Nós sabemos que ninguém vê o “Casados à Primeira Vista”. Como poderiam? Ninguém tem tempo para ver trash TV quando a televisão passa o dia sintonizada na RTP2. Exceto na altura dos desenhos animados, claro — lá em casa ninguém vê essas coisas da “Meg e o Gato” ou “As Aventuras da Miffy”, até as crianças estão formatadas a desligar a televisão quando começam com essas porcarias. É carregar imediatamente no botão e agarrar num livro de Nietzsche.

Ninguém vê reality shows. E a pequena percentagem que vê — portanto, qualquer coisa como 1,33 milhões de portugueses, de acordo com as audiências do episódio de estreia do novo programa da SIC — é… burra, claro. São os acéfalos que não foram votar, que escrevem “A Crixtina é a inha aprezentadora favurita” nas redes sociais e que só leem livros que tenham muitas imagens. Ou obras de Nicholas Sparks. Também é possível.

Não tenho a menor dúvida de que esses seres menores que se sentam no domingo à noite para ver casamentos entre estranhos têm também um QI baixo. E ouvem Justin Bieber, de certeza que ouvem Justin Bieber. Ou isso ou Nickelback. Ah, e se vivessem nos Estados Unidos tinham votado no Trump. Aposto que também não fazem reciclagem. Pior, atiram papéis e beatas pela janela do carro. Vai na volta também atropelam gatinhos na rua, roubam gelados às crianças e estacionam nos lugares reservados para deficientes.

Conseguem entender o ridículo de catalogar alguém só porque vê a porcaria de um reality show? Eu acho que não, mas vou tentar porque acredito que é uma discussão necessária. E começou ontem à noite, quando uma amiga minha abanou a cabeça desiludida com a “podridão da televisão portuguesa”. A parte mais curiosa? Estamos a falar de uma pessoa que admite que gosta de filmes e séries estúpidas, e que poderia muito bem estar sentada no meu lugar do sofá a ver um qualquer “American Pie” ou até “O Segurança do Shopping”.

Mas não. Como é português e é um programa da SIC, temos de introduzir “Casados à Primeira Vista” imediatamente numa categoria: a podridão da televisão portuguesa. Se estivéssemos a ver a versão australiana antes de o formato chegar a Portugal, era um caso social interessante. Como é feito cá, é lixo.

Vamos ver se nos entendemos: eu não sou a maior fã de reality shows de sempre. Não vi o primeiro “Big Brother”, não papei a grande maioria das “Casas dos Segredos” (só vi a temporada da Fanny na verdade, mas também acho que foi a melhor) e lembro-me vagamente da “Quinta das Celebridades” ou do “Acorrentados”.

Não sou fã de reality shows, mas já vi alguns. Sempre que apanho o “Naked Attraction” na SIC Radical dou por mim a ver aquilo, a mesma coisa com o “Casados à Primeira Vista” australiano. Quando chegou a primeira temporada da versão portuguesa, também vi. Chegou a segunda, e eu estou a ver.

Editorial. Ninguém quer saber de mulheres violadas

E sabem que mais? Eu faço reciclagem, não atropelo gatos, nem leio livros que têm imagens em todas as folhas. Sou uma pessoa normal. Vejo notícias, sei o que se passa no País, leio livros de todo o género e vejo documentários. Mas da mesma forma que também gosto de ver uma série da treta na Netflix, gosto de ver o “Casados”. E sabem que mais? Está tudo bem. Os meus olhos não caem a seguir, não perco nenhum ponto de QI. Está tudo bem.

O que não está certo é continuarmos a rebaixar os outros só para nos sentirmos melhores. Há muitos programas na televisão portuguesa que são uma merda. Verdade. Mas o “Casados à Primeira Vista” está muito longe de ser um “Love Top”. E, caramba, mesmo que fosse. Isso não significa que não haja alguém neste mundo que pape um episódio e a seguir vá ver um documentário sobre a crise social no Brasil.

“Casados à Primeira Vista” não é diferente de uma “Insatiable”, “Virgem Jane” ou até “Big Bang Theory”? Não é. São conteúdos para desligarmos o cérebro e rirmos um bocadinho. Só. E está tudo bem, malta. Ele liga-se logo a seguir.

Esta semana, sugerimos-lhe conteúdos relacionados com “Casados à Primeira Vista” — continuam a ser os artigos mais lidos da MAGG, o que nos faz pensar que talvez em Portugal só haja acéfalos (ou pessoas normais). Fica o resumo: Liliana revelou ter sofrido violência doméstica no programa, por isso falámos com um psicólogo da APAV sobre o tema. E porque uma especialista no programa deu a entender que precisamos de ter um amor nas nossas vidas para sermos felizes, fomos conhecer histórias de mulheres solteiras que não podiam ser mais felizes por não terem ninguém.

Também estivemos no primeiro evento do Fuckup Nights, onde pessoas se reúnem para partilhar histórias de negócios falhados. “Fala-se muito em começos, mas ninguém fala de fins. E eu aprendo muito mais com o insucesso de alguém do que com o sucesso”, explicou à MAGG Rúben Obadia, o homem que trouxe este projeto para Portugal. Mostramos-lhe também como andam a circular no WhatsApp vídeos de sexo de jovens na Latada de Coimbra (e os perigos desta exposição para os jovens) e a conversa com Bárbara Paz, que realizou o documentário que acompanha os últimos anos do marido, o cineasta Héctor Babenco, e ganhou um prémio no Festival de Veneza.