Durante três dias, as Antigas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército, em Lisboa, encheram-se de especialistas em moda. Estilistas, fashionistas ou meros apaixonados pela indústria não quiseram perder pitada da ModaLisboa, o evento que volta para nos mostrar as propostas nacionais para a primavera/verão de 2020.

Vimos desfiles maravilhosos (outros nem tanto), ouvimos conversas sobre as tendências que vão mudar tudo nos próximos tempos e assistimos aos looks mais irreverentes que passaram pelo evento — tanto nas passerelles como na rua. Os mais entendidos no assunto usarão termos elaborados para descrever os coordenados excêntricos, o humorista João Pinto nem por isso.

Passamos a explicar: João sabe qual é a importância da roupa na vida das pessoas, mas já considera um investimento (muito) razoável comprar uma T-shirt de 3€. Como pai suburbano e trabalhador diurno, percebe que se ande engomado, mas tudo o que vá para lá das cinco peças de roupa é desperdício. E já está a incluir a carteira.

Como é que ele analisa então os looks mais irreverentes do terceiro dia da ModaLisboa? É espreitar — e recordar o que escreveu sobre os mais excêntricos do segundo dia.

Passamos a palavra a João Pinto.

“Look canal Bloomberg. Do ponto de vista da segurança e do arrojo, ganha pontos. A parte de cima é uma espécie de Lara Croft meets Cruela de Vil, e a parte de baixo um estilo ‘running’ com um toque de Sanjo Girafa. Resumindo, é muita informação e está tudo a acontecer ao mesmo tempo. Um bocadinho menos.”

“Nada a apontar. Tirando as calças de veludo está ótimo. Sublinho o atavio no corte de cabelo, que já se vai vendo pouco nesta geração. Já a bota de vaca gravada é para respeitar e trazer engraxada. Se não, enche dez e o zero também é número.”

“Estão a ver as pessoas que pedem um cachorro com mostarda e acompanham com um galão? É isto. Pode-se fazer? Pode. Mas é errado. Licra e calções de ganga por cima de uma camisola mousse é querer abrir um vórtice espaço-temporal para a ridiculolândia. Paras com isso, se faz favor. E vais já devolver o blusão ao senhor da Transtejo que não se brinca com quem trabalha.”

“Se o médico o deixou sair da CUF e dar uma volta ao certame, fez bem em pedir o colete à tia Odete e espairecer um bocado. Agora não abuse porque me parece que essas ligaduras dos joanetes estão para saltar não tarda. As melhoras!”

“Dá-lhe Miyagi, que a idade é uma cena na nossa cabeça. Gosto do arrojo de teres gamado a camisa que o Sandor Clegane usa para ires aos sunsets. O cachecol está a mais, mas a excentricidade também é um posto.”

“É o Eduardo Madeira, não é? É um tipo de apanhados em que o Eduardo primeiro tira a camisa, os calções de banho e o pijama, para depois tirar a barba e toda a gente dizer “ah, é o Madeira!”. Porque como está é só um sem-abrigo e até o Dr. Marcelo quer acabar com eles.”

“Ludwig van Blarghhhtoven. Mano… o meio robe laranja ainda vá que não vá, mas porque é que os teus punhos têm plumas, camarada? Se tens comichão no nariz e coças com isso, ficas com comichão no nariz. Depois entras em loop e morres! Cuidado! Mas obrigado pelas calças e pela recordação do “azul-Roberto Baggio”. Codino de Oro!”

“Ou é uma entrepenoura e estamos perante o nascimento do Anourakão, ou parece um balão de fala que não tem nada para dizer. Na parte de baixo, ninguém a salva de levar falta de material.”

“Bolas. Faltam bolas. As cornucópias estão, estão listas, estão lisos, está tudo, menos as bolas. E as bolas? Vivemos bem com sapatos cor de pastilha mas temos coisas contra as bolinhas? É fazer uma lista em Excel e verificar antes de sair de casa. Desorganizada!”

“Ye, ye, ye. Assim é que é. O povo gosta dos santos populares e os santos gostam de vir à ModaLisboa. Ah santo garoto vestido de bailarico que me dás logo uma vontade de grelhar peixe na rua e o vender por uma fortuna.”

“Engomadinho, discretozinho, uma camisa preta com um lenço e tudo. Só não digo que gosto porque me faz lembrar o look com que enterrámos a pobre Tia Aldina (que Deus tem). Mas se ela pediu para ir assim porque era assim que se curtia em Cascais em 68, quem sou eu para dizer que agora está mal? ‘Xós falar!”

“É tarde. Só consigo olhar para o frasco de piri-piri. Meu caro, veste a saia de plástico quando te apetecer, usa a manga direita mais comprida que a esquerda, carrega no oculinho 3-D. Agora meter o piri-piri ao barulho já é escamotear instituições que não são para aqui chamadas. Vais vestir uma T-shirt com um aipo ou vestes umas calças de ganga e apresentas-te numa grelha, meu bandalho.”