Silas foi anunciado esta sexta-feira como o novo treinador do Sporting Clube de Portugal. Não há um só órgão de comunicação social que escreva o contrário. O próprio Sporting já apresentou o seu novo treinador. Ou seja, não há qualquer dúvida de que Silas será o treinador principal do Sporting. O único problema é que, de acordo com a lei 40/2012, de 28 de agosto de 2012, Silas não tem competências para ser o treinador principal do Sporting. Da mesma forma, toda a gente, todas as entidades competentes, legisladoras, reguladoras, associações, federação, todos os órgãos de comunicação social, adeptos, sócios sabem que Silas não tem o grau IV de treinador, que lhe permite assumir o cargo para o qual foi contratado.

Qual é a solução apresentada para contornar a lei? Colocar Silas, no papel, com um cargo que ele não vai desempenhar, e que toda a gente sabe que não vai desempenhar, coisa que já acontecia no Belenenses, o primeiro clube que Silas treinou (embora no papel fosse só adjunto). E o que é que toda a gente faz perante esta ilegalidade? Nada. Rigorosamente nada. Assobia toda a gente para o ar, porque, afinal, “é só futebol”, e o futebol vive na sua bolha, tem a sua lei muito própria, e as leis também não têm de se levar assim tão à letra, que exagero.

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Um professor de Matemática pode ser o melhor professor de Matemática do mundo, pode ensinar como ninguém, pode ser adorado pelos alunos, mas se não tiver o título válido para dar aulas, não pode dar aulas. É a lei. A escola não o pode inscrever como “auxiliar educativo” e depois dizer-lhe para ele assumir as aulas de Matemática do 8.º A e do 9.º D. Um médico, por muito bom que possa ser a operar, por muita competência e conhecimento que possa ter, não pode exercer Medicina sem um título válido. Um advogado a mesma coisa, um enfermeiro, um contabilista. Mas um treinador de futebol pode. À vista de todos, em frente às televisões, com o conhecimento público de milhões de pessoas.

Há outro aspeto surpreendente no meio de tudo isto. É que o Sporting Clube de Portugal, uma das maiores associações desportivas do País, um dos melhores clubes de futebol nacionais, compactue com uma coisa destas. Numa altura em que vive uma das suas maiores crises, o Sporting Clube de Portugal contrata um treinador que não pode ser treinador em pleno, porque senão leva uma multa. Silas não vai poder parecer que é treinador, só vai poder sê-lo sem o parecer. Vai estar limitado na sua função até acabar os estudos de que precisa para passar a treinador principal. Isto é tão absurdo que parece anedótico.

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É neste tipo de situações que prevalece o chico-espertismo luso em que inevitavelmente esbarramos quando nos referimos à pobreza do futebol português, que tem tanto de fantástico, que tantos títulos consegue nas seleções nacionais, mas que depois não é capaz de se impor, de impor a força da lei-geral, quando os interesses chocam com os dos clubes de futebol. O sentimento de injustiça social acabará sempre por prevalecer, aquela ideia de que a Justiça não é igual para todos, que a lei não é igual para todos, enquanto continuarem a existir situações destas. E o mais grave é quando as mesmas são promovidas por quem deveria ter a obrigação de ajudar a elevar o futebol, a profissionalizar o futebol, a tornar o futebol mais democrático, justo, próximo das pessoas, a afastar a ideia de que é um mundo corrupto e sujo, em que tudo se decide nos bastidores.

Agora a pergunta: as entidades competentes vão ver esta ilegalidade todos os dias nos jornais e vão encolher os ombros porque a lei está a ser bem “contornada”, é isso? Posso já responder: sim, é.