Rúben Rua não para. Ter passado de modelo a apresentador deu-lhe novas rotinas e toda uma nova agenda e, talvez por isso, chegou 10 minutos depois da hora marcada para a nossa conversa. “Desculpem, estive na rádio Comercial até agora e aquilo atrasou um bocadinho”, justifica-se.

Desengane-se quem pensa que com o fim do reality show “Like Me” a vida do apresentador tenha acalmado. “Hoje estou aqui, daqui a 15 dias vou a Londres com a Disney, depois vou assistir ao desfile da Intimissimi e depois ainda tenho a final do Elite Model Look”, conta à MAGG. A juntar a isto, ainda existem presenças em eventos que tem que fazer e uma vida como influenciador digital para gerir.

Com tudo isto em mãos, ainda tem de sobrar tempo para ir até ao Porto, a cidade onde nasceu e à qual tem uma “ligação quase umbilical”. Ainda assim, vive em Lisboa há nove anos e, de momento, não se vê a viver em mais lado nenhum.

À MAGG fala sobre o casamento e o divórcio de Sofia Ribeiro, da relação com Cristina Ferreira e ainda da infância e adolescência no Porto. A parte profissional não foi esquecida e Rúben não esconde o desejo de vir a apresentar um programa em daytime na TVI e explica o porquê do seu último projeto televisivo não ter correspondido às expetativas.

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O último grande projeto no qual esteve envolvido foi o programa “Like Me”. Como descreve a experiência?
Foi um projeto muito desafiante e muito intenso. Estamos a falar de um reality show que te absorve porque tens de saber tudo o que se passa naquela casa. É um formato original e muito vanguardista porque, apesar de os reality shows já existirem há mais de 20 anos em Portugal, este abordava uma dinâmica diferente e inovadora com o digital. Os concorrentes tinham de comunicar o digital de uma forma diária. Portanto havia uma comunicação televisiva e uma comunicação digital.

Por outro lado, nós íamos para o ar seis dias por semana durante três meses, por isso foi um projeto trabalhoso ao qual me dediquei muito. Tive a sorte de ter uma companheira, colega, amiga que co-apresentou este “Like Me” comigo [Luana Piovani] e que se tornou muito próximo de mim.

Da minha experiência pessoal, o “Like Me” foi um projeto que me permitiu fazer uma coisa que gosto muito que é a apresentação. Fez-me crescer muito enquanto profissional. O “Like Me” terminou há um mês e eu tenho a certeza de que outro projeto virá.

Rúben Rua e Luana Piovani numa das emissões do "Like Me"

O programa acabou devido às fracas audiências. O que acha que correu mal? 
As audiências não foram brilhantes, como é público. Mas eu acho que temos de olhar para as audiências primeiro de uma forma macro e depois de uma forma micro. Neste momento, o consumo televisivo baixou. O canal onde eu estou, e onde trabalho, tem tido algumas dificuldades em impôr-se na luta pelas audiências. Portanto, qualquer formato do próprio canal tem tido essa dificuldade em ser líder.

Eu sou uma pessoa honesta e transparente e não posso fugir ao facto de que as audiências do “Like Me” não tenham sido brilhantes. É um facto. E porque é que isso aconteceu? Primeiro acho que pela conjuntura e depois porque o facto desta temática ser inovadora, digital. O horário inicial do “Like Me”, às 19 horas também não ajudou, já que tem um público que não percebe ou não está familiarizado com esta linguagem.

Percebo que o programa não tenha sido para todos. E nós quando temos uma audiência queremos chegar às massas. Para sermos líderes, ou pelo menos ter um bom resultado, temos que tentar chegar a quase toda a gente. E de facto, o “Like Me” não foi para toda a gente. Acho que era muito virado para um nicho e acho que os resultados podem ser explicados um bocadinho por aí. Mas também acredito que depois do programa, as pessoas tenham ficado mais familiarizadas com esta nova linguagem digital. De repente já sabem o que é um hashtag, ou o que é um Storie ou um influenciador digital.

“Like Me”. Tudo o que precisa de saber sobre o novo programa da TVI

O próprio Rúben é um influenciador digital. O que acha que é preciso ter para atingir este patamar?
Acho que o a influência digital se divide em dois: os que são influenciadores na sua essência, e outros que devido à sua profissão já contam com alguns seguidores nas redes e que, se fizerem essa comunicação digital bem feita, podem também ser considerados influenciadores. Neste caso falo de um apresentador, de um ator, de um modelo, ou de pessoas mais exposição.

Os primeiros nascem nas redes e podem terminar nas redes também. Devido aos seguidores que têm e ao engagement que criam conseguem trabalhar e fazem disso vida. Ou seja, são apenas influenciadores digitais, e não digo isto num sentido pejorativo. Eles são um veículo de comunicação e uma montra para muitos produtos e marcas que querem trabalhar com eles.

Eu tenho um percurso profissional antes do Instagram ,que continua com o Instagram, e que eu quero acreditar que vai para além disso. Comunicar é uma coisa que eu gosto de fazer na minha vida, e faço-o em televisão e nas redes sociais.

No meu caso, acho que o facto de ter exposição ajuda o facto de me te tornado influenciador digital. Talvez uma pessoa possa ter mais trabalho como modelo, ator ou cantor porque tem uma grande força digital. Mas essa força digital também cresce conforme os trabalhos com mais ou menos exposição que uma pessoa tem.
O Instagram não é para mim uma obrigação profissional chata e complicada. Eu gosto de estar no Instagram. E por isso acabo por unir o melhor de dois mundos: por um lado acredito que é importante para o meu trabalho, por outro lado enquanto pessoa gosto dessa forma de comunicar.

Como é que faz essa gestão das marcas que entram nas suas redes sociais?
Tento sempre fazer aquilo que faço em televisão e que faço na minha vida, que é ser uma pessoa verdadeira. Tento escolher as marcas com as quais me quero envolver, e tento que a relação que tenho com as marcas seja longa e que se torne orgânica ao longo do tempo. Ou seja, não quero estar associado hoje a uma marca e daqui a dois dias estar associado a outra concorrente. Acho que isso confunde os meus seguidores, e acho que se me seguem e me reconhecem e acreditam na minha verdade, acredito que lhes devo esse respeito.

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Por isso, escolho de forma ponderada as marcas com as quais trabalho. Se forem ao meu Instagram, veem que as relações que tenho com as marcas são longas. A Adidas é uma relação de 10 anos, a Antony Morato é uma relação de quatro anos, a Perfumes & Companhia é o terceiro ano. Renovei o contrato com todas as marcas que tinha do ano anterior. E fi-lo porque as coisas correram bem tanto para mim como para a marca. Tento sempre pensar em marcas que goste, com as quais me identifique e que me acrescentem valor. E as marcas querem trabalhar comigo porque lhes acrescento valor, espero.

Mas têm de ser marcas que eu goste e marcas com as quais queira trabalhar com elas de uma forma contínua. E é essa continuidade que faz com que a minha comunicação seja orgânica, e sendo orgânica faz com que que a minha comunicação seja verdade. E eu deixo de ser uma montra onde partilho produtos, para ser uma pessoa que dá voz a determinado produto que consumo.

Já consegue tirar rendimento das redes sociais?
Consigo, sim.

Se quisesse viver só do trabalho de influenciador, já conseguia?
Hoje, conseguia. Mas eu sou uma pessoa que nunca teve apenas uma fonte de rendimento. Não tanto pelo dinheiro, mas pela minha personalidade. Sou uma pessoa que gosta de estar envolvido em vários projetos em simultâneo. Não posso negar que não tenho nenhum rendimento associado ao meu Instagram, tenho. Mas também é verdade que trabalhei na Elite durante vários anos como consultor, também sou modelo na agência, tenho o meu trabalho enquanto apresentador, tive também outros projetos paralelos de livros, de linhas, também tirei um curso superior. Portanto, eu nunca tive só um plano A, sempre tive vários planos. E hoje penso muitas vezes no futuro e em quais podem ser os meus próximos projetos no futuro.

Uma das marcas que Rúben Rua publicita nas suas redes sociais é a Herba Life

Agora que deixou a apresentação do programa, é às redes sociais que se dedica?
Como é público eu tenho um contrato com a TVI, portanto se estamos a falar de rendimentos, eu não vivo só do Instagram. Existem outras coisas associadas à minha carreira. A apresentação não tem que ser apenas na televisão, posso também apresentar eventos, por exemplo. Continuo a ser modelo, ainda este mês de setembro fiz dois desfiles. Daqui a 15 dias vou a Londres com uma ação da Disney, também vou de viagem com a Intimissimi para ver o desfile, depois ainda vou a Paris para a final do Elite Model Look.

Portanto, graças a Deus, sou uma pessoa que nunca esteve parada. E mesmo que um projeto termine não baixo os braços e não fico sem fazer nada – continuo envolvido em 50 projetos diferentes. E eu preciso de me manter ocupado para me sentir vivo.

O “Like Me” não foi a sua primeira experiência de apresentação de programas. Como é que entrou neste mundo?
Nunca tinha pensado ser apresentador na minha vida, começou tudo mais ou menos como uma brincadeira, com uma peça que fiz no Portugal Fashion. Depois comecei a trabalhar como apresentador no final de 2015. Na altura fui convidado para a RTP2, para um programa chamado “What’s Up – Olhar a Moda” enquanto repórter. Passados seis meses fui chamado pela TVI para um especial feito no Oceanário. Durante os meses seguintes partilhava algumas experiências na TVI com as reportagens que fazia na RTP2 até que chegou a um ponto em que tive de optar.

Fiquei na TVI e neste caminho tive alguns trabalhos no “Somos Portugal“, durante quase três anos, como trabalhos mais pequenos como o aniversário, ou o “Você na TV“. Depois surgiu o “First Dates” no início deste ano, que apresentei com a Fátima Lopes e agora o “Like Me” com a Luana Piovani. E agora vamos ver qual é o passo que se segue.

É precisamente no período em que apresenta o “Você na TV” que surgem notícias de uma aproximação de Cristina Ferreira. Chegam a sair notícias a dizer que estavam juntos.
Temos de reagir com naturalidade às notícias que saem. A partir do momento em que se está na vida de uma forma pública, está-se sujeito ao escrutínio público e a que as pessoas possam ter mais opiniões sobre ti próprio. Está-se também sujeito a que a imprensa fala sobre mais coisas. Naquele momento acharam que duas pessoas solteiras, a trabalharem juntas, com uma clara química televisiva e uma amizade muito verdadeira, pudessem ter ali mais qualquer coisa. Eu sempre reagi com muita naturalidade.

Os anos foram passando e as notícias também foram passando. Mas de facto, eu tenho uma grande química televisiva com a Cristina e diria que essa química não é apenas televisiva. Tenho também uma grande amizade por ela, já disse isto muitas vezes. É uma amizade transversal que vai para além daquilo que a televisão é. E a prova disso é que a Cristina hoje já não está na TVI e eu continuo a ser amigo dela. Estejamos no mesmo canal, em canais diferentes ou até fora da televisão, eu continuarei a ser amigo dela. Pela Cristina eu tenho uma grande admiração, um enorme respeito e carinho e uma amizade que é de facto muito significativa.

E como cresceu essa amizade pela Cristina?
A amizade cresceu da forma mais natural possível. Conheci a Cristina no “Dança com as Estrelas“, quando participei na segunda edição do programa, e depois mais tarde começámos a trabalhar juntos, começámos a conviver mais e percebemos que gostávamos de estar um com o outro, de conversar os dois e que tínhamos pontos em comum.

Nutro um profundo respeito e admiração por ela. Acho que é uma pessoa muito trabalhadora, inteligente e acho que tudo o que a vida lhe deu é merecido. E eu identifico-me com essa forma de estar na vida, de batalhar, de construir, de esperar muito para que possam reconhecer o teu real valor. Acho a Cristina uma profissional exímia e um ser humano fantástico. Sinto-me muito agradecido e sortudo em ser amigo dela.

Mas depois há aquela capa em que quase se beijam. Foi uma resposta às notícias que davam conta que os dois estavam envolvidos?
Não creio que tenha sido uma resposta. Honestamente não sou uma pessoa de guardar rancor ou mágoas. Tenho a sorte de ser uma pessoa respeitada pela imprensa, respeito que sempre retribuí. E acho que é uma coisa que dura até hoje. Saíram as notícias de que estávamos mais próximos, de que namorávamos. Eu sempre vivi muito bem com elas, nunca me senti ofendido e nunca fiz disso um problema.

A capa protagonizada por Cristina Ferreira e Rúben Rua

Sempre tive noção que, a partir do momento em que a Cristina lança a revista, eu poderia fazer parte daquele projeto. Como já tínhamos falado que um dia eu ia fazer aquela capa. Confesso que não esperava que fosse aquele momento mas com a Cristina as coisas são assim, surgem quando menos se espera. E foi assim uma decisão muito rápida de “Olha, ‘bora fazer isto agora”, “Ok, certo. E que capa vai ser feita?”, “Vamos fazer esta”. E foi assim. Acho que acima de tudo é uma capa muito bonita, digna de qualquer publicação mundial de alto nível. E aquilo que eu posso dizer é aquilo que ela escreveu no editorial: “Para lá da névoa só nós sabemos”.

A Cristina Ferreira está na SIC. Pondera uma mudança de canal agora?
Neste momento o meu canal chama-se TVI. E já se chama assim há mais de três anos. É um canal onde eu estou feliz, realizado e onde eu tenho projetos. Este ano foram dois os programas que a TVI me deu, comecei com o “First Dates” e depois chegou o “Like Me”. Este último terminou e vamos esperar para ver o que vai acontecer agora, sabendo nós que a TVI está num processo de mudança estrutural. Hoje estou na TVI e é o canal em que vou continuar. Agora, não posso dizer que nunca mais vou trabalhar com a Cristina. Eu não sei se a minha vida televisiva vai passar sempre por esta estação, ninguém sabe. Mas a curto prazo a minha realidade é a TVI, sem dúvida.

E o caminho na TVI pode passar por substituir Manuel Luís Goucha nas manhãs?
Vou ser muito honesto, não há pessoas insubstituíveis em nenhuma área. Mas eu acho que pensar em alguém para substituir o Manuel Luís Goucha é difícil, não existe ninguém capaz de o substituir. No dia em que o Manuel Luís Goucha deixar as manhãs da TVI, fecha-se um ciclo. E no dia em que for outra pessoa para aquele lugar, seja eu ou outro colega meu, inicia-se um novo ciclo.

Maria Cerqueira Gomes pode rumar para o Porto e Goucha deixar as manhãs

Se eu sou um dos nomes possíveis, fico muito lisonjeado e orgulhoso por isso. Se eu gostava? Com certeza. Claro que sim. Se sou apresentador, se estou na TVI ,e tendo em conta que gostava de crescer nesta área, não vou ser falso e dizer que não quero. Eu gostava e já assumi publicamente isso mesmo, que gostava de fazer daytime. Agora, deixemos o Manel fazer o seu caminho até ao fim. Certamente que irá alguém para o lugar dele um dia, mas não me compete a mim decidir quem vai ocupá-lo. Vou esperar pela minha oportunidade e quando ela chegar espero merecê-la.

Falou que gostava de fazer daytime. É isso que espera da TVI?
Acho que nesta fase tenho de ter noção do lugar que ocupo e do meu passado televisivo. Tento ser uma pessoa humilde e realista e, por isso, não estou no direito de exigir o programa A ou o formato B. Eu sei o percurso que quero construir enquanto apresentador e é isso que tenho tentado fazer nestes últimos anos. Quero ser uma opção válida para que, quando a TVI tiver um projeto televisivo, o meu nome possa estar em cima da mesa. Cabe-me a mim depois dar o meu melhor para que na próxima reunião o meu nome continue em cima da mesa. E acho que há vários espaços possíveis e eu vejo-me a apresentar várias coisas diferentes. Agora falando no daytime e nas manhãs, sim, gostava de um dia apresentar. Não posso ser falso e dizer o contrário.

O seu foco agora é a apresentação. Mas antes disto a sua carreira era de modelo. Como é que tudo começou?
Nunca pensei em ser modelo. Um amigo meu participou no Elite Model Look e eu tive curiosidade em participar no ano seguinte. Acabei por participar em 2005 e comecei a viajar no ano seguinte. Na altura estava a tirar Gestão no Porto e acabei por dedicar à moda e passei quase cinco anos da minha vida a viajar e a tentar ser o melhor modelo que conseguia. Tive a sorte de ter viajado para Tóquio, Nova Iorque, Paris, de ter feito as semanas de moda internacionais, de ter fotografado para as melhores revistas do mundo. Trabalhei em todos os mercados que queria, desfilei para as melhores casas do mundo, ganhei um Globo de Ouro. Como modelo, acabei por realizar todos os meus sonhos.

Maria Miguel. A modelo portuguesa que está a brilhar nos grandes desfiles de moda

Mas depois chegamos a um ponto no qual a moda tem menos relevância do que há uns anos. A moda continua, mas hoje é uma componente mais enfraquecida da minha vida, existem outras mais importantes, como o digital ou a apresentação. Mas sem dúvida que uma porta vai abrindo outra. A moda trouxe-me até à televisão e agora a televisão pode levar até outros mundos. Acho que a moda foi um veículo de crescimento humano, cresci muito enquanto pessoa. Às vezes brinco e digo que serei modelo para sempre, porque o meu ADN é moda. Não que faça desfiles com 80 anos mas acho que vou sentir a moda de uma forma diferente até ao final da minha vida porque faz parte da minha essência. Foram anos muito bonitos da minha vida.

Fez as semanas de moda internacionais. Como é a vida de um modelo nessas alturas?
É boa e má. Os melhores aspetos são viajar, conhecer cidades de uma forma que sem a moda era impossível. Uma coisa é irmos a Paris três ou quatro dias de férias, outra coisa é estar lá um mês quatro vezes por ano como eu ia. Ter também a possibilidade de viver com pessoas de todo o mundo e ainda ter acesso a experiências que de outra forma não teria. E depois também existe a parte de realização pessoal. Desfilar para Jean Paul Gaultier, Valentino ou Dolce & Gabanna são sonhos. E isso são experiências de vida que são inesquecíveis.

Em contrapartida, temos de abdicar e sacrificar algumas coisas. Há um ausência de casa, porque num dia estamos numa cidade e no outro estamos noutra. A nossa casa é a nossa mala, estamos menos vezes com a família e amigos. Cheguei a congelar a matrícula na faculdade para mais tarde voltar a estudar e portanto não é um mundo cor de rosa. Não é a vida perfeita como muita gente pensa, há coisas boas e há coisas menos boas.

Qual é a melhor memória que tem das semanas da moda de Milão e de Paris?
Tenho duas. A primeira é quando faço o meu primeiro desfile internacional com a Dolce & Gabanna, em Milão. Lembro-me de ser um sonho para mim trabalhar para a marca. Recordo-me do casting, do call back e de quando foi a altura de fazer o fitting a dupla de criadores estar na sala a marcar as minhas bainhas. De repente fiquei com aquela sensação de que tinha conseguido.

Depois dessa primeira semana da moda em Milão, segui para Paris e o desfile que eu mais queria fazer era Jean Paul Gaultier. Pedi na agência por favor para me chamarem para o casting, porque este tipo de trabalhos tens de ser convidado para fazer o casting. Acabei por fazê-lo e fiquei com a sensação de que me tinha corrido bem, mas uma pessoa nunca sabe. Lembro-me de estar no metro, em Paris, estava a ouvir um fado da Amália Rodrigues, quando o meu booker me mandou uma mensagem a dizer: “Estás confirmado para Jean Paul Gaultier”. Recordo-me de ter começado a chorar no metro e de pensar que a minha vida tinha mudado naquela momento. E de facto, isso abriu-me as portas do mercado internacional e deu-me também reconhecimento em Portugal.

É depois dessa carreira como modelo internacional que acontece o casamento com Sofia Ribeiro.
Sim. Comecei a viajar em setembro de 2006, conheci a Sofia em junho de 2010 e casei-me no ano seguinte. É nesta altura, pela Sofia, que eu decido fechar a minha carreira internacional.

E arrepende-se de ter feito essa mudança por amor?
Não. Se há coisa que aprendi é que não se pode ter o melhor dos dois mundos e eu não podia ter tudo na minha vida. Não posso ter uma namorada em Portugal, ser casado, voltar para a faculdade, trabalhar na Elite e ter uma carreira internacional. Da mesma forma que, durante vários anos abdiquei de ter uma relação e ter tempo com a família e amigos, também é verdade que noutra altura optei por outras coisas para mim. Senti vontade em ter uma relação, tive vontade em voltar para a universidade e concluir o meu curso, vim para trabalhar para a Elite.

Sempre vivi muito bem com as coisas que não tive porque sempre tive noção do que conquistei outras. O importante é não estar parado e percorrer o nosso caminho, sabendo que nem sempre tomamos a direção certa, mas isso não quer dizer que não possamos depois retificar e corrigir. Não acredito nas pessoas que dizem que não se arrependem de nada, acho que estão a mentir. Claro que já me arrependi de muitas coisas na vida, mas vivo bem com isso porque até hoje tomei as decisões que achei melhores para a minha vida naquele momento.

Quando casou, era para sempre?
Eu acho errado quem casa e não acha que é para sempre. Casei muito apaixonado, casei por amor e casei a acreditar que as coisas podiam dar certo. E infelizmente não foi isso que aconteceu.

Um casamento tão curto ditou a forma como lida com as relações amorosas desde aí?
Não sei responder a isso. Eu quero acreditar que não. A Sofia foi a minha primeira relação séria, a minha primeira namorada, foi a pessoa com quem casei e pela qual vim viver para Lisboa. Na altura tomei várias decisões na minha vida que foram começar a trabalhar na Elite, voltar à universidade, parar de viajar, em prol desse relacionamento. Estive casado um ano e dois meses e depois divorciei-me. Aliás, publicamente tive apenas duas namoradas depois dessa relação. Por isso quero acreditar que não.

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Sou uma pessoa que acredita no amor e acredita que podemos encontrar alguém para o resto da vida. Por isso tentei sempre que o facto de a minha relação e do meu casamento terem falhado, não deixasse mazelas ao ponto de ficar uma pessoa mais fria, mais defensiva ou ficar descrente. E não é por aquela relação não ter dado certo que eu não posso ter outra relação que dê certo.

Pensa assumir publicamente agora a namorada que lhe atribuem [A figurinista Amanda Amorim]?
Estou muito feliz. Eu nunca vivi as minhas relações nesse planeamento. Eu planeio muita coisa na minha vida e o meu trabalho é planeado até ao último pormenor, mas as minhas relações não sou um plano. Não crio um calendário de quando vou assumir ou se vou assumir uma relação. Acho que é um lado da vida que não se pode controlar. Mas este também é um lado da minha vida que eu tento resguardar mas que não quero esconder. Neste momento, estou feliz.

Agora é mais seletivo nas pessoas com quem se relaciona?
Sou. Sempre fui uma pessoa muito sociável, sempre me dei com toda a gente, de todos os meios, de todos os mundos, de todos os estratos sociais. Mas nunca fui uma pessoa de ter muitos amigos. Nunca fui uma pessoa de abrir o meu coração para muita gente. E tem sido sempre assim a minha vida toda. E talvez agora com esta exposição, isso me tenha tornado numa pessoa com mais filtro. Nunca tive muitos amigos mas aqueles que tenho são bons e chegam-me. Sou feliz em ter na minha intimidade muito pouca gente.

Nasceu e cresceu no Porto. Ainda mantém as amizades de infância?
Tenho alguns de infância, sim. Tenho amigos que conheci com 7 anos, tenho um grande amigo que o conheci com 12 anos e depois tenho grandes amigos que surgiram mais tarde. E espero que ao longo da minha vida surjam outros amigos, a vida vai também tirando alguns e dando outros. Mas sou uma pessoa com poucos amigos.

Qual é a sua relação com a cidade?
Uma relação umbilical quase. Eu nasci e vivi grande parte da minha vida no Porto. Tenho um orgulho imenso em ter nascido lá, nunca escondi as minhas raízes, faço questão de assumir esse lado nortenho e tripeiro. Vou regularmente ao Porto, porque tenho a minha família e alguns amigos lá.
Da mesma forma, não posso negar que moro em Lisboa há nove anos e que cada vez mais gosto de morar cá. E se durante muitos anos me era difícil sair do Porto para vir para Lisboa, hoje em dia estou muito feliz e realizado em Lisboa. E não acredito que vá morar noutra cidade que não esta.

Que memórias guarda de uma infância passada no Porto?
Memórias fantásticas. Os meus avós tinham uma quinta enorme perto da Serra da Estrela, e toda a família se reunia lá no verão e no Natal. Estou a falar em 30 ou 40 pessoas. E essas memórias da minha infância nessa quinta são as mais bonitas que eu tenho.

Rúben com a mãe

Depois, no Porto, vivia numa zona chamada Amial e andava no colégio Luso Francês que era em frente a minha casa. Tenho muito boas memórias dessa escola, onde fui muito feliz. Mais tarde mudei para a Foz, onde os meus pais vivem até hoje e é um meio social diferente. Criei algumas amizades aí mas também tive tempos mais difíceis como problemas de adaptação que tive. Também passei pelo andebol, joguei durante cinco anos pelo Boavista, e que foi muito importante para mim. Convivi com pessoas de outros meios sociais, de outros estratos, com outras vivências e isso tornou-me numa pessoa versátil, completa e com uma noção macro do que era a vida em sociedade.

Todas essas mudanças marcaram o seu crescimento?
Na altura tinha 12 anos e fui morar para outra zona da cidade e, por isso, mudei de escola. Fui bem recebido e depois começaram os problemas. Era bom aluno, tinha boas notas, era bom no desporto, e quando as notas começaram a sair senti que os meus colegas não me achavam assim tão bem-vindo. Percebi que naquela zona da cidade há toda uma dinâmica que é criada desde muito cedo com pessoas que vão desde um jardim de infância, para outra escola e para outra sempre juntos. Ou seja, crianças que crescem juntas, e eu entrei um pouco mais tarde.

E depois era uma dinâmica um pouco diferente da minha: cumprimentar as pessoas com um beijo, chamar tio e tia. Era uma dinâmica um bocadinho diferente da minha a qual depois foi adaptando sempre mantendo-me fiel a mim mesmo.  Naquela idade às vezes as crianças são más e fizeram-me claramente sentir que eu não era bem-vindo ali. E foi um período difícil em que chegava a casa várias vezes a pedir aos meus pais para que me levassem de volta para a escola antiga, para a outra zona da cidade porque acreditava que não ia ser feliz ali. A verdade é que os meus pais não me mudaram. Aguentei-me e dei a volta por cima. Hoje dou graças a deus que os meus pais me tenham deixado lá porque isso tornou-me muito mais forte.

Isso hoje em dia poderia ser chamado bullying.
Não quero ir por aí. Eu não vou dizer que fui vítima de bullying porque acho mesmo que não o fui. Eu fui para uma escola onde tive um período em que não fui bem recebido e onde os meus colegas não me faziam sentir bem-vindo. Mas esse período passou, eu fiquei na escola, conheci-os melhor, eles conheceram-me melhor a mim e as coisas mais tarde correram melhores. Foi só um período menos bom na vida, mas acho que não é bullying, eu consegui aprender essa lição.

Rúben em criança com a mãe

E como é que uma pessoa dá a volta?
Aguentas. Acordas de manhã e vais para a escola, e continuas a estudar, a tirar boas notas. E no desporto continuas a tentar ganhar, ainda que estejas sozinho. E isso dá-te uma força mental incrível. Digo mais, hoje em dia são poucas as coisas que me deitam abaixo. Porque ganha-se uma resistência que nos prepara para a vida. Se os meus pais pegassem em mim e me colocassem naquele casulo onde tive durante tantos anos, eu se calhar hoje não tinha a resistência que tenho. E às vezes oiço história de crianças que passaram por problemas gravíssimos que não foram os meus. Eu tive ali umas brincadeiras de muito mau gosto, mas foi só isso. Os meus colegas estavam muitas vezes contra mim, mas isso só me dava mais força de conseguir resultados. E é assim que uma pessoa dá á volta, acreditando no nosso valor.

E da secundária que memórias guarda?
Eu mudei muitas vezes de escola, porque mudei de área algumas vezes. Sempre tive alguma dificuldade em saber o que queria fazer da minha vida. Uma pessoa vai andando na escola porque tem de o fazer, vai tirando boas notas porque é isso que é suposto e depois chega-se a uma altura em que temos de optar por uma área. Eu nem sabia o que queria fazer, quanto mais escolher uma área.

Na altura fui para ciências, que diziam que tinha mais saída. Ao fim de um ano, percebi que não queria ciências e fui para economia. Depois entrei na faculdade em gestão, mas depois apercebi-me de que queria ser modelo. E depois quando voltei para a faculdade percebi que gestão é um curso fantástico mas que a minha área era comunicação. Então fui tirar ciências da comunicação na Nova.

E porquê comunicação?
Porque na altura vim para Lisboa viver, parei de viajar enquanto modelo, pelo menos por longas temporadas, e pensei: “Vou trabalhar na Elite como booker e como tenho tempo vou voltar a estudar”. E assim foi. Na altura, a minha irmã estava a licenciar-se em comunicação e o que ela me dizia fazia-me sentido. E eu achei que eu tinha que ver como com aquele curso. Fui fazer os exames nacionais e acabei por entrar na Nova em 2011.

É formado em comunicação, foi modelo, teve uma participação numa novela e ainda é apresentador e influenciador digital. Em qual dos papéis se sente mais confortável hoje em dia?
Para mim a moda é um percurso que já está concluído, não é uma opção. Continuo a fazer trabalhos como modelo sim, mas a forma como eu vivo essa moda é diferente. Aí eu já realizei os meus sonhos e os meus objetivos. Se me perguntarem qual o pólo da minha vida em que estou mais focado e onde quero crescer é a televisão. E é isto que quero capitalizar nos próximos anos. Paralelamente há um trabalho digital e uma vida digital que eu gosto de fazer e acredito também que nos próximos tempos o lado empresarial pode vir ao de cima.