Antes de mais, uma declaração de interesses: sou leitor de banda desenhada, o meio onde a personagem nasceu, e conheço dezenas de histórias em que o Joker, um dos maiores vilões do Batman, é protagonista. Sou suspeito e, também por isso, sabia mais ou menos aquilo que me esperava assim que entrasse no cinema para ver uma nova interpretação da personagem, desta vez por Joaquin Phoenix.

É importante que se perceba que a relação do filme com os comics limita-se apenas ao nome do vilão e à cidade em que a história se passa (e a duas ou três referências para os fãs mais atentos, vá). Reforço: este “Joker”, de Todd Phillips, não tem nada que ver com super-heróis.

É cinema de autor puro e no qual a fotografia, a banda sonora e a prestação de Phoenix trabalham em conjunto para nos deixar desconfortáveis, compassivos e desorientados com um homem que, depois de espezinhado e rejeitado, se torna no psicopata violento e maníaco que conhecemos. Por isso, este é daqueles filmes que já sabemos como vai terminar. E embora saibamos o desfecho de antemão, é a forma como se lá chega que importa.

“Joker”. Filme não inspira à violência, mas devia inspirar-nos a lidar melhor com potenciais vilões

Antes de ser Joker, Joaquin Phoenix é Arthur Fleck, um homem miserável que sofre de uma doença mental que o faz rir descontroladamente em situações de desconforto, pânico, medo e insegurança. É por isso que guarda no bolso um pequeno cartão que explica a condição que tem e que distribui sempre que o riso surge numa situação inusitada. Apesar disso, ninguém o entende e ninguém o quer entender.

Arthur já esteve internado num hospício, trabalha como palhaço e quer ser humorista de stand-up, mas não singra em nenhuma das áreas. É humilhado sistematicamente, sofre do mal de não ter graça e a sua aparência pouco cuidada, aliada à personalidade deslocada numa sociedade que procura e promove a perfeição, levam-no à rejeição e à desgraça.

Joaquin Phoenix deu o corpo e alma a uma figura trágica. Perdeu cerca de 25 quilos, com uma dieta à base de maçãs, espargos e alface, roeu as unhas e aprendeu todos os maneirismos para se embrulhar na insanidade de uma figura que só pedia que a compreendessem.

Quando, numa das várias cenas do filme, Arthur vê uma mulher a ser assediada num comboio, não reage. Não porque sinta medo, mas porque a sociedade o ensinou a não saber o seu lugar ou a ser capaz de distinguir o que está certo do que está errado. Até porque, das vezes que agiu com boas intenções, foi menosprezado e relegado para segundo plano.

Desde o riso desconfortavelmente doentio aos ossos que ameaçam rasgar a carne do corpo sempre que o ator se contorce em cena, Phoenix serve como a marioneta perfeita do realizador para nos fazer chafurdar na lama e entender que também nós somos responsáveis por estes vilões.

Contribuímos, a pouco e pouco, para a loucura a que um Arthur Fleck é atirado. Porque, e citando o Joker de Heath Ledger no filme de Christopher Nolan, a loucura é como a gravidade na medida em que só precisa de um pequeno empurrãozinho.

E falar do “Joker” é falar desta ideia datada e estapafúrdia de que a arte pode incentivar comportamentos violentos, mas não se preocupem. Embora o filme seja violento (mas não tanto como as primeiras críticas quiseram fazer parecer), a forma e a brutalidade com que essa violência é mostrada tem o propósito de não glorificar, branquear ou desculpabilizar as ações deste homem.

Quando muito, é uma violência que nos obriga a olhar ao espelho e a assumirmos responsabilidades. No fundo, a sermos mais tolerantes.

O novo “Joker”. O homem que se tornou num vilão perverso empurrado pela sociedade

Apesar disso, o filme não é perfeito. Falha, essencialmente, na forma como concretiza a narrativa que parece querer mostrar (o que pode levar a que cheguemos ao final do filme a pensar “então e agora?”).

Este “Joker” peca também na pouca confiança que tem nos espectadores ao sentir a necessidade de lhes explicar o óbvio: que a réstia de esperança e felicidade de Arthur Fleck — em ser um comediante bem sucedido ou em manter uma relação estável — não passam de alucinações. Ao contrário do que acontece na televisão, o espectador de cinema aguenta bem certas trapaças e não se incomoda de ficar baralhado.

Por isso, não é expectável que leve o Óscar de Melhor Filme para casa, até porque a concorrência é fortíssima e ainda não vimos “O Irlandês”, de Martin Scorsese.

Mas a Joaquin Phoenix podem entregar o Óscar de Melhor Ator e não se fala mais nisto. Só por um milagre — ou por uma injustiça de todo o tamanho — é que o prémio lhe escapa. Não que ele esteja muito preocupado com isso.