O lançamento do videoclip de “BFF”, do rapper Valete, continua a gerar polémica e discussão. Agora, tem mais um interveniente: Rui Sinel de Cordes, o rei do humor negro em Portugal.  O vídeo, que mostra um homem a chegar a casa e a encontrar a mulher na cama com o melhor amigo, foi criticado por várias figuras públicas, instituições feministas e até alguns humoristas (como Diogo Faro) por, alegadamente, promover a violência doméstica. Isto porque, ainda no clip, depois de o homem descobrir a traição, ameaça matar a mulher enquanto lhe enfia o cano de uma caçadeira na boca.

Após a divulgação do vídeo, não demorou muito até que surgissem as primeiras vozes contra a liberdade criativa de um artista que, para contar uma história, usou a representação de uma cena de violência contra uma mulher — numa altura em que, em Portugal, morreram já 29 mulheres às mãos dos seus companheiros.

Estava ditada a sentença: a nova canção e videoclip de Valete glorificavam a violência machista e a perpetuação do estereótipo que diz que a mulher é propriedade do homem. Valete reagiu e desvalorizou as críticas que, diz, vieram de pessoas que “não respeitam o rap artisticamente”.

A polémica foi tal que se criou uma carta aberta, assinada por várias pessoas e associações, em protesto contra a banalização da violência de género. E também a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) divulgou um comunicado onde defende que os agentes culturais “devem assumir uma responsabilidade acrescida no combate à violência e, em particular a violência contra as mulheres.”

Agora foi Rui Sinel de Cordes quem se juntou à discussão. O humorista, que várias vezes viu a sua liberdade de expressão condicionada, publicou um vídeo na sua conta de Instagram a comentar a polémica que considera ter chegado “a níveis absolutamente ridículos.”

No vídeo, disparou em todas as direções. “Considero absolutamente ignorante, idiota, perigoso mas, acima de tudo, irresponsável, qualquer ataque à liberdade criativa ou a qualquer forma de arte. Neste momento, a CIG tomou a ação em conjunto com outras associações e outras pessoas independentes em relação a uma música que tem um storytelling sobre violência doméstica”, começa por dizer.

View this post on Instagram

Vejam, pensem, comentem, partilhem, acordem.

A post shared by RUI SINEL DE CORDES (@ruisineldecordes) on

A primeira crítica, defende, está na dualidade de critérios que o humorista tem vindo a ver ser propagada nas redes sociais. “Acusar o Valete de machismo e de incentivo à violência doméstica é das coisas mais estapafúrdias que eu alguma vez podia pensar. Só é possível numa sociedade profundamente doente, onde o idiota da aldeia tem voz ativa e os seguidores, mais idiotas ainda, se tornam.”

“Nas últimas horas, vi músicos defender que certas temáticas deviam ser proibidas nas letras de outros músicos. Vi atrizes de telenovela afirmarem que violência doméstica não deveria aparecer assim numa música. Deixem-me pôr as coisas bem claras para vocês: uma atriz que diz que violência doméstica não devia ser retratada noutra forma de arte é o mesmo que o Hitler dizer: ‘Olha aí, não digas preto’. Na novela a violência doméstica é prevenção e no hip-hop é incentivo? Decidiu quem?”, perguntou.

A meio do vídeo, Rui Sinel de Cordes dirige-se a toda a comunidade artística que diz serem uns cobardes por não reagirem ao que está a acontecer.

A lei contra a violência doméstica é “completa”. Então, porque é que está a falhar tanto?

E por reação, refere-se a uma reação pacífica e intelectual. “Acho que vocês [toda a comunidade artística] não podem ficar calados quando, em 2019, um músico é perseguido porque está a ser demasiado criativo numa música.”

“Eu sempre sofri ataques deste género e vi muitos de vocês, quase todos, a ficarem calados. Na altura, achava que era porque vocês não gostavam de mim. Mas agora vejo que não era isso. Vocês são uns cobardes. E quando falo em artistas, falo de artistas a sério. Já estava na altura de fazermos todos 180º na cabeça e pensar se estamos a ir no caminho certo. Eles já vieram pelo humor, pela música e a seguir vem a literatura, o cinema e o teatro. Quando chegar às novelas é que vocês acordam”, remata.

“Vivemos numa altura decisiva da História no que toca à liberdade de expressão e liberdade artística. Portugal é neste momento um local muito mais livre do que sítios como o Brasil, os Estados Unidos ou o Reino Unido e isto tem de ser protegido. E é por isso que eu me dirijo também a outras personalidades com responsabilidade na cultura e na sociedade portuguesa.”

E Rui Sinel de Cores aqui vira a atenção para professores, filósofos, escritores, jornalistas, atores, músicos e pergunta indignado: “Onde é que estão os rappers”?

“Estão a atacar um dos vossos, onde é que vocês estão? É que sempre que há merda com humoristas, eu estou habituado ao silêncio da minha classe porque os humoristas estão-se a cagar e outros são uns bananas. Mas no rap? Não vão fazer nada? Alguém está a dizer que vocês têm de ter cuidado e há temas que não podem rimar. Estão calados?”.

O vídeo termina com um ataque à classe humorística portuguesa. “Tem de ser sempre o Ricardo [Araújo Pereira] a ser a voz da razão no humor em Portugal? Os outros estão mudos? Pessoal, sujem as mãos. E acordem. Acordem todos”, conclui.