Na indústria da música, os progressos na sustentabilidade têm-se feito notar quase sem percebermos. Passámos a comprar menos CD e menos leitores de música, conglomerando tudo num simples telefone ou computador — com acesso online livre ou subscrito.

Ao mesmo tempo, e acompanhar esta evolução digital, dá-se o fenómeno contrário. O vintage está na moda e há quem não dispense um gira-discos em casa. E como é que podemos fazer desta tendência de regresso ao passado algo com vista num futuro mais sustentável?

Foi nisso que pensou Nick Mulvey, fundador da banda Portico Quartet, ao lançar um disco de vinil — o “In The Anthropocene” — feito com plástico dos oceanos. Este disco surgiu de uma colaboração de Mulvey com a Sharp’s Brewery, uma cervejaria britânica na costa atlântica da Cornualha.

“Liricamente, a música explora temas de responsabilidade e liberdade num momento em que a crise ecológica e social é urgente, também conhecida como ‘The Anthropocene’ [o período geológico mais recente da Terra que mostra o impacto da mão do Homem na geologia e nos ecossistemas da Terra]”, explica o músico à revista “GQ” de Inglaterra.

Mulvey acrescenta ainda que sempre admirou a natureza selvagem da costa da Cornualha e que estes tempos de alterações climáticas exigem que nos levantemos numa tentativa de equilibrar a Terra e foi essa mensagem que tentou levar para a música: “A minha música é sobre saber quem — ou o que — nós somos”.

Mas mesmo sendo feito com plástico dos oceanos, o design foi planeado com rigor por Wesley Wolfe, artista conhecido por fazer um disco de argila da região de Cognac, em França, em colaboração com o músico Pharrell Williams.

Wolfe pegou em plástico das praias da Cornualha e criou este disco de vinil de edição limitada que está ligado a uma causa: as vendas vão reverter para a Surfers Against Sewage, um movimento criado em 1990 para proteger os oceanos, as ondas, as praias e a vida marinha. 

Dispositivo para limpar oceano recolhe plástico pela primeira vez

“Estamos entusiasmados por fazer novamente uma parceria com a Sharp’s Brewery para angariar fundos vitais para proteger as nossas costas da poluição de plásticos e de outros riscos ambientais”, refere Hugo Tagholm, CEO da Surfers Against Sewage à “GQ”.

A Sharp’s Brewery também se mostrou entusiasmada com o novo projeto sustentável: “A cultura da Cornualha é construída em torno do oceano — sejam frutos do mar, surf ou até nossa própria cerveja atlântica”, disse James Nicholls.

Com o lançamento do disco “In Anthropocene” com Nick Mulvey, estamos realmente a dar a volta na indústria da música ao fazer upcycling de plástico descartável que encontramos nas nossas praias e transformando-o num ‘vinil oceânico'”, encerra Nicholls para reforçar o impacto desta iniciativa.