Entrevista

Sam The Kid. "Nas tunas canta-se 'A mulher gorda para mim não me convém'. Sobre isso ninguém fala mal?"

Dos concertos, ao novo disco e à polémica com Valete, o rapper foi a todas. "O pessoal acha que não se pode falar em violência, mas a minha dica é mesmo esta: Porque não, boy?".

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"Tu podes fazer uma piada em relação à minha cena, ou sobre a morte de um amigo meu, por exemplo. A minha reação não é ir fazer queixa a ninguém. É dar-te um carolo quando te vir", diz.

Samuel Costa/MAGG

"Tu podes fazer uma piada em relação à minha cena, ou sobre a morte de um amigo meu, por exemplo. A minha reação não é ir fazer queixa a ninguém. É dar-te um carolo quando te vir", diz.

Samuel Costa/MAGG

Foi do seu quarto mágico em Chelas, Lisboa, que Samuel Mira — mais conhecido como Sam The Kid — se deu a conhecer ao mundo. Por isso, só fazia sentido que fosse esse o sítio escolhido para se sentar à conversa com a MAGG. O pretexto, não que fizesse falta um, foram os dois concertos marcados para 18 de outubro e 8 de novembro em Lisboa e no Porto, respetivamente.

São os primeiros concertos em nome próprio depois de uma ausência dos palcos que também coincidiu com a ausência de discos. Em conversa, a voz não lhe treme. Não há hesitações nem falsa modéstia: considera “inconcebível” e “imperdoável” que, passados 12 anos desde que editou o seu último disco, não tenham existido pelo menos mais dois. 

E embora nunca tenhamos estado com Sam, sentimos que o conhecemos desde sempre. Talvez pela familiaridade das músicas, da postura e da descontração com que se apresenta a quem o aborda. Por isso, era difícil não o tratar por tu.

Mas Sam, que entretanto cresceu e tem 40 anos, diz não viver preso a deadlines. “Vou um bocadinho ao sabor do vento e não faço planos de vida”, embora admita que quer fazer novos discos. E mais concertos.

Depois do lançamento da compilação “Mechelas”, da qual faz parte “Sendo Assim” (a sua primeira canção desde 2006), Samuel Mira sente que estes novos concertos podem potenciar trabalhos novos a solo. Sobre isso, a polémica que envolve Valete e o que esperar dos novos concertos, o rapper foi a todas.

Nos últimos anos cedeste pouco (ou quase nada) à nostalgia e estiveste sempre envolvido em novos projetos. Porquê voltar aos concertos em nome próprio e porquê agora?
Foi uma epifania. Estava a conduzir e a ouvir a minha última faixa, a “Sendo Assim”, que tem uns violinos e pensei: Adorava poder tocar esta música com uma orquestra. Depois comecei a divagar e a pôr em hipótese a possibilidade de dar um concerto só com canções que eu adorava ouvir com orquestra.

Foi esse o critério, honestamente. Embora não considere isto um ato de nostalgia, até pelo contrário. Vai ser um acontecimento para podermos andar em frente. Pode até vir a dar novos frutos, como novas músicas ou concertos meus a solo. No fundo, é não ter medo de entrar num novo capítulo.

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É olhar para a frente e não tanto para trás?
Sim, embora no alinhamento estejam previstas muitas canções antigas. Algumas até que eu não cantei ao vivo na vida.

Não é uma celebração.
Nunca liguei muito a esse tipo de cenas, de festejar uma carreira.

À medida que os anos foram passando, houve alguma necessidade de regressar às canções que te deram nome e te fizeram feliz?
A palavra emoção está muito envolvida neste espetáculo, sem dúvida. Há canções que eu nunca cantei e que vão envolver emoção, mas pode não ser uma cena feliz ou de felicidade, entendes?

É não saberes muito bem o que vais sentir quando subires ao palco?
Aquilo que eu quero é algo íntimo dentro daquilo que é possível fazer com um concerto que já tem alguma dimensão. Quero propor uma alternativa àquilo que as pessoas geralmente consideram quando pensam num grande concerto de hip-hop e que fuja ao “tivemos lá em cima aos saltos, fizemos três moches e foi brutal”.

Quero construir uma cena mais deep, mais profunda. Também não quero que a malta saia de lá a chorar. Mas quero um espetáculo em que o pessoal que vá para lá me possa ouvir sem ter de estar aos saltos. Embora esses momentos também possam existir, claro.

"Embora eu deseje fazer mais álbuns, não tenho nada planeado", revela Sam The Kid em entrevista à MAGG

Samuel Costa/MAGG

Quantas vezes já te perguntaram se estes dois concertos são os únicos que vais fazer?
Imensas, mano. Constantemente [risos]. É quase diário, porque eu nunca fiz isto e até gosto de viver assim. Mas atenção, não é que eu não acredite nas minhas cenas. Porque eu gosto do que fiz e acredito nelas, mas vivo com a mentalidade de que tudo o que vier é bem-vindo. É um mecanismo de defesa para nunca estar desiludido na vida.

No final da canção “Sendo Assim” perguntas “para quê fazer um álbum se ele dura meses?”. No final, adicionaste a reação de um dos teus colegas e amigos que te diz “vê lá se tratas de fazer um álbum”. Sentes que, independentemente da mensagem que queiras fazer passar, vão continuar a pedir-te um novo disco?
Sim, claro que sim. Até gostei de acabar um álbum físico e digital com essa gravação porque pensei: “Se calhar o pessoal vai pensar que a próxima cena nova vai ser um álbum meu”. Era espetacular que isso acontecesse e que eu conseguisse [risos], mas sinceramente não está muito nos planos. Embora eu deseje fazer mais álbuns, não tenho nada planeado. Tenho temas que vou escrevendo e depois é a tal cena: vejo cada vez mais pessoas da minha geração, por assim dizer, que estão a fazer o mesmo caminho que eu fiz com a minha compilação.

O próprio Valete anunciou um disco desse género e o Boss AC também disse, em entrevista, que gostava de fazer músicas isoladas que eram oferecidas ao público e que depois culminariam num disco físico.

Um disco em movimento, digamos assim?
Precisamente, porque te adaptas aos dias de hoje. É uma experiência completamente diferente, mas o álbum tradicional ainda faz sentido. Mas a maneira mais inteligente e duradoura de o fazer é esta.

Há mais alarido, falatório e adesão das pessoas.
Ya, e consegues suster um projeto durante uns dois anos. Acabei de editar um disco dos Classe Crua em que aí as pessoas tiveram a experiência de viajar da primeira faixa à última quase sem conhecer a maioria das canções que compunham o disco.

É a maneira mais tradicional. Mas talvez não vai haver malta a espremer aquilo enquanto produto durante dois anos.

Frustra-te quando te perguntam pelo novo disco, 20 anos depois?
Não, nada. Aliás, eu sou o primeiro a pensar isso. Quem me dera, man. É inconcebível. É imperdoável que nestes 12 anos não tenha tido pelo menos mais dois discos. Mas pá, às vezes vou um bocadinho ao sabor do vento e não faço planos de vida. Não tinha nada planeado para em 2023 ter isto ou aquilo feito. Não sou esse tipo de pessoa.

Mas todos os anos tenho trabalho criativo e trabalho que me dá dinheiro. Mas as minhas cenas pessoais vão ficando para trás porque eu não crio esses deadlines. Depois entram aqui várias facetas em jogo: a de rapper, a de produtor, a de entrevistado, a de promotor e criador da TV Chelas. E não sou pai [risos]. Imagina que era e a juntar a isso ainda tinha de ir levar os putos à escola. Os dias são muito rápidos, estás a ver.

Aquilo que procuro é superar-me e não me repetir, estás a ver? Há esse tipo de artistas que são tipo: “São quantas músicas, duas? Amanhã já tens isso.” Mas eu não sou esse tipo de gajo.

Não é fácil?
É um puzzle na minha cabeça. Neste momento estou a acabar de escrever uma letra que, mais uma vez, não é para mim mas para uma participação [risos]. E estou aqui a matar-me todo. Não porque perdi o jeito e me custa mais. Pelo contrário, o nível que proponho para o meu texto é que é muito mais complexo daquele que eu propunha para as minhas primeiras letras.

Estive agora a ensaiar e as minhas letras antigas não se comparam em termos de complexidade e envolvência de rima às mais recentes. E custa rimar silabicamente umas coisas com as outras É cena que mata mesmo a marmita, ya [risos].

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Achas que o facto de te pedirem um novo álbum é o reflexo de uma sociedade cada vez mais descartável e sempre atenta à next big thing?
Sem dúvida. Mas estou a dizer-te isto quando, enquanto consumidor, sou a mesma coisa. Eu quero ver tudo e já esqueci. Sei lá quantos filmes já vi este ano, ou quantos álbuns já ouvi.

Eu valorizo-os, memorizo-os e olho para eles com consideração. Há discos que ouvi este ano que, assim que o ano terminar, eu vou saber identificar aqueles que foram mesmo bons. Mas se me perguntares se esteve em constante circulação, provavelmente não — porque tenho de ouvir os outros. Só que o paradigma atual obriga-me a reagir um bocadinho mais rápido e a passar de um para outro.

Já falaste em vários fatores que contribuíram para que não editasses música nova há muito tempo. A morte de Snake e Barbosa, dois dos teus companheiros, é dos capítulos que ainda te pesa muito?
Sim, claro que sim. Isso é mesmo uma das razões de não haver concertos em nome próprio.

Desde então que nunca mais subiste sozinho a um palco.
Subi uma ou duas vezes e senti muito aquela falta…

Da partilha entre criadores?
Ya. É importante para mim, estás a ver? Para mim, o Snake e o Barbosa também eram os Sam The Kid. Todo o rapper a solo passa por essa cena de ser uma banda, mas no palco éramos mesmo os Sam The Kid.

Pesa-te porque, além de serem pessoas muito próximas, tens dificuldade em lidar com a morte?
Não. Neste caso, lido mal, obviamente. Porque eram muito jovens e pela forma como morreram [Snake morreu baleado numa perseguição policial e Barbosa num acidente de mota]. Também já perdi os meus avós, mas aí tenho de aceitar que é uma coisa da vida. São dores diferentes. Há umas que aceitas mais e há outras que te deixam com pena — e isso nunca há de passar.

É o elefante no meio da sala?
Não diria tanto, porque isso significaria que não conseguia falar disto. Eu consigo falar sobre os meus sentimentos sobre o assunto mas, ao mesmo tempo, é uma dor palpável à qual és sensível e dormente.

O Snake e o Barbosa eram os meus grandes irmãos, mas há poucos anos também o Beto [Beto di Ghetto] morreu e era um dos músicos que participava em canções minhas. Como ele, vários outros amigos meus também morreram. Tenho 40 anos e tenho vários amigos próximos que estão a morrer. Acaba por ser um dor plural que, com o passar do tempo, vai passar a ser mais comum. Mas aí vais ter de aceitar. Nestes casos dói mais porque são pessoas jovens.

"Também já perdi os meus avós, mas aí tenho de aceitar que é uma coisa da vida. São dores diferentes. Há umas que aceitas mais e há outras que te deixam com pena"

Samuel Costa/MAGG

Numa das tuas canções do disco “Pratica(mente)” dizes estar à procura da perfeita repetição” e que são “anos de pesquisa”. Assumes-te como um rapper muito cerebral na medida em que procuras estudar e construir rimas ao pormenor antes de as deitares cá para fora?
Ya, ya. É mesmo isso. Também por isso estou a demorar tanto, estou a tentar ser melhor e emendar erros que já fiz. Pá, tentar encontrar palavras novas, sinónimos e tentar usufruir das ferramentas que tens no teu telemóvel, no Google. É tudo, mano.

A faixa que eu estou a fazer agora tem um tema específico e fala de partes do corpo humano. Vejo a construção dessa letra como uma composição da escola porque a minha parte competitiva vem ao de cima. Eu quero ter boa nota nesta cena e penso que não vou ter outra oportunidade de rimar com este tema. Então não vou fazer isso em 24 horas. Prefiro pensar sobre a cena para ver se nada me falha. É o meu processo para construir este puzzle que não passa por ser o mais comprido, atenção. Mas sim o mais completo. Quero sentir-me satisfeito, quero que ele seja flawless.

Mas deixas espaço na tuas músicas para que também haja alguma imperfeição, como erros nas conjugações verbais como já admitiste várias vezes. Porque a arte, para ser honesta, também tem de ser imperfeita?
Não, por isso é que tento ser melhor para não cometer os mesmos erros. Mas [longa pausa]… agora que falas nisso, estava a tentar fazer este jogo na minha cabeça: se tu me mostrares um cantor perfeito e um cantor que tem ali uma certa falha, mas que que canta como o caraças, aí é que eu aplico a palavra feeling.

Se calhar, nesse cantor com essa falha específica, é a fraqueza na voz que lhe deu um caráter e uma personalidade que me emocionou.

Achas que o hip-hop, e mais especificamente o rap, é dos poucos géneros capazes de sobreviver à onda do politicamente correto?
O ataque ao Valete mostra que o rap não está a passar ao lado disso. Sinceramente não sei, mano. Acho que o rap, por ser profundamente popular, está a ser muito atacado neste momento quando outros géneros talvez não seriam. Dou este exemplo muita vez: “Nas tunas canta-se ‘a mulher gorda para mim não me convém’. Sobre isso ninguém fala mal? Não era razão para, se algum rapper fizesse essa música agora, as feministas aparecerem a dizer umas coisas?

Não sei para onde estamos a caminhar. Este caso do Valete é bom para se ver o quão ridículo isto está a ser, porque as pessoas precipitam-se e fazem julgamentos com esta facilidade.

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Essa precipitação assusta-te enquanto músico?
Às vezes basta uma pessoa, sabes? Já no caso do Festival Iminente bastou uma pessoa denunciar [o esgoto a céu aberto junto ao recinto] para se criar uma bola de neve. É ver cada situação e tentar perceber as intenções dessa pessoa. Eu fui ver o perfil da pessoa que denunciou, boy.

Esse bacano tinha várias publicações sobre os incêndios na Amazónia, a dizer que os seres humanos eram uma porcaria. A dica dele já é incendiária. Mas, concordo com todas as causas dele, atenção.

Fazes por ter alguma auto-censura nas letras que fazes para evitar este tipo de reações?
Em geral, não. Tento não me censurar e exponho aquilo que eu quero. Sou mais old school, mano. O pessoal acha que não se pode falar em violência, mas a minha dica é mesmo esta: porque não, boy?

Tu podes fazer uma piada em relação à minha cena, ou sobre a morte de um amigo meu, por exemplo. A minha reação não é ir fazer queixa a ninguém. É dar-te um carolo quando te vir. Porque não pode ser assim? Não é que te vá matar. É só para te fazer ver que não podes fazer isso.

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