Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

A pergunta original enviada à psicóloga foi: “Eu e a minha namorada queremos ter um filho. A sociedade diz-nos que ele vai perder por não sermos um casal heterossexual. Devemos estar preocupadas?”.

Veja a resposta de Sara Ferreira.

Querida leitora,

“Eu e a minha namorada queremos ter um filho (…)”

Antes de mais, parabéns! Espero que não só “tenham um filho” como também sejam Mães.

“A sociedade diz-nos que (…)”

Exacto. A sociedade da qual eu e você fazemos parte.

“(…) ele vai perder por não sermos um casal heterossexual (…)”

Perder? O quê, especificamente? A carteira? As chaves do carro? A identidade? A paciência??

“Devemos estar preocupadas?”

Sim. Com o bem-estar da criança, sempre!

E é essencialmente sobre isso que lhe falarei neste texto.

A homoparentalidade tem questionado as estruturas de parentesco, as normas jurídicas e, principalmente, os saberes “psi”, nas últimas décadas.

A natureza sexual da dinâmica familiar de origem de uma pessoa não determina em nada o seu gradiente de felicidade ao longo da vida. Tal tem mais a ver com outras questões paralelas a isso, como veremos adiante, mas desde já – e quase que apostaria em como praticamente 100% dos meus colegas psicólogos, à face da Terra, poderiam atestar – o que vemos é que na subjetividade de muita gente, infelizmente, a originária dupla heteroparental marcou muito do “mal-estar que acomete a civilização” (como diria Freud), em termos de alguma eventual “influência” problemática, direta ou indireta, comum a muitas histórias de sofrimento emocional humano por aí afora, desde que o mundo é mundo (and still counting!).

Afinal de contas, é fácil imaginar uma família tóxica, desestruturada e disfuncional em que os pais são heterossexuais.

Também não estou aqui a dizer que isso seja “a regra”. Estou a abrir uma reflexão, apenas isso.

Ao contrário do que muitos pensam, nós, psicólogos, não temos todas as respostas “definitivas” sobre o comportamento humano. Muito menos em questões atuais e polémicas como esta. Mas isso não nos dá o direito de responder baseados em “achismos” ou em preconceitos.

Há um truque fácil de inversão de papéis que funciona sempre quando se fala de preconceito. Troque a homossexualidade ou a homoparentalidade por qualquer outra característica: cor da pele, peso corporal, género, religião, partido político, clube futebolístico, país de origem, por exemplo.

O famoso “Eu respeito os evangélicos, mas não acho bem.” “Eu respeito os índios, mas não acho bom.” “Eu respeito as  mulheres, mas não acho importante que elas tenham os mesmos direitos que os homens.” Ou, e porque não (?!): “Eu respeito as mulheres, as mulheres negras, as mulheres negras não nascidas em Portugal, as mulheres negras não nascidas em Portugal que por acaso possuam algum grau de gaguez, as mulheres negras não nascidas em Portugal que por acaso possuam algum grau de gaguez eleitas deputadas nas Legislativas… mas subscrevo petições nas redes sociais para lhe retirar o cargo”.

Ui! Dói o ouvido? Pois é disso que estamos a falar: preconceito e rejeição.

Por isso é que conversar, debater, criar e recriar os nossos conceitos de diversidade é fundamental para vivermos numa sociedade (realmente) mais acolhedora.

Na vida como ela é ninguém dita ordens ao que torna uma pessoa feliz. Nem o que diz a Bíblia, a família, a sociedade, o Estado, os amigos, enfim, só uma pessoa tem pátrios poderes para ceder ou refrear a sua vivência, o seu desejo, o seu amor, as suas práticas e estilo de vida, seja ele qual for.

Já presenciei mulheres e homens sofrerem por sentirem amores distintos e extremamente valiosos por pessoas diferentes ou iguais em género. Não teriam para quê mentir no meio da terapia, não acha? Especialmente em relação a um tema tão espinhoso.

“Cheguei aos 30 anos e não estou a saber lidar com a vida adulta”

A verdade é que é um desafio e peras uma pessoa ter que lidar com olhares hostis durante uma vida inteira simplesmente porque não cumpriu as expectativas sociais da mulher ao lado do homem ou vice-versa.

Somos seres diferentes, tanto biologicamente como na nossa essência. No entanto, todos temos um corpo. E duas energias. Masculina e feminina, independentemente de se ser homem ou mulher. Existem estas duas energias primordiais, que mais do que energias físicas nascem antes como energias psíquicas, e que são a essência da própria Vida. Male and Female, Masculino e Feminino, Yin e Yang! E aqui refiro-me, uma vez mais, a energia e não a “género”, isso são contas de outro rosário.

Então, isto equivale a dizer que o ser humano constitui-se primordialmente com estas duas energias, estas duas funções psíquicas e são elas: a função materna e a função paterna. Mas atenção, “função” não é “papel”, ou seja, estas funções (materna e paterna) não precisam necessariamente vir de uma mãe “e” de um pai. Basta que na vida psíquica de um bebé ou criança co-exista uma função materna e uma função paterna.

A função materna é aquela que dá a nutrição emocional, o afeto, o amor. A função paterna é a que dá limites, que dá regras e que diz “não”. Estas duas funções podem ser só uma mãe, ou só um pai, ou só uma avó ou, evidentemente, duas mães ou dois pais.

Pessoal, estamos quase em 2020 e portanto vamos lá tentar entender uma coisa.

A primeira coisa que temos de começar a entender é que quando nasce um filho – seja da barriga da mãe, seja da barriga da adoção – ele nasce para uma família. Mais tarde, da barriga da família, ele volta a nascer para a “barriga do mundo”, mas de facto a barriga, a par do sexo, é o centro do nosso corpo e do “nosso” mundo.

Essa “barriga da mãe” é a barriga da importância, só que um filho pode nascer numa constituição de pai e mãe (a constituição biológica) ou pode nascer de uma adoção (na constituição de dois homens ou de duas mulheres). Como disse anteriormente, temos de começar a entender que “função” (psíquica) não tem nada a ver com “papel” (sexual).

A psicanálise ensina-nos que as funções materna e paterna são distintas, porém complementares, e cada qual com as suas peculiaridades contribuem para o desenvolvimento psicológico de um filho/filha.

De uma forma genérica, a função materna representa então o princípio de afetividade e é a introdução do fator emocional na vida de um indivíduo, já a função paterna significaria as regras, é o fator que contribui para a vida em sociedade, as leis, o princípio de autoridade.

Estas funções (materna e paterna) podem ser desempenhadas tanto por uma única pessoa (como no caso das famílias monoparentais), ou por duas pessoas (homem-mulher ou mulher-mulher ou homem-homem), em que há uma tendência – devido à disposição e características inerentes a cada membro do casal – para cada uma delas assumir uma determinada função, e ir alternando, inclusive, conforme as necessidades específicas. Ou seja, de forma dinâmica e não estática.

Mesmo nos relacionamentos heterossexuais vemos que nem sempre a função materna cabe exclusivamente à mãe/mulher ou a função paterna está sempre a cargo do homem/pai. É aliás cada vez mais frequente verificarmos um pai que, em especial em determinadas alturas, exerce mais a função materna, e a mulher a função paterna na criação dos filhos. Na verdade, uma pessoa saudável é uma pessoa suficientemente capaz e sensível para desempenhar as várias funções, sempre que necessário, e não “fixar-se” em apenas uma delas.

A função é mais importante do que o género (feminino/masculino) só que geralmente confunde-se muito tudo isto e daí até ao preconceito vai um salto. Eu cá prefiro os conceitos (aos pre-conceitos) e por isso creio que vale a pena desmistificar algo muito sério.

É comum na nossa sociedade achar-se que toda a mulher, ao ser mãe, tem “automaticamente” pelo filho um tipo de amor dito “incondicional”. A Psicologia já desde o início do século passado provou que isso é um mito. Muitas mulheres não amam imediata e instintivamente os seus bebés e, como as outras fêmeas do reino animal, podem não se afeiçoar de maneira automática ao filho. Neste sentido, o instinto materno, tal como o concebemos, não existe. Tampouco o amor incondicional de mãe para filho baseia-se numa exigência puramente biológica. Neste artigo, sobre depressão pós-parto descrevo isto tudo um pouco melhor e dou algumas pistas sobre o que fazer quando uma mãe diz não sentir ligação emocional com o seu bebé

Fui mãe há uma semana e não sinto ligação emocional com o meu filho. O que é que eu faço?

Muitas mães podem dizer-me: “mas eu amo o meu filho incondicionalmente!”, e podem amar, de facto. Mas uma coisa é elas poderem/conseguirem fazê-lo (e se sim, p-a-r-a-b-é-n-s!) outra coisa é achar que isso é regra universal. Por isso é que, infelizmente, há mães que deitam os filhos na sarjeta ou que criam os filhos ou as filhas como irmãs… ou como primos/tios… ou criam filhos como pais, enfim, as constituições são diversas. Neste artigo que escrevi aqui na rubrica “A Psicóloga Responde”, dei conta de algumas dinâmicas internas familiares onde podemos encontrar este tipo de emaranhamentos sistémicos.

Este foi só um parêntesis para entendermos que não existe esse mito materno do amor incondicional. E então, o que é que existe?!

Decisão. O amor materno é uma construção, é uma conquista, é uma decisão. Não é algo inato ou privilégio sacrossanto de nenhum ser, decretado apenas pela sua biologia ou por tido uma relação heterossexual. E neste sentido, pode haver mais “amor materno” em quem escolhe adotar do que em quem “apenas” teve um filho, sendo que ter um filho é uma coisa, ser mãe (ou pai) é outra.

O amor é uma decisão, por isso é que para amar uma criança, não basta tê-la, é preciso decidir amá-la.

Função materna e função paterna, que é como quem diz, coloquialmente, amor e limites na medida certa. Nem “limites” demais, senão torna-se tirania, nem “amor” demais, senão fica permissividade. É o equilíbrio. Colocar amor num lado da balança e limites do outro e passar uma vida inteira a tentar equilibrar os pratos.

Outra ideia tola é de que um casal gay vai criar filhos gays. Se houvesse uma influência direta e real dos pais sobre a sexualidade dos filhos, não haveria homossexualidade no mundo. Portanto, é preciso ressaltar, homossexualidade e heterossexualidade não são opções sexuais. Quem iria optar por ser homossexual num mundo com preconceitos? É um desejo, uma vontade, uma maneira particular de expressar a sua sexualidade.

Inclusive, os estudos empíricos internacionais revistos, nos quais a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) se baseia para dar os seus pareceres sobre o assunto, indicam que as crianças de famílias homoparentais não têm maior probabilidade de serem homossexuais do que as crianças de famílias heteroparentais.

Nos documentos oficiais, a OPP defende ainda que o fundamental “é que o contexto familiar ofereça afeto e comunicação, seja sensível às necessidades da criança, viva de modo estável e impondo normas adequadas, no seio de relações harmoniosas”.

Por isso, minha cara, neste ponto, parece que pode ficar descansada, pois um desenvolvimento saudável não depende da orientação sexual dos pais (ou das mães), mas sim da qualidade da relação entre pais e filhos.

No entanto, há “só” um aspeto que considero fundamental para que leitora e a sua namorada possam suster a vossa decisão de forma o mais objetiva e conscientemente possível antes de efetivarem o vosso processo de criação de um ser humano. E é este: Motivação.

Quais são as vossas reais motivações (explícitas e implícitas) para “terem um filho”? Que crenças e expectativas possuem em relação a ele?

A leitora já percebeu como a maternidade vai muito além de ter um filho. Altruísmo, maturidade e estabilidade emocional são requisitos imprescindíveis se formos “positivamente preocupados” com o bem-estar de uma criança a quem possamos chamar de filho ou filha.

A chegada de uma criança, seja pela via biológica, adotiva ou medicamente assistida, implica uma responsabilização que vai além das condições ambientais, pois deve estar inscrita numa motivação / Desejo autêntico e real de parentalidade.

Até para se adotar um animal esta noção de compromisso deve existir antes de tudo, conforme explicitei neste artigo aqui imagine!

Sinto-me sozinha. Devo arranjar um animal de estimação?

Não transfira para uma criança eventualmente todo um conjunto de cargas que possam não ser dela. Uma criança não pode servir a fins políticos ou sociais, para além de que ela não é nem deverá ser garantia de “normatização” para ninguém. É primordial atender e considerar as necessidades autênticas da criança, propiciando um ambiente acolhedor e favorável, prevalecendo sempre os seus interesses.

Como percebe, não se trata de discutir se a saúde mental da criança criada no seio de uma família homoparental está ameaçada. Essa discussão, creio, já está ou deveria estar ultrapassada.

A grande ameaça à integridade da criança não está, portanto, na anatomia ou na genitália do(a)s que encarnam para ela as funções materna e paterna, mas no Desejo, ou melhor, na ausência dele.

O mundo está mais pluralista, mas ainda carece de muita atenção nas entrelinhas.

É habitual na prática clínica, verificarmos, de facto, o quanto as crianças são vulneráveis e o quanto elas são expostas aos maiores absurdos quando ainda nem sequer têm a devida capacidade de compreensão.

Por exemplo, quando olho para os meus filhos, tão pequenos, como que paginazinhas novas, em branco, e frescas de um livro recém-lançado que espera por um olhar interessado, reconhecimento, amor e atenção, fico com o coração apertado só de pensar em quantas crianças vivem em situações de extremo sofrimento.

E aqui eu não me refiro somente a condições de pobreza, fome e violência física, mas violência emocional, psicológica, abandono e negligência por parte dos pais. Crianças, algumas com as quais eu convivi, que testemunham brigas dos pais, quando não são envolvidas nelas, ou que são chamadas de “burras”, “feias”, “más”, e que têm a sua educação totalmente terceirizada ou que são deixadas de lado (até por um aparelho tecnológico).

Sim, as crianças trazem muita alegria e presenteiam-na com um amor sem tamanho, mas elas exigem muita doação, muita entrega e muito tempo disponível.

O desenvolvimento da criança não depende da tipologia da família, ou se o casal é do mesmo sexo, mas do vínculo que os pais e mães vão estabelecer entre eles e a criança. Afeto, carinho, regras: essas coisas são mesmo as mais importantes para uma criança crescer saudável.

No que diz respeito ao pai e à mãe, o que importa para a constituição psíquica da criança são as funções, como expliquei lá atrás. Não é exatamente a mãe, como sujeito feminino, mas a função materna. Da mesma forma, não é o pai, do sexo masculino, mas a função paterna.

Então, as funções de parentesco são mais simbólicas do que biológicas. Porquê? Porque não é no registo da anatomia que o exercício dessas funções se decide.

Assim, sabemos que a estrutura familiar e o desenvolvimento da criança não estão vinculados com a orientação sexual do casal, mas, sim, com o desejo de ser responsável por uma criança.

Logo, minha querida, quando se levantam as vozes da crítica (desprovidas de base científica) para tentar derrubar a possibilidade dos casais homoafectivos terem filhos, embasando-se exclusivamente na sua sexualidade, na verdade, esse argumento é o menos significativo.

As famílias têm novos arranjos e esta pluralidade reflete o dinamismo social, pelo que é importante a compreensão de que a entidade familiar pode ter origem num elo de afetividade e não somente por consanguinidade.

O que é preciso é considerar se a decisão de “ter um filho” está inscrita no desejo de ambas (ou se vem atrelada a apenas a uma reivindicação social), enquanto mulheres, enquanto casal, enquanto mães, bem como se são capazes de se responsabilizarem por este ato, pois somente essa posição poderá favorecer o interesse, a emergência e a constituição da criança.

Boa sorte e até para a semana!