Não teste isto em casa, mas sabia que caso se queime durante o dia, a sua pele vai sarar mais rápido do que se o incidente se der à noite?

É isso. A ciência tem-nos vindo a demonstrar que a reação do corpo a uma ferida varia consoante a hora do dia. Por exemplo: uma vacina contra a gripe será mais eficaz de manhã, uma vez que, caso injetada entre as 9 e as 11 horas, produzirá quatro vezes mais anticorpos no organismo — valor que diminui muito seis horas depois. Já numa cirurgia cardíaca, acontece o inverso: as perspetivas de sobrevivência aumentam substancialmente se a operação for realizada durante a tarde.

Não é só o sono que varia conforme o seu ritmo circadiano, o ciclo biológico de 24 horas horas de todos os seres vivos, que depende de diversos fatores, como a luz ou a temperatura. O cérebro, o sistema imunitário, a atividade das células e dos tecidos também. Assim, esta diferente disposição do organismo, marcada por diferentes alturas do dia, é capaz de influenciar muito a forma como o corpo recupera de infeções ou de lesões, explica a edição online do canal “BBC”.

“Quem somos em termos de fisionomia durante o dia é diferente daquilo que somos à noite”, diz ao mesmo canal Tami Martino, diretor do Centro de Investigações Cardiovasculares da Universidade de Guelph, em Ontário, no Canadá.  “Acredito que a medicina circadiana pode mudar para sempre a maneira como gerimos a saúde humana”, diz Martino.

Os comportamentos e a bioquímica do organismo são também ditados pelo ciclo da luz, sugerem vários estudos. A nossa estrutura celular parece ter pensamento próprio. “As nossas células evoluíram para poder curar feridas de maneira mais eficaz no momento biológico em que é provável que aconteça”, diz John O’Neill, biólogo circadiano do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica em Cambridge, no Reino Unido, à “BBC”.

Porque é que é assim? Porque “é extremamente improvável que ocorra uma grande ferida enquanto estivermos a dormir, a meio da noite, enquanto que durante o dia é muito mais provável.”

Um estudo de 2008, levado a cabo por O’Neill, demonstrou isto mesmo: segundo a investigação, as células que ajudam a reparar os danos nos tecidos — chamadas fibroblastos —  migram para as áreas que sofreram uma lesão mais rapidamente durante o dia do que durante a noite.

Ao mesmo tempo, ao analisarem os dados do Banco Internacional de Lesões por Queimaduras, os investigadores notaram que quem sofre queimaduras durante a noite tinha demorado mais 11 dias a cicatrizar as feridas, face aos que tinham sofrido o acidente à noite.

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Além das feridas nos tecidos, estes ritmos do organismo também influenciam a forma como respondemos a infeções. Rachel Edgar, virologista do Imperial College de Londres tem dedicado a sua investigação a compreender a interação entre os ritmos circadianos e as infeções virais como o herpes. Num estudo de 2017 notou que este vírus se replicava dez vezes mais nas pessoas que eram infetadas à noite, face às que tinham contacto com o vírus durante o dia.

Assim, as conclusões sugerem que esta reação do corpo à altura do dia pode ir além da atividade do sistema imunitário. Ou seja, também as células têm ritmos diários que influenciam a extensão de uma infeção viral.

Esta ideia vai ao encontro de outro estudo, também de 2016, que foi realizado em humanos e que encontrou respostas distintas à vacina da gripe: quando administrada de manhã, era substancialmente mais eficiente do que quando administrada à tarde.

Mas, mesmo dentro do universo das infeções, há diferenças: “Será diferente para agentes infecciosos distintos”, diz Edgar. É que também os vírus têm os seus timings. “Se soubermos que um vírus se espalha para células vizinhas num determinado momento, poderíamos potencialmente dar terapias antivirais na altura em que elas serão mais eficazes”, diz Edgar.

Além de influenciar o sarar dos tecidos e a cura de infeções, estes relógios internos podem potenciar o efeito de mais de metade dos 250 medicamentos essenciais apontados pela Organização Mundial de Saúde e que são utilizados em todo o mundo. Analgésicos comuns, como ibuprofeno, ou ainda terapêutica para a pressão arterial, úlceras, asma ou cancro podem ser mais ou menos eficazes consoante a altura do dia em que se dá a toma.

Por exemplo: segundo a “BBC”, o valsartan, medicamento para a pressão arterial, é 60% mais eficaz quando tomado à noite; a aspirina tem mais efeito quando é tomada à noite, assim como anti-histamínicos para alergias.

Também os efeitos da radioterapia parecem variar de acordo com a altura do dia, sendo mais eficaz à tarde do que de manhã.

O ritmo do coração

Também o sistema cardiovascular tem o seu próprio ciclo circadiano. Por exemplo: o ritmo cardíaco e pressão arterial são mais baixos quando dormimos, mas aumentam exponencialmente na altura de acordar; as nossa plaquetas, fragmentos de sangue que ajudam a formar coágulos, são mais pesados durante o dia; já os níveis de hormonas como a adrenalina — contraem os vasos sanguíneos e fazem o coração bater mais rápido — também são mais altos durante o dia.

Todas estas variações influenciam o espoletar de ataques cardíacos. “Se monitorizados as pessoas que entram nas urgências, descobrimos que é mais provável que ocorram ataques cardíacos entre as 6 horas e o meio-dia, comparativamente a qualquer outra hora do dia ou da noite”, explica Martino.

Um estudo de 2018 sugeriu que pessoas submetidas a cirurgia de substituição de válvula cardíaca à tarde tinham metade do risco de sofrer um problema cardíaco grave nos 500 dias seguintes, comparativamente às que passaram pela operação durante a manhã. Por outro lado, a luz do dia mostrou ser fundamental na recuperação de um ataque cardíaco, aumentando exponencialmente as hipóteses destes pacientes sobreviverem e terem alta do hospital mais cedo.

Para as cirurgias estéticas é diferente: ainda que realizar a cirurgia durante a noite possa significar que o tempo de recuperação será mais demorado, pode também ser benéfico para a cicatrizarão — ao levar mais tempo a sarar, há potencial para ficarem menos marcas no corpo.

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Os obstáculos

Agora, que implicações práticas tem este conhecimento sobre a forma como o corpo reage a cada estímulo? Em primeiro lugar, o custo dos ensaios clínicos para cronometrar a eficácia dos medicamentos — que aumenta sempre que é necessário fazer um teste para analisar a influência de determinada terapêutica em alturas diferentes do dia.

Além disso, é preciso lidar também com a imprevisibilidade dos pacientes — se conseguir que estes sigam, à risca, uma terapêutica já é difícil, quanto mais garantir que tomam os medicamentos num horário específico.

A isto soma-se o fator da individulidade: os organismos — e ciclos circadianos — são todos diferentes. Uns podem funcionar melhor durante o dia, outros durante a noite e ainda não há nenhum teste simples que seja capaz de analisar o relógio interno dos indivíduos em diferentes momentos.

Ao mesmo tempo, há que considerar que os ambientes hospitalares têm, regra geral, janelas pequenas e uma iluminação interna a funcionar dia a noite. A pouca luz duranteo dia e o excesso de luz noturna vai mexer com os ritmos do organismo, prejudicando-os na medida em que os desalinham. A conjugação de medicamentos também é um fator negativo, sobretudo quando falamos daqueles que mexem com o sono — a título de exemplo, combinar morfina com outras terapêuticas altera os ciclos dos pacientes.

Porém, as previsões são positivas. Dadas todas as conclusões e investigações em curso, especialistas conseguem projetar um futuro em que os medicamentos possam estabilizar os ritmos circadianos em pacientes hospitalares.

“No futuro, posso imaginar um mundo em que estamos usando uma pílula circadiana ou a presença ou ausência de luz para curar doenças cardíacas”, diz Martino.