Jornalista há mais de duas décadas, Kátia Catulo, 48 anos, confessa que sempre quis dar um contributo maior à sociedade, que não passava, a seu ver, apenas por escrever notícias. Depois de passar pelas redações do “Diário Económico”, do “Diário de Notícias” e do “Jornal i”, a jornalista decidiu optar por uma carreira em regime freelancer, para se concentrar na sua família e também num projeto a título pessoal, o site infantojunvenil Que bicho te mordeu?.

Kátia Catulo, que sempre trabalhou temas mais relacionados com a educação, explica à MAGG que o novo site, criado a 7 de setembro, era  “uma ideia antiga”, muito provavelmente impulsionada pela sua experiência profissional.

“Não querendo generalizar, boa parte dos estagiários que chegavam às redações vinham com sérias deficiências a nível de cultura geral, o que para mim nem era o mais preocupante, dado que com o tempo e a experiência iam aprendendo. O mais chocante era mesmo o desinteresse que eles tinham em relação a muitos temas”, salienta.

Como responder às perguntas mais difíceis dos miúdos

O cenário parecia-lhe estranho: “Comecei-me a questionar como é que existindo tanto oferta de livros infantis no mercado, estando os pais dotados de tantas ferramentas, preocupados e investidos na educação dos filhos, essa aposta não se refletia nos jovens num contexto profissional. Afinal, os miúdos, atualmente, são 200 vezes mais estimulados do que na minha geração”.

E assim, tal como uma ideia que lhe zumbiu ao ouvido durante anos, Kátia resolveu deitar mãos à obra e lançou o projeto Que bicho te mordeu?, um site pensado para crianças a partir dos sete anos, mas que também é dirigido a adultos.

Kátia Catulo tem 48 anos e é jornalista há mais de 22

“A minha esperança é que os adultos sejam uma espécie de porta de entrada, que visitem e gostem do site, e chamem as crianças para o conhecer”, conta Kátia Catulo, que salienta que este projeto nasceu “com o propósito de espicaçar a curiosidade dos mais novos para temas relacionados com direitos humanos, desigualdades sociais, consciências cívica e ambiental, igualdade de géneros, ciências, entre outros”.

Histórias, curiosidades e conteúdos didáticos: tudo à distância de um clique

Lançado com 20 artigos — Kátia assume que o site ainda está em fase de testes até ao final do mês de setembro, para corrigir possíveis falhas técnicas —, o Que bicho te mordeu? tem uma forte aposta nos temas ligados aos direitos humanos.

“Os valores não são abordados de forma explícita, mas estão lá. Por exemplo, no separador dos Bichos-Carpinteiros, onde estão várias histórias de figuras inspiradoras, tento tirar partido do potencial narrativo para contar uma boa história, que por si seja suficiente, para que os valores abordados possam ser entendidos de uma forma natural”, explica a mentora do projeto.

Mesmo sendo uma plataforma direcionada para crianças, Kátia Catulo rejeita a utilização de uma linguagem infantil, e prefere  um discurso simples e direto através de todo o site, com o intuito de o tornar apelativo para os mais jovens.

Apesar de, nas palavras da própria, o site se assemelhar “a um quarto desarrumado de uma criança”, este tem uma estrutura definida, dividida em quatro separadores distintos: “Os Bichos-Carpinteiros é uma área que conta as histórias de figuras com percursos inspiradores, como a Josefa de Óbidos, a primeira pintora profissional portuguesa, ou Eugene Lazowski, um médico polaco que inventou uma falsa epidemia para proteger a sua cidade da invasão nazi”, relata Kátia Catulo.

Já a Enciclopédia dos Porquês dedica-se a curiosidades sobre o mundo à nossa volta, com respostas a questões como porquê é que os burros são casmurros ou porque gostam os abutres de cadáveres, “explicando as coisas como elas são”. O Bichos no Sótão também se dedica a curiosidades relacionadas com objetos do quotidiano, desde a origem da tesoura à mola de estender a roupa e, por último, o Bichinho das Contas aguça o interesse das crianças, desfiando-as a adivinhar quantas palavras estão num dicionário ou quantas cores há no mundo.

Os nossos filhos são mesmo totós ou somos nós que os controlamos demasiado?

“Não acho que o site vá resolver algum problema, mas quero usá-lo para despertar as crianças para o que têm à volta delas. Através dos conteúdos, espero que se possam aperceber de tudo o que se está a passar no mundo, desde os novos desafios climáticos aos fenómenos sociais, e enquadrar os mais novos na diversidade cultural do planeta”, salienta a jornalista.

Neste “cantinho”, os adultos também encontram respostas

Para além dos quatro separadores do Que bicho te mordeu?, existe um micro-site ligado à plataforma principal, dedicado aos adultos, apelidado de Cantinho dos Papás. Sem qualquer botão ou acesso direto através da página do site original, tem mesmo de acrescentar uma barra, seguida da palavra cantinho ao endereço html para aceder a este sub-domínio — ou seja, quebichotemordeu.com/cantinho.

“Este micro-site é mesmo direcionado a pais e educadores, e não é para as crianças terem acesso, até porque aqui é usada uma linguagem diferente e os temas não interessam aos mais jovens”, salienta Kátia Catulo, justificando o acesso mais “difícil” à segunda plataforma.

O Cantinho dos Papás é organizado como se de uma biblioteca se tratasse, e permite a consulta de várias investigações na área da parentalidade. Tal como explica a mentora do projeto, “coleciona estudos sobre tudo o que tenha a ver com crianças, para simplificar a vida aos pais”, entre temas como alimentação, bem-estar, comportamento e desenvolvimento infantil, entre outros.