Sociedade

Ajuda. Quem são os moradores deste bairro que guarda a verdadeira Lisboa?

A população está envelhecida, mas os mais jovens começam a chegar. A propósito da 5.ª edição da LisbonWeek, fomos conhecer os habitantes deste bairro de Lisboa.

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Carolina Flores, 29 anos, representa a juventude que começa a chegar à Ajuda, um dos bairros mais envelhecidos de Lisboa

Inês Costa Monteiro

Carolina Flores, 29 anos, representa a juventude que começa a chegar à Ajuda, um dos bairros mais envelhecidos de Lisboa

Inês Costa Monteiro

No centro de Lisboa, as cervejarias deram lugar às brasseries, as pastelarias às pâtisseries, as padarias às boulangeries, os cabeleireiros a qualquer coisa que termine com “studio”, os alojamentos são “guest houses”, as lojas são agora “stores” e os restaurantes começam a eliminar este substantivo, para o substituir por qualquer coisa que termine em “kitchen” ou “bistro”.

À Ajuda, o fenómeno do estrangeirismo ainda não chegou. Seja no Casalinho, no 2 de Maio ou na Boa Hora, as coisas ainda se chamam pelos nomes que conhecemos e Lisboa ainda é muito Lisboa. Veja-se: os vizinhos cumprimentam-se na rua; o padeiro conhece os seus fregueses, bem como o senhor da mercearia, do talho ou da padaria; as comadres sentam-se e conversam; há crianças a brincar na rua, mas não são tantas como antigamente, porque também aqui se nota o efeito da internet e dos ecrãs touch.

Xana Nunes é a mentora da LisbonWeek, projeto desenvolvido em co-produção com a associação cultural ACTU

Inês Costa Monteiro

É por aqui que, entre 26 de outubro e 3 de novembro, se vai realizar a LisbonWeek, o evento que há já cinco edições elege uma zona de Lisboa, para desvendar ao público — português e estrangeiro — aquele que é o património material e imaterial dos bairros menos conhecidos da cidade. Através de uma série de atividades (pagas e gratuitas), dá a conhecer os sítios, os habitantes e as histórias de cada um destes locais.

“O objetivo da LisbonWeek é descentralizar as atenções do centro da cidade e dos centros históricos. Queremos chamar a atenção para outras Lisboas, para além do Chiado ou até mesmo daqui de Belém”, diz à MAGG Alexandra Ricciardi, mentora do projeto, desenvolvido em co-produção com a associação cultural ACTU. “Quando comecei a mergulhar neste bairro e a estudar aquilo que seria interessante comunicar às pessoas, encontrei-me muito com a população. Os outros bairros têm 40 a 40 e tal mil habitantes e este tem 19 mil. Encontrei um presidente da Junta de Freguesia [Jorge Marques] que conhece o nome de todas as pessoas que aqui vivem. Isto é mesmo Lisboa. É maravilhoso.”

Além de passeios e exposições por locais emblemáticos (e outros menos conhecidos), momentos musicais e até experiências sensoriais, uma das atividades da edição de 2019 é o Inside Out Project: a iniciativa ganha vida, a partir de 26 de outubro, numa exposição a céu aberto nos edifícios do bairro 2 de Maio, revelando à comunidade quem são os moradores das diferentes zonas da Ajuda, através de uma série de retratos captados pelo fotojornalista José Sarmento Matos entre 3 e 5 de setembro em zonas distintas do bairro.

Inês Costa Monteiro

A MAGG foi assistir à construção deste projeto no seu dia de arranque, que teve lugar num pátio da Junta de Freguesia, localizado na Calçada da Ajuda, onde — e agora um pouco de trívia — noutros tempos residiu Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal.

Queríamos responder a uma questão: quem são os moradores deste bairro que tão bem tem guardado a verdadeira Lisboa?

Sara Carmo, 29 anos, e Letícia, 3 anos

Inês Costa Monteiro

Sara e Letícia chegam à Junta de Freguesia com um cão bebé. Estão a caminho do veterinário, mas entram no pátio onde o Inside Out Project está a decorrer e pousam para José Sarmento Matos. As suas caras farão parte da exposição que vai retratar os moradores do bairro, que é o berço desta mãe e desta filha. Lá fora, está o companheiro de Sara, com o filho mais novo de 11 meses. “Ainda tenho um de dez anos”, conta-nos.

“Vivo aqui desde que nasci. Já estive noutros sítios, mas acabo sempre por voltar. Os meus pais, primos, são de cá”, conta Sara. “O bairro está muito bom, principalmente desde que, nos últimos anos, houve obras que melhoraram as estradas, as passadeiras e as calçadas”, diz, acrescentando, no entanto, que os parques infantis podiam ser melhores.

Ainda assim, não se via a morar noutro sítio. Aqui “a comunidade apoia-se” e “a junta de freguesia ajuda muito a comunidade.”

Maria Carvalho, 66 anos

Inês Costa Monteiro

Está reformada, mas não é por isso que deixa de trabalhar. Tanto assim é que nos surge com acessórios de quem se move pelo mundo da restauração. “Trabalhava no restaurante de família, que agora é da minha filha, onde ainda dou uma mãozinha.”

Mora há 53 anos na Ajuda e começa por dizer-nos que pouco mudou no correr das décadas. Mas, à medida que a conversa avança, Maria Carvalho vai recordando como é o bairro hoje e como é que era antes. Atualmente, diz-nos, “há mais habitantes, sobretudo jovens.”

Ao mesmo tempo, repara que o convívio na rua diminuiu, porque as pessoas “ficam em casa a ver as novelas e os seus programas.” Antes, lembra, “saiam, encontravam-se nos pátios, sentavam-se à sombra à conversa.”

Mas não é isso que a faz gostar menos da sua freguesia. “Costumo dizer que moramos aqui num sítio bem bonito”, considera. “Temos logo o rio Tejo cá em baixo. A gente aqui está bem. Não há confusão, é um bairro pacato. Apesar de tudo, as pessoas — as de idade, os jovens já é diferente porque saem de manhã para trabalhar e voltam à noite — conhecem-se.”

Amarilis Fernandes, 73 anos, Rosa Soromenho, 75 anos, Maria Fernanda, 71 anos, Maria Natália Viegas, 76 anos

Inês Costa Monteiro

Sentada num banco do pátio da Junta de Freguesia está Maria Natália Viegas, acompanhada por três amigas, Maria Fernanda, 71 anos, Amarilis Fernandes, 73 anos, e Rosa Soromenho, 75 anos. São ajudenses de gema e verdadeiras comadres, facto que se denota na forma como se completam e brincam, enquanto conversam com a MAGG. “Elas gostam é da codrelhices” diz, Amarilis, ao mesmo tempo que as outras acedem e riem. Outras pessoas vão atravessando os portões da junta para serem fotografas e elas cumprimentam-nas. Estamos perante um quarteto famoso por estas bandas, pensamos.

“Gosto muito de viver aqui. Gosto das pessoas. É um bairro familiar”, diz Maria Natália, natural do Dafundo, na Cruz Quebrada, e habitante da Ajuda desde que se casou, há 50 anos. “A gente aqui tem muita convivência uns com os outros”, aponta, rasgando largos elogios ao trabalho da Junta de Freguesia, responsável por organizar diversas atividades em que estas comadres participam sempre — e nas quais se incluem os passeios, a praia campo (no verão) ou ainda a associação dos reformados.

O que é que pode fazer na LisbonWeek?

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Muitas coisas. Selecionámos seis que não pode perder:

  • A Minha Ajuda: tendo o bairro como tema principal, através das redes sociais, os moradores da Ajuda podem enviar fotografias da sua autoria, que depois serão impressas em materiais como um pano da cozinha, por exemplo, e expostas no pátio da Junta da Freguesia, onde residiu o Marquês de Pombal.
  • Workshop de desenho com a artista Fernanda Lamelas, que foi também convidada a criar um lenço de seda, 100% nacional, inspirado neste bairro e que irá estar à venda na Loja do Museu Palácio Nacional da Ajuda.
  • Um concerto de órgão de tubos realizado no interior da igreja da Boa Hora, fora do comum: serão interpretados temas muito pop, como os dos icónicos filmes da saga “Guerra das Estrelas”, “Bladerunner” ou ainda “Senhor dos Anéis”.
  • Visita pelo Palácio da Ajuda: a LisbonWeek vai abrir alas do palácio da Ajuda jamais abertas ao público antes.
  • Visita à Biblioteca dos Pergaminhos: uma visita pela biblioteca mais antiga de Portugal, onde será possível ver o acervo documental que lá reside.
  • Caminhada Forest Therapy Experience: é um passeio guiado de três horas por Monsanto, em que o objetivo é desenvolver a atenção plena e a ligação sensorial e consciente com a natureza, de forma a diminuir o stress, aumentando a saúde e bem-estar do sistema nervoso.

“Vou à praça, vou ao café, aturo-as um bocado”, conta Maria Natália, enquanto nos narra parte da sua rotina. Falamos em “parte” porque a realidade é que as comadres são aventureiras e saem das zonas circunscritas pelo freguesia. “O ponto de encontro é sempre o Largo da Paz. No outro dia fomos a Setúbal comer um belo choco frito”, conta Maria Fernanda. “Este passe que o António Costa [atual Primeiro-Ministro] nos deu é uma maravilha. Antes não íamos a lado nenhum e agora vamos a todo o lado.”

Maria Emília Magalhães Gonçalves Zarco da Câmara Carvalho, 89 anos

Inês Costa Monteiro

Maria Emília viveu até há cinco anos numa quinta perto de Bucelas, tendo-se mudado para a Ajuda há cinco anos. “Vim morar para aqui porque a minha irmã, que era só 11 anos mais velha do que eu, não estava bem de saúde. No ano passado, fez ontem um ano, teve um AVC fatal.”

No testamento, deixou-lhe a casa em que agora vive. “Quando vim para aqui não conhecia nada. Mas, aos poucos, comecei a descobrir que aqui na rua [na Calçada da Ajuda], as pessoas são simpaticíssimas. Lembro-me de uma vez entrar numa loja, que vende coisas elétricas, para perguntar onde é que era o cabeleireiro”, recorda.

O funcionário daquele estabelecimento fez mais do que lhe responder. “Deu-me o braço, atravessámos a rua e, quando chegámos ao sítio [ao cabeleireiro], disse à senhora que lá estava: ‘Tenho aqui uma pessoa muito importante para tratar.’”

A entre-ajuda está enraizada na cultura do bairro, acredita. “Na papelaria, na pastelaria, em qualquer lado, se uma pessoa precisa de informação, ajudam em tudo o que podem.”

Esta vivência de bairro ainda hoje lhe dá a impressão de não estar numa cidade, muito menos numa capital. “Nunca senti que estivesse a viver em Lisboa. Lembro-me de dizer ao meu irmão [morreu há dois anos]: ‘Alvarinho, vou às compras, precisa de alguma coisa?’. E ele respondia-me: ‘A menina vai à vila?’”.

Mauro Henriques, 34 anos

Inês Costa Monteiro

Mauro rumou de São Paulo, no Brasil, para Portugal há pouco mais de um ano. O primeiro sítio onde viveu foi na “populosa” zona de Moscavide, tendo-se mudado para a Ajuda há cerca de sete meses. “Abro a porta de casa e vejo o rio”, destaca logo. “É um bairro com alegria, muito tranquilo, muito recetivo, que acolhe todo o mundo bem. É familiar”, descreve, o cozinheiro.

“Vivo perto da casa do Presidente da República [Marcelo Rebelo de Sousa]”, diz, referindo-se ao Palácio de Belém. Mauro mudou de país em busca de melhores oportunidades. Parece estar a correr bem:“Estou amando viver aqui.”

Catarina Silva, 24 anos, Leandro Rodrigues, 18 anos, Clementina França, 65 anos

Inês Costa Monteiro

Clementina França está na companhia de um sobrinho neto e da sua nora. Vive na Ajuda há 65 anos. Diz-nos que, nas décadas que passaram, a freguesia “não mudou muito”, mas que “alguma coisa mudou”. O que de seguida nos explica é que as raízes do bairro mantém-se, mas que a juventude é diferente, renovada pelo passar do tempo.

“Foi aqui que nasci e foi aqui que fui criada. Gosto da minha freguesia. Não me imaginava a viver noutro sítio”, diz. “Somos muito humanos. Conhecemos todos a gente. Se acontecer alguma coisa a alguém, os vizinhos socorrem logo. Nós apoiamo-nos, nós ajudamo-nos”, acrescenta, referindo apenas que deveria “haver mais trabalho para a juventude.”

Foi pelas ruas do 2 de Maio que sempre fez a sua vida. Fez parte das marchas populares da freguesia e era frequentadora assídua dos bailes. Hoje passa muito tempo fora deste seu sítio, porque assim o trabalho a obriga. É empregada de limpeza e começa o serviço logo de madrugada, muito antes do sol nascer. “Saio de madrugada, às 4 da manhã.”

Leandro Rodrigues, seu sobrinho neto, faz parte da camada mais jovem da freguesia. “Há muito mais turistas e pessoas jovens agora, principalmente estudantes”, nota. Apesar de ter nascido na Alemanha, também ele foi criado na Ajuda. “Vim para aqui com três anos. Gosto muito de viver aqui. É tudo perto e, como cresci aqui, criei muitas amizades.”

A infância pelas ruas da freguesia foi feliz. “Brincávamos muito fora de casa. Jogávamos ás escondidas, à apanhada. Os miúdos conheciam-se todos”, diz. “A vida no centro de Lisboa é muito atribulada e impessoal.”

Apesar do carinho pelo bairro que o viu crescer, Leandro não descarta a hipótese de ir ver outros mundos. “Estou à procura de trabalho na área do turismo. Quero ir trabalhar para outro sítio.”

Catarina já viveu no bairro da Boavista, mas, mesmo nesta altura, as vindas à Ajuda eram frequentes. Hoje é aqui que mora. “É mais calmo. Dá-me paz viver aqui.”

Carolina Flores, 29 anos

Inês Costa Monteiro

Da sua ocupação profissional fazem parte as obrigações como influenciadora digital, mas quando lhe perguntamos pela profissão diz-nos sem hesitar que é web designer, em regime de freelancer.

Faz este outubro quatro anos desde que trocou Oeiras pelo bairro da Ajuda. Quando nos refere as vantagens de aqui morar, Carolina Flores aponta em primeiro lugar o facto de este ser “um bairro ainda bastante típico” e de “estar perto quer do centro de Lisboa, quer da ponte ou da linha”— o que faz com que seja “mais acessível chegar a todo o lado”.

Além disso, há ainda uma atmosfera de “alegria”, que se materializa em “muitas festas” e no facto de “todas as pessoas se conhecerem.”

A zona da Memória, onde fica a sua casa, é aquele onde cumpre todas as suas rotinas. Por lá encontra todos os serviços que lhe fazem falta. Já cumprimenta os vizinhos, o senhor da mercearia, o senhor da oficina do carro, a esteticista. “Fica tudo aqui pertinho.”

“Nem pensar”, responde-nos, quando lhe perguntamos sobre se seria capaz de morar no centro de Lisboa. “Vim da periferia, nunca vivi no centro. Mas acho que é muita confusão, muito movimento, ninguém se conhece muito bem.”

Nos últimos quatro anos, nota um rejuvenescimento esta freguesia. “Até amigos meus começam a vir para aqui e procurar casa nesta zona”, aponta. “Apesar de as rendas terem subido bastante, acaba por ser mais acessível.”

Ainda assim, sente que faltam transportes e cafés mais jovens, que sejam capazes de acolher quem, como ela, não tem um escritório fixo.

Confirma-nos o que tantos outros já nos disseram: é um bairro com moradores diversos. “Há as pessoas mais velhas, que moram aqui há muitos anos, há pessoas com um ar que pode deixar-nos mais intimidados, mas que não fazem mal a ninguém, e há ainda os casais jovens, com 30 ou 40 anos, alguns com filhos e outros sem.”

António José de Araújo Amândio, 60 anos

Inês Costa Monteiro

Nasceu no Casalinho há 60 anos e foi pelas ruas do bairro que foi criado.  O nosso pequeno estudo sobre os moradores da Ajuda termina com aquele que é o mais orgulhoso dos ajudenses.

Não esquece a dureza dos tempos antigos. “Antigamente éramos pobres e agora somos semi-pobres. Eu era um pé descalço, agora já tenho sapatos. Dormi no chão, hoje já tenho uma cama”, conta. “Antigamente não havia água canalizada. Eu andava em pequenino com uma cangazinha, para levar água das minas às senhoras.”

Um dos fundadores da Escola de Fado da Ajuda, e reformado da marinha, lembra que a evolução do bairro se deve muito ao trabalho desenvolvido pela Junta de Freguesia e pela Casa da Cultura e Bem Estar, que terá tornado mais popular este sítio localizado na parte ocidental de Lisboa — tendo, consequentemente, oferecido melhores condições de vida aos seus habitantes.

“É o bairro com a população mais idosa de Lisboa”, diz. “Nós, meia-idade, temos de fazer dos idosos jovens. É isso que eu faço.”

Como? “Ando a cantar por lares, por associações, a motivar pessoas com pouca mobilidade. É trabalhar pela comunidade, porque hoje são eles, mas amanhã seremos nós.”

Não tem problemas em nomear-nos os melhores sítios da Ajuda onde, considera, há coisas “maravilhosas”: “Temos o Jardim Botânico, temos o sítio onde antigamente era feita a exploração da cal, aqui em baixo na [Eduardo] Bairrada, onde ainda estão as grutas”, destaca. “Temos outra coisa que muita gente desconhece: os nossos moinhos, onde antigamente, se moía o trigo que havia desde o Casalinho até à zona da Outurela. Temos ainda o Palácio da Ajuda e a Igreja da Memória, onde está sepultado Sebastião José de Carvalho e Melo, de cognome Marquês de Pombal.”

O seu sítio preferido, porque se respira “pureza, paz e sossego”, será o “pulmão da nossa cidade de Lisboa”, o Parque Florestal de Monsanto. Mas o melhor deste sítio que o viu crescer não é sequer palpável. “Repare no nome: Ajuda. Aqui as pessoas ajudam-se. E não há nada melhor do que isso.”

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