O dia antes de visitarmos a Focinhos e Bigodes tinha sido dramático. “Morreu-nos uma cadela que estava connosco há nove anos. Outra foi parar ao veterinário, porque deitaram abaixo um bairro clandestino, nas imediações de Lisboa, onde foi encontrada”, conta à MAGG Ana Maria Francisco, 73 anos, uma das voluntárias a tempo inteiro d entidade sem fins lucrativos, que tem espaço para albergar 60 cães, que ficam para adoção.

Na Casa dos Animais — o ex-canil/gatil municipal e o centro de recolha oficial de animais errantes de Lisboa — há mais espaço, mas não é por isso que cabem lá mais animais. Alberga 200 cães, repartidos por boxes e parques (vão revezando os lugares), e cerca de 250 gatos. Realiza cerca de 15 a 20 cirurgias por dia, sem esquecer os 50 tratamentos que ali são realizados, também diariamente.

Quem nos adianta estes números é Marta Videira, veterinária deste espaço. “Não há famílias suficientes para adotar os animais. Mas não é suposto os animais estarem aqui a vida toda, enfiados num canil. É suposto isto ser um período de transição”, continua, agora numa alusão ao tempo que alguns animais aqui residem antes de serem adotados. Além dos abandonos de verão, a veterinária refere ainda os animais que são deixados na rua por familiares dos donos que morreram. “Deve ser uma obrigação moral dos familiares responsabilizarem-se.”

De acordo com a veterinária, os animais que chegam a este local da Câmara Municipal de Lisboa, ficam 15 dias em quarentena, para que os donos os possam reclamar. “São encontrados amarrados a postes, em terrenos, em esquadras”, conta. “Quase nenhuns são reclamados. São mesmo deixados para abandono.”

“Os verões são sempre péssimos. Não conseguimos responder a todos os pedidos, porque não temos espaço. Fazemos o que é possível, mas sobrevivemos dos nossos bolsos e da sociedade civil. Não temos sequer subsídios da Câmara”, diz Ana Maria Francisco, que considera que “há uma maior sensibilização das pessoas para a adoção, mas o número de abandonos é muito superior.”

Precisávamos de implementar uma esterilização obrigatória para cães“, considera Marta Videira.

De acordo com dados avançados pela Ordem dos Veterinários, em 2018, o número de animais abandonados cresceu 22% em 2017, sendo o verão a altura em que esta situação mais se verifica.

Em 2019, esta foi a realidade de muitos animais, agora ao cuidado destes albergues. Simão foi encontrado depois de ter sido atropelado. Tinha um chip e foi possível identificar o dono, que não o quis de volta, tendo a situação resultado na instauração de um processo crime por abandono.

Kali, com quatro meses, foi atirada para dentro de uma vivenda alheia. Já Núria, com cerca de um ano, foi encontrada com pedaços de um vidro na cabeça, depois de ter sido ferida por uma garrafa.

Estas são apenas três histórias de um universo imenso. Depois de visitarmos a Casa dos Animais e a Focinhos e Bigodes (a União Zoófila foi contactada, mas não quis participar), a MAGG reuniu um total de 21, que, no Dia do Animal, que se celebra esta sexta-feira, 4 de outubro, representam uma parcela ínfima da realidade que é o abandono dos animais do verão.

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