Este último fim de semana, tive um casamento. “Que sorte, vais comer bué”, dizem-me, tentando convencer-me de que há algo de bom num dia de roupas apertadas, maquilhagem que não sei usar — primer quem? — e a necessidade de dominar a arte do equilíbrio nuns saltos altos que só saem do armário em dia de festa.

Mas este casamento era diferente. O piso era de terra batida, por isso adeus saltos. O dress code era descontraído, por isso nada de elásticos apertados. De maquilhagem só aquele basicozinho espalhado com o dedo para disfarçar este verão que ninguém sentiu.

Até podia continuar este rol de contradições ao pré-concebido e dizer que afinal não, não comi bué. Mas comi. É que casar no Alto Minho não é fazer juras de amor perante Cristo, é fazer com que Cristo tenha vontade de voltar à Terra só para provar a mesa das entradas.

Ainda antes da cerimónia já Rafael, o noivo e meu primo mais novo, nos esperava com mesa farta feita em família. A mãe Ana passou os últimos meses a enrolar croquetes e a encher rissóis, e no dia do casamento, desde as 5 da manhã que para o óleo saltaram quase quatro dígitos de salgadinhos. Queijos, azeitonas, broa como só a de lá, enchidos e muitos bolos. “Temos aqui coisas para ti”, avisam-me. Para mim e para os outros dois convidados que há muito puseram a carne de lado. Wraps e rissóis de legumes que a minha tia fez a medo. “Estão bons?”. Nem foi preciso responder. Aposto que muitos foram ao engano, mas a verdade é que foi uma das primeiras travessas a ficar vazia.

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Logo ali, gostei de ver que tudo era transportado em travessas de alumínio e todos tinham na mão um copo de vidro e um prato de cerâmica.

Benzidas as alianças e lançado o tão pouco #zerowaste arroz para cima dos noivos, estava feito o casamento. Mas ainda os salgadinhos iam no adro.

A festa continua no copo de água e, aqui sim, a revelação: o copo não é de plástico e olhem que o ambiente é de arraial. A lembrança de casamento é uma caneca reutilizável que, caso queiram continuar a beber o resto do dia, avisam os noivos, há que guardar com o mesmo cuidado com que guardam o envelope onde trazem a prenda que os noivos tanto esperam.

O Rafael e a Mariana não são hippies, nem tampouco gurus da sustentabilidade. “Há um ano nem sequer separávamos o lixo”, admitem. Mas foi quando se mudaram de um apartamento para um pré-fabricado de 24 metros quadrados que a mudança aconteceu para estes dois arquitetos. “Até por uma questão de gestão de espaço”, admite. De um armário cheio passou a ter apenas três pares de calças e algumas camisas. A maior parte dos móveis foram vendidos e os que têm hoje em dia, chegam e sobram.

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Ao deixar rolar esta onda minimalista, decidiram que o casamento, tal como o seu dia a dia, não seria de luxo nem de desperdício. O ramo que Mariana levava era feito de urze e oliveira, dois dos verdes que pintam esta região. As botas artesanais que usavam foram compradas nas festas tradicionais de S. Bartolomeu e o fato do Rafael — diz-nos com orgulho — custou 40€ nos saldos da Zara.

As toalhas da mesa eram feitas de linho e bordadas à mão, os bancos vieram dos troncos das árvores que sobraram ao vizinho que precisou de cortar umas árvores do quintal. Os sofás já foram paletes, a estrutura do bar era feita de portas antigas e as mantas dos sofás foram, um dia, uns cortinados.

“Mas estamos longe da perfeição”, avisa Rafael, admitindo que muito deste engenho foi consequência de um orçamento apertado. Ainda assim, não tiramos o mérito a quem, no meio de uma aldeia — não perdida na Beira, como canta o Tony, mas perdida no alto do Minho — conseguiu desencantar um prato vegetariano no restaurante responsável pelo catering e que está habituado a servir quem não concebe uma refeição sem um naco a ocupar metade do prato.

O menu era de cozido à portuguesa para todos. “Mas tivemos o cuidado de saber de onde vem tudo o que está no prato”, avisa Rafael, deixando uma achega, na tentativa de nos apaziguar a alma: “O porco foi morto duas freguesias ao lado, de propósito para o nosso casamento”. Apaguemos esta imagem demasiado gráfica e foquemos as atenções na omelete sem recheio e no salteado de cogumelos de lata que nos servem em alternativa. “Andámos a semana toda a pensar que não te podíamos deixar sem jantar”, alertam-me

Não é uma Amélia nem um Nicolau desta vida a servir as tostas de abacate mais instagramáveis de Lisboa ou tapiocas gluten free, com spirulinas, probioticos, ervas-trigo e o raio que o parta. Era o “Companheiro”, um restaurante de beira de estrada, cujo prato do dia é cozido à portuguesa, mas que passou uma semana inteira a pensar no que me podia servir. E garanto: não trocava aquela omelete por Benedict nenhum.