Joana Amaral, 35 anos, notou que a menstruação começou a falhar com alguma regularidade há cerca de quatro anos. “Como também nunca fui muito certinha, acabei por desvalorizar”, conta à MAGG a gestora imobiliária. Joana deixou passar muitos meses até procurar ajuda e fazer exames médicos para tentar perceber o que se passava, mas já tinha algumas suspeitas.

“A minha mãe trabalha na área da saúde, eu também tenho alguns conhecimentos, e é verdade que comecei a desconfiar. Achei que era muito nova para estes sintomas, achava esquisito, mas a ideia da menopausa ocorreu-me”, partilha Joana Amaral, a quem foi diagnosticada uma menopausa precoce aos 32 anos. “Mas como demorei muito tempo até ir ao médico, presumo que aos 31 já estivesse a passar pela transição.”

Joana fez várias análises clínicas, exames genéticos e o diagnóstico acabou por chegar. “Foi como levar um autêntico murro no estômago, não é fácil de ouvir. Foi um tumulto de sensações, e a minha cabeça foi logo para o tema filhos” — um assunto no qual a gestora imobiliária nunca tinha pensado seriamente.

“Nunca pensei muito em ter filhos, mas quando nos dizem que não podemos ter, ou pelo menos não da forma mais fácil, pensamos automaticamente logo nisso. Depois também pensei como é que, aos 32 anos, estava a receber uma notícia destas, que alterações é que ia ter no meu corpo, na minha vida”.

A menopausa é um processo biológico, normal e esperado na vida de uma mulher. Corresponde ao fim das menstruações espontâneas, assinalando assim o fim da fertilidade, devido à falência dos ovários.

“Falamos de menopausa quando a mulher passa um ano consecutivo sem menstruar, em que se deu uma falência ovárica, correspondendo assim ao fim da capacidade de ovular”, explica à MAGG Pedro Faustino, médico ginecologista no Hospital Lusíadas Lisboa.

De acordo com o especialista, este processo fisiológico “ocorre normalmente entre os 45 e os 55 anos”, existindo dados que apontam os 48 anos como a idade em que mais mulheres portuguesas passam pela menopausa espontânea. No entanto, Pedro Faustino realça que a menopausa pode chegar mais cedo.

“Em termos teóricos, a menopausa precoce é aquela que ocorre antes dos 40 anos. Mas vale a pena referir que quando este processo chega entre os 40 e os 45, e apesar de não ser catalogada como precoce, também consideramos que ocorre cedo demais.”

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Mas é possível que esta tão importante alteração na vida de uma mulher chegue em idades mais jovens, como 20 ou 30 anos? “É muito raro, mas pode acontecer”, salienta o médico ginecologista. E aconteceu. Com Joana e com Maria (que prefere não revelar o apelido), que tinha apenas 17 anos quando recebeu o diagnóstico.

Maria é medicamente infértil desde os 17 anos

“Depois de três anos em tratamentos hormonais e estudos genéticos, foi-me confirmada uma menopausa precoce. A médica disse-me que, devido a um atrofiamento dos ovários, era medicamente infértil desde os 17 anos”, relata a chefe de cozinha numa unidade hoteleira, hoje com 39 anos.

Maria não passou por uma infância fácil: nasceu com uma fenda palatina (uma malformação que ocorre quando o céu da boca apresenta uma fenda que se prolonga até à cavidade nasal) e passou por três cirurgias entre os 6 meses e os 7 anos. “Tive terapia da fala e aprendi a viver com a diferença”, diz a chefe de cozinha.

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Esta notícia, numa idade tão jovem, é “realmente um grande choque”, afirma Sílvia Botelho, psicóloga clínica, à MAGG. “Claro que há pessoas que ficam mais chocadas do que outras, também dependendo dos objetivos de vida de cada uma. Mas ficam sempre muito transtornadas.”

A especialista refere que existem até mulheres que perpetuam a mentira da família mais chegada, mesmo do companheiro. “Não falam do tema, vão omitindo, e se estivermos a falar de um casal que pretende ter filhos, assumem até que não conseguem engravidar, sem revelar o porquê”.

Porque é que a menopausa precoce acontece

Pedro Faustino, médico ginecologista, afirma que as menopausas precoces, na maioria das vezes, ocorrem sem uma causa aparente. “Há determinadas situações em que o processo se dá por uma alteração óbvia, como no decorrer de uma radioterapia localizada, na sequência de um tratamento de cancro, ou numa situação em que os dois ovários tiveram de ser removidos”, salienta o especialista.

Fora estas causas pontuais e objetivas, o médico ginecologista salienta que é muito difícil encontrar uma razão:”Podem existir fatores externos. Sabemos, por exemplo, que o tabaco pode acelerar a menopausa, mas na maioria das mulheres, tal não justifica que este seja um fator predominante”.

Pedro Faustino é médico ginecologista no Hospital Lusíadas Lisboa

Tanto para Maria como para Joana Amaral, este foi o caso: a menopausa precoce chegou sem aviso, e sem uma razão a que pudessem apontar o dedo. “Fiz imensos exames, inclusive um despiste genético para tentar perceber o porquê, mas não se sabe a origem. Não sei ainda se pode ter a ver com sistema nervoso, dado que sou uma pessoa bastante suscetível ao stresse, mas não há uma justificação certa”, relata Joana Amaral.

Para a gestora imobiliária, não é fácil lidar com esta situação, mesmo no presente, passados mais de três anos desde o diagnóstico. “Tenho uma vida saudável, mas digamos que não é 100% saudável em comparação com outra pessoa da minha idade. Quando recebi a notícia, tentei aceitar, recorrer à ajuda dos que me rodeiam. Depois entrei numa fase de negação, tanto que tive alguma relutância em tomar a medicação, e demorei algum tempo até regressar ao ginecologista que me segue. Hoje em dia, tenho de saber lidar.”

A menopausa mexe com muitos aspetos físicos e psicológicos da vida de uma mulher. “Para além de parar de produzir óvulos, este processo mexe com fatores vaso motores, os tais afrontamentos, caracterizados por um suor intenso e repentino do pescoço para cima, que causam muito desconforto e podem interferir muito na qualidade de vida da mulher”, salienta Pedro Faustino.

Este processo também perturba o sono, causa irritabilidade e até podem ocorrer síndromes depressivos na consequência do mesmo. Sílvia Botelho reforça que as questões psicológicas têm um grande impacto nesta fase, e recomenda a que as mulheres nesta situação procurem apoio profissional.

“Se estiverem a passar por dificuldades e não procurarem ajuda, as mulheres podem mesmo entrar em quadros depressivos. Este é um processo que causa muita tristeza, desmotivação, o relacionamento em casal também pode ser afetado. A ajuda profissional é necessária, até porque há muitas pessoas que guardam tudo para si, acham que estão bem resolvidas com o assunto, e acabam por explodir eventualmente”, afirma a psicóloga clínica.

Mas existem outros sintomas: “A mulher também passa por uma diminuição da libido, secura vaginal e, claro, temos a questão da osteoporose poder ser mais precoce”, explica Pedro Faustino.

Maria, que já vive com osteoporose, tenta contornar a questão “com um estilo de vida saudável e medicação”. Joana Amaral toma medicação para a regulação hormonal, está ciente dos riscos que ocorre em relação a esta doença óssea, que causa o enfraquecimento dos ossos, mas afirma que a parte dos sintomas é aquela que gere melhor.

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“A medicação realmente ajuda muito a controlar os sintomas, isso é verdade. É mais complicado sentirmos sensações negativas, como as de que estamos a envelhecer sem ter idade para isso, termos de ter em conta que se quisermos mesmo ser mães, há atitudes a tomar. É uma luta pessoal, e qualquer mulher que passe pelo mesmo consegue entender isso”, diz Joana Amaral.

Quando a menopausa ocorre ainda antes dos filhos

Maria assume ter pena de não ter conseguido ser mãe. “Dediquei-me a ajudar e a criar os meus sobrinhos, a amar os meus, e não me tornei numa pessoa amarga ou rancorosa”, conta a chefe de cozinha.

Depois de a irmã ter sido diagnosticada com um distúrbio de bipolaridade, Maria assumiu a educação das sobrinhas, e ainda dá apoio à irmã. E acredita que não podia estar tão disponível caso tivesse tido filhos. “Acho que a minha vida escreveu-se direita por linhas tortas”.

Já o tema filhos é algo que ainda mexe muito com Joana Amaral, que mantém um relacionamento de anos, que começou ainda antes do diagnóstico de menopausa precoce. “Sei que, se quiser ser mãe, tenho de recorrer a uma dadora de óvulos, e tudo isto mexe com timings, decisões que temos de tomar antes do que pretendíamos. Acarreta stresse na relação, e não é mesmo fácil.”

A psicóloga clínica Sílvia Botelho também reforça que o assunto é delicado, e nem sempre fácil de abordar, especialmente em relações numa fase prematura. “Quando uma mulher começa um novo relacionamento depois de um diagnóstico de menopausa precoce, parece que tem logo uma questão para falar com o novo companheiro. Há o medo de este não a aceitar por passar pela menopausa tão jovem, mas os filhos é o tema que mais provoca stresse”.

Sílvia Botelho é psicóloga clínica e diretora clínica na Academia de Psicologia da Criança e da Família

Para a especialista, numa relação numa fase muito inicial, não é necessário ou útil que se aborde logo o tema, não antes sem cimentar bases de confiança e perceber se a união tem condições para continuar. Passada essa fase, Sílvia Botelho acredita que tanto o assunto da menopausa como o dos filhos tem de ser falado a dois. “Um filho é um projeto em comum com outra pessoa, e é necessário que ambos estejam cientes das dificuldades que uma menopausa precoce causa neste processo, se esse for um passo a dar”.

No entanto, Sílvia Botelho alerta que a menopausa não é sinónimo do fim do projeto filhos: “As mulheres pensam logo que não podem ser mães, mas isso não é verdade. Não será uma conceção na sua forma mais natural, mas há muitas formas de ter filhos”.