Livros

Patrícia tinha 130 quilos e um distúrbio alimentar, Sara sofria de depressão profunda. As duas conseguiram dar a volta à vida

No livro "Dar a Volta", a psicóloga Filipa Jardim da Silva garante que todos podemos mudar para melhor. Patrícia e Sara já conseguiram fazê-lo.

i

A MAGG ouviu as histórias de mudança de duas mulheres

Priscilla Du Preez / Unsplash

A MAGG ouviu as histórias de mudança de duas mulheres

Priscilla Du Preez / Unsplash

Patrícia Gama, 45 anos, tinha 130 quilos e vivia num corpo que não reconhecia como seu. “Não queria viver assim, mas também não sabia como mudar. Vivia com uma dor interior, padecia, mas usava a desculpa de ser gorda para não sair de um modo de observação do mundo. Chegava a ser confortável”, conta à MAGG a coach de distúrbios alimentares.

Há cinco anos, e depois de tentar todas as dietas possíveis, Patrícia, que na época tinha o seu próprio negócio de manicure, esteve várias vezes prestes a realizar uma cirurgia de redução de estômago. “Das três vezes, fugi do bloco operatório antes mesmo de entrar”.

Apesar de ainda ter regressado duas vezes ao hospital para realizar a cirurgia, algo lhe dizia que não era essa a solução. Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica que acompanhou Patrícia Gama nos últimos anos, e que a conheceu no decorrer de uma avaliação psicológica pré-cirurgia de obesidade, chama-lhe uma “voz interior”, que indicou à coach que esse não era o caminho. “A Patrícia comia compulsivamente e isso não mudaria com a cirurgia, constituía até uma contraindicação”, explica à MAGG a especialista.

Filipa Jardim da Silva é psicóloga clínica há 11 anos

Para além de viver com excesso de peso e com um distúrbio alimentar que a fazia comer compulsivamente para compensar tudo o que estava de errado na sua vida, encarando a comida como um refúgio, Patrícia Gama passou por um divórcio e por um problema oncológico uterino. E da última vez que deixou o hospital para trás, sem realizar a cirurgia de redução de estômago, decidiu mudar a sua vida.

“Percebi que não queria correr o risco de ir para um bloco operatório quando a minha saúde ainda não estava em risco. Deixei o medo, as crenças limitadoras e o pensamento castrador para trás, e essa foi a maior volta da minha vida”, diz Patrícia Gama.

Dei a volta à vida. Tetraplégico, Nuno redescobriu a força de viver na pintura com a boca

É possível “Dar a Volta” à vida?

“Não há ninguém que não consiga mudar. Acho que todas as pessoas, em alguma escala, conseguem fazê-lo. É verdade que ninguém se transforma noutra pessoa, e isso nem é desejado, mas todos nos podemos transformar numa melhor versão de nós. Temos sempre margem de progressão e desenvolvimento, independentemente de fatores externos e de situações de vida muito complicadas”, explica Filipa Jardim da Silva, que acaba de lançar o seu primeiro livro, com um método inovador para quem quer fazer uma verdadeira mudança na sua vida.

“Dar a Volta”, que chegou às livrarias a 2 de outubro, é um guia prático com 101 exercícios para identificar erros, elaborar estratégias e seguir um novo rumo. É um livro para fazer uma mudança na vida, essencialmente, seja esta que mudança for, desde perder peso até mudar de emprego, deixar uma relação tóxica para trás, entre outras.

“Aplica-se a qualquer mudança, independentemente das vezes que já se tentou mudar, a ideia é mesmo essa. Quer seja para implementar um novo hábito, extinguir outro, este modelo aplica-se a todas as áreas da nossa vida”, diz a psicóloga clínica.

"Dar a Volta", de Filipa Jardim da Silva, é editado pela Matéria Prima e tem um preço recomendado de 16€

Para chegar a este livro, cuja premissa é construir uma vida com propósito em 66 dias, Filipa Jardim da Silva baseou-se nos seus 11 anos de prática enquanto psicóloga clínica e coach. E não só. “Pensei nas centenas de pessoas que acompanhei ao longo da minha carreira, nas dezenas de livros que fui lendo e acumulando, nos cursos que fiz, e tentei chegar a uma estrutura nuclear que consiga aplicar a qualquer pessoa, independentemente do seu objetivo de mudança”, afirma a especialista.

E é possível mudar de vida em 66 dias? “Acima de tudo, são 66 dias em que a pessoa pode aceitar o convite de fazer um exercício diariamente, para ampliar conhecimento, consciência, ter noção de qual a etapa de mudança de vida em que está”, afirma a especialista, que acredita que este novo livro pode ser uma rampa de lançamento de mudança, uma lacuna que identificou no mercado.

Filipa Jardim da Silva salienta que existem “muitos livros de mudança que são para pessoas que já estão numa etapa bastante avançada deste processo”. “São opções de auto-ajuda que traçam um plano, e que são um bom plano, mas apenas para quem já fez parte do caminho. Digamos que é para aquelas pessoas que já estão mesmo na iminência de passar para a ação e fazer diferente, e foi a pensar nisso que quis construir algo mais abrangente”.

Até porque, e tal como explica a especialista, mudar de vida e efetuar um verdadeiro processo de mudança, não é apenas começar a fazer coisas diferentes. “Para mudar, é preciso fazer um mapa, traçar desejos, objetivos. Mudar é um processo que deve ser planeado e ponderado para ser eficaz. É também um processo que implica etapas, e temos de ter consciência daquela em que estamos. Caso contrário, não vamos chegar a um bom porto.”

Viver com um distúrbio alimentar: “Percebo as minhas limitações, sem ser castradora, e isso também é dar a volta”

Sara Balau tinha 18 anos quando se encontrava num estado profundo de depressão. “Estava mesmo muito mal. Desde os 14 anos que sofria de depressão, fruto de uma relação que mexeu muito com o meu psicológico, já tinha passado por vários psicólogos, cheguei a consultar um psiquiatra e a tomar medicação, mas nada funcionou”, relata à MAGG a jovem de 22 anos, que se prepara para entrar na universidade e estudar psicologia no próximo ano letivo.

Desiludida com os vários profissionais que não a conseguiram ajudar, teve uma réstia de esperança quando viu Filipa Jardim da Silva num programa de televisão, e resolveu procurar a psicóloga. “Logo na primeira consulta, senti que era por ali o caminho, ganhei forças para lutar pela vida, para ter uma vida melhor. Gradualmente, comecei a conseguir sair de casa, voltei a comer e estabilizei”, conta Sara Balau, que foi acompanhada em sessões de psicologia durante cerca de quatro anos. Também regressou a consultas de psiquiatria durante um ano, apenas para fazer medicação e estabilizar as crises de ansiedade, que a impediam de se alimentar.

Durante esse período, Sara trabalhou na sua autoestima e no seu processo de mudança com o auxílio de muitos dos exercícios que agora se encontram no livro “Dar a Volta”. “Pelo que vi, estão lá muitas das ferramentas que a Filipa usou comigo, truques que me passava para eu lidar com situações que não conseguia controlar, para encontrar um equilíbrio e não fugir”, explica a jovem.

Para Sara Balau, pequenas coisas como elásticos e pulseiras, objetos mundanos, fizeram toda a diferença. “Por exemplo, sempre que estava numa situação complicada, tinha um elástico no pulso que puxava para sentir uma pequena dor e me focar no momento. Noutras ocasiões, tinha uma pulseira onde imaginava que ficavam todos os meus problemas e depois tirava-a. Sei que pode parecer estranho, mas estas ações ajudavam-me imenso e surtiam mesmo efeito.”

A jovem de 22 anos afirma que conseguiu “dar a volta” à sua vida. Já não é acompanhada em consultas de psicologia de uma forma rotineira — apenas muito pontualmente, se sente essa necessidade. “Faço coisas que nunca imaginei fazer, tinha a mente fechada, mas este processo, aquela primeira consulta, foi um ponto de viragem.”

Sara concluiu o secundário, tirou a carta de condução e faz hoje o que mais a apaixona: dedica-se à maquilhagem e ao auto-cuidado, e criou um canal de YouTube que já conta com mais de 10 mil seguidores.

Quando procurou Filipa Jardim da Silva, Sara Balau tinha consciência de que algo precisava de mudar. E esta consciência é algo que a especialista considera fundamental para fazer uma mudança eficaz. “Consoante o ponto de partida, temos de ter estratégias diferentes, mas é muito importante sabermos em que etapa de mudança estamos”, diz a psicóloga clínica.

“Acredito, e defendo isso no livro, que para mudarmos de uma forma eficaz, precisamos encarar a mudança enquanto processo e apropriarmo-nos dele”, salienta Filipa Jardim da Silva. E foi justamente isso que Patrícia Gama fez quando deixou de lado as cirurgias e decidiu trabalhar em si mesma.

“Apaziguei a voz crítica que existia dentro de mim e deixei de pensar que a imagem era tudo na vida. Deixei para trás a ideia de que era feia e burra, e que só a emagrecer ia ter um emprego melhor, ser mais desejada. Percebi que o meu corpo podia ser um aliado”, conta Patrícia.

Tal como Sara, Patrícia Gama, que é acompanhada há seis anos por Filipa Jardim da Silva e mantém as consultas mensais, recorda muitos exercícios práticos feitos em consulta que a ajudaram a mudar, e que revê no livro.

“Lembro-me de um em especial, chamado a roda da vida, em que tinha de imaginar que colocava num pneu todos os aspetos da minha vida profissional, pessoal, todos os problemas. Ora, com tudo isto dentro do pneu, o carro nunca poderia seguir a direito, porque está lá tudo. Outro exercício era o das listas de objetivos e prioridades, em que eu chegava à consulta com 20 coisas que queria fazer. E a Filipa perguntava-me porquê e para quê é que eu precisava de tudo isso, se o meu objetivo era X e eu estava a falar de coisas A e B.”

Ao longo de todo este processo, Patrícia Gama considera que a sua volta foi dada, muito graças à aceitação do seu corpo e das ferramentas proporcionadas para fazer a sua mudança: “Deixei a fraca para trás, mas tenho consciência de que o meu distúrbio alimentar de compulsão está aqui. Há pessoas que vivem com diabetes, por exemplo, eu vivo com isto. Percebo as minhas limitações, sem ser castradora, e isso também é dar a volta”.

Patrícia Gama tinha 130 quilos quando começou este processo. Hoje tem 68. Confessa que já se sabotou algumas vezes e afirma que continua a viver com a sua compulsão alimentar, que a faz tentar perceber o porquê de lhe apetecer um chocolate.

“Penso se estou verdadeiramente com fome ou se tive apenas um dia mau, se estou stressada com alguma coisa. Penso se vou conseguir comer só um quadrado. E se percebo que não, faço trocas alimentares, prefiro comer uma banana com algumas raspas de chocolate negro em cima, que me sacia e me deixa sem sentimentos de culpa. Na minha vida não há dietas, não há alimentos proibidos. Há sim a noção de que existem alturas e alimentos que me colocam em risco, e que devo comer por ter fome, e não por estar chateada com alguma coisa”.

Patrícia Gama passou dos 130 quilos para 68. Hoje, enquanto coach, dedica-se a ajudar pessoas com distúrbios alimentares

Para além de perder peso, para Patrícia, dar a volta também foi mudar radicalmente de área profissional, ajudando hoje pessoas com distúrbios alimentares. Enquanto manicure, dava por si sentada numa mesa a ouvir os problemas dos outros e a ajudá-los, mas não se dava o devido valor. “Percebi que era muito mais capaz do que aquilo que estava a fazer, até que vi um primeiro curso de coach e percebi que podia ser bem mais feliz a fazer isso”, relata.

Será um livro suficiente para mudar de vida?

Apesar de Sara e Patrícia terem feito as suas mudanças com a ajuda presencial de Filipa Jardim da Silva, muitos dos exercícios e dos métodos aplicados em consulta fazem agora parte do “Dar a Volta”, onde a especialista reuniu os seus anos de experiência numa estrutura nuclear.

“A ideia do livro é ser um recurso autónomo, mas claro que existem muitos fatores que determinam se este será suficiente por si só, caso a caso. Naturalmente, todos temos bagagens particulares em que pode ser necessária uma ajuda mais específica. Em todo o caso, o livro disponibiliza uma série de ferramentas eficazes para conseguir implementar uma mudança”, explica a psicóloga clínica.

Para Filipa Jardim da Silva, este livro é um dois em um: “É para pessoas que não estão interessadas em ter um acompanhamento de psicoterapia, que querem começar a avançar e a melhorar apenas com o livro. É também para pessoas que já estão a fazer os seus processos de mudança, para que consigam ampliar ainda mais o seu conhecimento. E é claro que em consultório não vou aplicar tal e qual este método, mas será um instrumento maravilhoso para complementar. Mas eu sou suspeita”.

Dei a volta à vida. É com as mãos na massa que Carla Reis enfrenta o luto — e o resultado são bolos incríveis

No feedback que já recebeu, a especialista partilha que houve algo que a agradou muito. “Dizem-me que ler o livro é como me ouvirem a falar, e isso é muito gratificante”. E para as pessoas que gostariam de ter ainda mais ferramentas para as ajudar nos seus processos de mudança, Filipa Jardim da Silva partilha que está a preparar vários workshops para sustentar o livro.

“Decidi ter esta alternativa para as pessoas que consideram o livro um bom principio, mas que querem um bocadinho mais. Digamos que é mais uma forma de sustentar o conceito de viagem acompanhada”, diz Filipa Jardim da Silva, que prevê partilhar as datas dos workshops em breve, através do seu site e redes sociais.

Com ou sem livro, para Filipa Jardim da Silva há algo fundamental e necessário a qualquer mudança. “Atenção e foco. É preciso estarmos atentos a nós mesmos para sermos bem sucedidos. Se tivermos mil afazeres, mil distrações, sem tempo para nos focarmos um pouco dentro de nós, a mudança não vai funcionar. Temos de privilegiar a qualidade da nossa atenção”, conclui.

Recomendamos

A página está a demorar muito tempo.