A ideia de ir ao ginásio consegue ser bastante mais tortuosa do que o ato de treinar em si. Quem é que a usufruir de um estado de sanidade pleno pensará que correr na passadeira é mais agradável do que ficar colado no sofá a usufruir do maravilhoso universo do binge watching? Exato. Ninguém.

Só que há aqui vários pontos a considerar. Ainda que os momentos de descontração sejam também um lado fundamental da vida, a utilização abusiva da Netflix não trará saúde. Bem pelo contrário: promove o sedentarismo, tendo resultados opostos àqueles que se pretendem com o exercício físico.

O corpo é como a bateria de um carro: precisa de atividade para que não perca as suas competências. E não falamos só da estética: mais do que uma figura bonita, rotinas regulares de desporto são cruciais para uma boa autoestima, para músculos e ossos saudáveis, para o bom funcionamento dos demais sistemas do corpo.

Qualquer argumento que seja frequentemente utilizado para justificar falhas consecutivas para os treinos transforma-se em desculpa. Para impedir esta espécie de boicote que a mente aplica no corpo, reunimos as cinco principais causas que o fazem adiar as idas ao ginásio e, com a ajuda da psicologia, damos-lhe as armas para que não ceda à tentação do sedentarismo.

1. “Não tenho tempo para treinar”

Comecemos pelo argumento mais básico — e em que já ninguém acredita. É verdade que há dias em que o tempo passa por nós como uma rajada supersónica, mas factos são factos: a semana tem 168 horas, como lembra a autora Laura Vanderkam numa TED Talk sobre como aproveitar o tempo livre.

Mesmo que 50 horas sejam para trabalhar e outras 56 sejam para dormir, a realidade é que sobram 62 horas para ocupar com outras tarefas, que podem ir desde compromissos a lazer. É nesta zona que deverá reservar um espaço para treinar.

“Temos o poder para preencher as nossas vidas com coisas que merecem estar nela”, diz Vanderkam.

A psicóloga clínica Júlia Machado concorda: “A agenda é fundamental neste compromisso de saúde. Isto [a suposta falta de tempo para treinar]  está muito relacionado com o facto de nós criarmos resistências para cuidarmos de nós. Nunca usamos essas tais horas que sobram para nos dar prioridade”, diz à MAGG. “O ser humano ainda resiste muito a ver o exercício como um hábito normal, igual a tomarmos banho ou lavarmos os dentes. Um hábito para o nosso próprio cuidado. Pomos sempre tudo à frente disto. Temos de ver o exercício de forma positiva e saudável.”

O truque passa por assumir “um compromisso interno”, mas sem sermos excessivos. “Devemos começar com pequenos exercícios de menos tempo, duas vezes por semana, por exemplo”, diz. “Ir uma semana inteira e ficar um mês sem ir não é funcional. Mas duas horas semanais, se forem consistentes, é uma ótima forma para, depois, aumentar para três. Progressivamente é mais fácil.”.

2. “Estou mesmo confortável em casa agora. Começo para a semana — sem falta”

Dan Goldstein, economista comportamental da Microsoft Research, diz que existe uma luta entre os dois “eu” que habitam em cada um de nós — o do presente e o do futuro. No entanto, trata-se de uma batalha injusta, porque só um deles é que tem poder de controlo.

“O eu presente está presente. Está no controlo. Tem esses braços fortes e heróicos”, diz. “O futuro eu nem está por perto e, portanto, o eu presente pode vencer todos os seus sonhos.”

Mas o “eu” do futuro até pode ter uma função: imagine-se em trinta anos, com um corpo que nunca passou por um ginásio, tal foi o adiar “para a semana seguinte”. Assustador, correto?

Andamos a fazer tudo de errado no ginásio? Tudo não, mas muita coisa

São estas viagens mentais no tempo que, segundo Goldstein, podem ajudar a contrariar este adiamento constante. Júlia Machado não concorda e prefere pensar no “aqui e o agora”, considerando que esta projeção para um futuro distante “não será viável.”

Na opinião da psicóloga, o ideal é não fazer promessas — é que, assim, corremos o risco de entrar naquele ciclo vicioso de juramentos e consequentes desilusões. A solução é do mais simples que há: “Começar a pôr em prática logo.”

Ainda assim, a especialista coloca uma questão capaz de motivar este mecanismo instantâneo: “Qual é a coisa mais importante da nossa vida? É estarmos vivos. E o que é que nos mantém vivos? Cuidarmos do nosso corpo, da nossa saúde, o que implica comer bem e ir ao ginásio.”

3. “Prefiro ficar a ver mais uma temporada seguida desta série incrível da Netflix”

Vivemos num mundo em que tudo é portátil. As séries já não se veem só na televisão em casa. Ler um livro pode exigir apenas a ativação do sentido da audição, porque vivemos no maravilhoso universo dos audiobooks.

Por isso, juntar estas atividades de lazer ao tempo de exercício é uma opção muito vantajosa: enquanto pratica desporto (e faz bem à sua saúde) vai estar a praticar outra atividade que lhe dá prazer. O tempo passa-se melhor e mais rápido. Perfeito.

Katherine Milkman, cientista comportamental, liderou um estudo, em 2014, para o qual recrutou vários participantes que tinham como objetivo fazer mais exercício. A metade do grupo deu iPods com audiobooks e auriculares, mas que só no ginásio é que podiam ser utilizados. À outra metade, deu um vale presente da Barnes & Nobles. Resultado: o primeiro grupo treinou significativamente mais.

Sugestão: defina uma regra na sua vida em que só pode consumir uma série ou um livro que adora enquanto está a treinar.

Segundo a mesma cientista, a esta técnica, em que se cruza uma atividade prazerosa com um hábito desejado, dá-se o nome de “agrupamento de tentação”.

“Eu não concordo”, diz Júlia Machado. “O ser humano não nasceu para ser multifacetado. Fazer várias coisas ao mesmo tempo impede-nos de não estarmos a prestar atenção ao momento presente. Até posso estar a fazer o exercício e a ouvir um audiobook, mas posso estar a fazer tudo mal e ganhar uma lesão por causa disso. Quando estamos numa tarefa devemos estar nessa tarefa porque o cérebro não tem capacidade para estar multifacetado.”

Na opinião da especialista, a solução passará antes por criar um compromisso. “Claro que é mais agradável ficar no sofá a comer um gelado. Mas se queremos alguma mudança nas nossas vidas, temos de lutar por esses objetivos. Temos de nos dar atenção e percebermos que o exercício é um hábito fundamental para nos mantermos vivos — sempre com consciência de um equilibro que não seja oito [não treinar nada] ou 80 [treinar demasiado].”

4. “Estou fora de forma e não quero que ninguém no ginásio me veja assim”

“Vivemos numa sociedade em que ser gordo é visto como ser má pessoa — preguiçosa, gulosa, pouco saudável, irresponsável e moralmente suspeito. E tendemos a ver a magreza como o bem universal”, diz nua TED Talk Kelli Jean Drinkwater, uma artista e ativista.

A questão é: “Queremos mesmo viver numa sociedade em que se nega às pessoas a humanidade básica se elas não subscreverem a uma forma arbitrária daquilo que é aceitável?”, pergunta a artista.

O complexo resolve-se com uma mudança de visão: em vez de ver o exercício como uma forma de punição por não ser perfeito, encare-o como uma ferramenta de saúde. “Recuperar pode ser um dos mais belos atos de amor próprio e pode parecer um milhão de coisas diferentes, de penteados a tatuagens a contornos corporais, a cirurgias e, sim, até à perda de peso”, diz Kelli Jean Drinkwater.

Júlia Machado volta a reforçar a importância de estarmos conscientes daquilo que nos leva ao ginásio. “As pessoas deixam de ir ao ginásio porque se sentem fora de forma — mas a realidade é que vão para o ginásio para alcançar o objetivo de estar em forma. Eu não posso exigir ao corpo que chegue lá e faça tudo bem. O corpo vai-se moldando e adaptando para se chegar à meta definida”, diz.

“Se eu for focada naquilo que os outros pensam de mim, obviamente que perco logo a motivação. Eu tenho de ir focada no objetivo que eu quero atingir, valorizando os nossos dons e talentos. Temos de aprender a não nos compararmos e a vermo-nos como únicos.”

5. “Quando me imagino a treinar, penso na minha cara toda vermelha e em dor, por isso prefiro fazer outra coisa”

Pensemos nos atletas olímpicos. Segundos antes da prova, quando as câmaras os mostram focados, mais do que a pensar no exercício que vão ter de fazer de seguida, eles estão a visualizar imagens que estão por vir.

A campeã croata de salto em altura Blanka Vlašić tinha um hábito muito especifico: “Ela era muito famosa por seguir a mesma rotina de desempenho antes de uma competição. Ela fechava os olhos, visualizava um salto bem sucedido, batia palmas ritmicamente. Isso aumentava a sua motivação e a confiança”, diz o psicólogo desportivo Martin Hagger, da Universidade de Curtin.

Faça o mesmo: de equipamento vestido, antes de começar a treinar, feche os olhos e pense. Suponha que vai correr: por que obstáculos é que vai passar? Imagine-se a circular em torno deles. Que esquinas terá de dobrar? Que ruas é que vai percorrer? Onde é que a corrida vai acabar. Mais do que se focar no esforço, foque-se nas etapas.

Júlia Machado chama também a atenção para a importância de um treino ajustado. Ou seja, se doeu muito da última vez, ajuste o treino aos seus limites. “Tem de ser step by step, ajustado às características de cada um.”