comercial”.

Mas para ter uma ideia, em média o pólen de abelha tem aproximadamente 35% de proteína, 40% de açúcares, 5% de gordura, 4% a 10% de água e 5% a 15% de outras substâncias (como vitaminas, minerais e antioxidantes).

Com valores tão variados, como é que vamos saber distinguir qual é que tem maior valor nutritivo? É preciso ter olho para a coisa: “O valor nutritivo tende a ser superior quanto maior for a diversidade na origem botânica do conjunto de pólens. Este pormenor poderá ser aferido a olho nu na diversidade de cores que encontramos nas ‘pepitas’ ou grãos de pólen que completam as embalagens”, explica João Teixeira Gomes.

O polén já era usado há milhares de anos antes de virar moda

Dependendo das regiões do mundo, há milhares de anos que os povos consomem os chamados superalimentos — alimentos com elevada densidade nutricional, considerados especialmente benéficos para a saúde. Por isso, alimentos como a chia, a maca ou as bagas goji não são novidade.

Só que a crescente procura por alimentos funcionais — definidos pela Ordem dos Farmacêuticos como alimentos com efeito benéfico numa ou em várias funções específicas do organismo — fez com que os consumidores estivessem mais atentos aos superalimentos, como o pólen de abelha.

E este não é o único do grupo dos produtos apícolas: “Não só o pólen de abelha, mas também a geleia real, própolis e o mel têm vindo a ganhar destaque e interesse comercial dadas as suas potenciais propriedades terapêuticas”, refere Rita Lopes.

“O pólen, à semelhança do mel, são dois superalimentos de fácil acesso, económicos e ecológicos. É natural que a procura continue a aumentar, até porque a oferta também está a crescer”, indica o apicultor João. Mas surge aqui uma dúvida: será assim tão económico dado que o valor por frasco nunca é menor do que 4€?

“Se considerarmos que os custos envolvidos no processo de recolha, tratamento, embalamento, conservação e distribuição e os valores de venda, por quilo de pólen, são por vezes próximos do limiar dos custos de produção, podemos concluir que o valor do pólen não é elevado”, refere João Teixeira Gomes.

Contudo, há uma forma de amenizar os custos. Uma delas é optar por embalagens de média dimensão e não pelas mais pequenas. E o segundo passo, facilitado pela venda online, é comprar diretamente ao produtor — tarefa que evita o acréscimo de várias margens de lucro quando o polén é comprado em grandes superfícies.

Afinal os vegans podem ou não consumir mel?

Mas o que é que há de tão benéfico?

Além de ser um alimento rico nutricionalmente, como indica a especialista Rita Lopes, é designado como um alimento completo: “Contém todos os aminoácidos essenciais, necessários para o organismo humano e que este não consegue produzir. A sua composição, não só em macronutrientes, mas também em micronutrientes, poderá trazer vantagens e benefícios para a saúde humana, nomeadamente com fins terapêuticos, como tem vindo a ser estudado”.

E que benefícios são esses? Há uma lista interminável de benefícios, mas destacamos alguns: proteger as células dos danos causados por radicais livres, associados a doenças crónicas, prevenir enfartes e AVC, nos homens pode reduzir a dor em inflamações não bacterianas da próstata, é anti-inflamatório, auxilia o processo digestivo e a regulação da flora intestinal e melhora em caso de fadiga física e mental.

Como em quase tudo, porém, há um reverso da moeda — e no caso do polén não é diferente: “Natural não significa ser seguro. Não é considerado seguro para mulheres grávidas ou durante a amamentação, nem em casos de toma de medicação anticoagulante“, explica a nutricionista, que acrescenta que também pode ser arriscado para pessoas que tenham alergia ao pólen do ar, já que pode causar uma reação alérgica grave (incluindo falta de ar, urticária, inchaço e anafilaxia).

O polén pode ser consumido em jejum

Para reter os nutrientes do polén mais facilmente, a nutricionista indica que pode ser consumido em jejum “para uma assimilação pelo organismo humano mais potenciada”. Mas além deste, há outro método: o processo de mastigação.

E é a mastigar que se obtêm também as calorias, que correspondem a 50 kcal por colher de sopa de pólen de abelha (20g), que é também a dose diária recomendada. Seja para aumentar ou perder peso, ou qualquer outro objetivo, o polén de abelha pode ser usado em várias receitas.

“Basta dar asas à imaginação”, diz a nutricionista, que dá alguns exemplos. “É possível adicioná-lo a iogurtes, sopas, batidos de fruta e/ou legumes, papas de aveia ou de cereais. Pode também ser consumido juntamente com fruta ou até em saladas”. Pode ainda juntar os grãos em chás ou infusões, já que se dissolve facilmente. Como as alternativas não se esgotam há mais duas: triture e use na confeção de pães ou bolos.

Se não sabe por onde começar, deixamos uma primeira dica: um batido de frutos vermelhos e pólen de abelha. A receita é da nutricionista Rita Lopes.

Ingredientes:
1 Chávena de leite de vaca ou bebida vegetal (sem adição de açúcares).
1 Banana pequena.
1 “Punhado” de frutos vermelhos (frescos ou congelados).
1 Colher de sopa de pólen de abelha.

Preparação:
Triturar todos os ingredientes com auxílio de uma liquidificadora, à exceção do pólen de abelha.
Depois de triturados, verter para um copo e polvilhar com o pólen de abelha.