“É de mim ou o mundo está cada vez mais louco lá fora?”, é uma das frases de Arthur Fleck (Joaquin Pheonix) no filme que pretende dar uma origem definitiva a um dos vilões mais emblemáticos do Batman. “Joker” chegou às salas de cinema esta quinta-feira, 3 de outubro, e está a dividir os críticos, fãs e, sabe-se agora, membros da Academia de Cinema de Hollywood — numa altura em que faltam quatro meses para a próxima cerimónia dos Óscares.

A discussão que “Joker” nos traz não podia ser mais atual: o mundo parece de facto estar cada vez mais louco, mas também há quem responsabilize o entretenimento. Embora a ideia de que a arte seja capaz de incentivar à violência possa parecer datada, as preocupações não são infundadas.

O mundo está mais intolerante e violento e, especialmente nos Estados Unidos, os tiroteios em massa são uma realidade. Não ajuda o facto de, num visionamento de “O Cavaleiro das Trevas Renasce“, em 2012, um jovem ter disparado sobre quem estava a ver o filme.

“Joker”. Podem entregar já o Óscar a Joaquin Phoenix e não se fala mais nisto

No filme de Todd Phillips (o mesmo que realizou “A Ressaca“) somos testemunhas dos atropelos que levam o protagonista a ceder à loucura, ao lado negro que o conduz à violência homicida. Tudo isto enquanto nos faz ver que, muito provavelmente, temos mão na criação destes vilões — porque julgamos e ostracizamos quem é diferente (Arthur sofre de uma doença mental).

Faz sentido. Mas poderá esta tentativa de romancear a história de um vilão uma forma de desculpabilizar as suas ações? Filipe Homem Fonseca, escritor e apreciador de cinema e banda desenhada, escreveu esta segunda-feira, 7 de outubro, na sua página de Facebook, que é necessário não ter a “intenção de higienizar a arte” para entender a dualidade da personagem de Phoenix.

“Para compreender essa dualidade, é preciso não ter intenção de higienizar a arte, permitindo que esta cumpra a sua ‘função’ (à falta de melhor palavra) que é, como terá dito Banksy, ‘confortar o perturbado e perturbar o confortável’. Existe uma sanha contra tudo o que sirva de espelho à feiura da sociedade contemporânea, como se o problema fosse o reflexo e não a realidade refletida; uma necessidade absurda de arranjar um bode expiatório, uma variante moderna do ‘matar o mensageiro’, de ‘varrer parar debaixo do tapete'”, escreve.

Alguns membros da Academia concordam com esta opinião. Outros, porém, defendem que estamos perante um filme onde domina a “violência gratuita”, o que resulta numa “mensagem muito estranha”.

“Joker”: um filme “gratuito” e “irresponsável”?

Depois de uma ovação de pé de oito minutos no Festival de Cinema em Veneza, Itália, surgiram as primeiras manchetes: houve quem elogiasse a produção e a prestação de Phoenix, que carrega o filme às costas durante as duas horas de duração, mas também houve quem achasse este “Joker” perturbador, violento e perigoso. Em causa estava o receio de que pudesse desculpabilizar ou branquear as ações de um psicopata.

Segundo o “The Hollywood Reporter”, que chegou à fala com alguns dos votantes da Academia, há quem ache o filme “gratuito” e “irresponsável”, mas também há quem o elogie pela forma como aborda a transformação de Arthur Fleck em Joker.

“É brilhante. Adorei a forma como o realizador lidou com a questão do narrador pouco fiável à medida que vamos aprendendo, pouco a pouco, o que realmente aconteceu versus aquela que é a ‘realidade’ de Arthur”, revelou um dos membros à publicação. Já outro diz que “Joker” pode passar uma mensagem estranha aos espectadores.

“No início do filme, o Fleck vê o seu cartaz roubado, é espancado e faz-nos sentir pena por ele. Depois descobres que tem uma doença mental e isso também nos faz sentir pena e compaixão. Mas depois é-lhe dada uma arma e ele usa-a. Tens uma gajo louco que se lança numa sucessão de crimes violentos. É suposto gostarmos dele mesmo que ele dispare e esfaqueie pessoas? É uma violência gratuita que transmite uma mensagem muito estranha”, explica.

Esta é uma opinião que vai ao encontro daquilo que outro votante contou ao “The Hollywood Reporter”, sobre a forma como caracteriza a doença mental. “Este filme não teve enfoque na questão política ou de classes e a caracterização que faz da doença mental foi irresponsável. A prestação de Joaquin Pheonix foi tão exagerada que se tornou irritante.”

O novo “Joker”. O homem que se tornou num vilão perverso empurrado pela sociedade

Mas a ideia de que a violência do filme pode passar uma mensagem negativa é, para outra votante, uma não questão: “O que eu não percebo é porque é que está toda a gente irritada.”

E continua: “Peguem o jornal da manhã e vejam o sacana que está a liderar o nosso país [referindo-se a Donald Trump, presidente dos EUA] se realmente se quiserem preocupar com a violência. Ainda é cedo, mas vejo-me certamente a nomear este filme para a categoria de Melhor Filme. E tem de ser nomeado ou o departamento de atores votantes não faz ideia do que está a fazer”, concluiu.

“Joker” estreou-se nas salas de cinema portuguesas há menos de uma semana. Segundo dados revelados pelos cinemas NOS, o filme foi visto por mais de 155 mil pessoas em Portugal, Moçambique e Angola no primeiro fim de semana após a estreia — rendendo quase 900 mil euros em bilheteira.