João Fraústa, 32 anos, ficou conhecido no programa “Você na TV” em julho de 2018. O homem, de Linda-A-Velha, Oeiras, foi convidado do programa para desmistificar a ideia de que a profissão de babysitter é só para mulheres. João conta no programa de televisão que trabalhava desde os 20 anos como cuidador de crianças.

Mas apenas dois meses depois de ter sido entrevistado pela apresentadora Cristina Ferreira, foi detido pela Polícia Judiciária de Lisboa, de acordo com o jornal “Correio da Manhã“.

A detenção, em setembro de 2017, ocorreu após as primeiras denúncias chegarem à secção de crimes sexuais da Polícia Judiciária. Depois de ouvir as vítimas e as testemunhas e de reunidas as provas, os inspetores avançaram então com a detenção de João Fraústa.

Só em julho deste ano é que o homem foi julgado e condenado a 6 anos e meio de prisão, estando já a cumprir a pena no Estabelecimento Prisional da Carregueira. A condenação inclui ainda a proibição de qualquer contacto com crianças a nível profissional durante os próximos 15 anos, refere o jornal “Público“.

O babysitter, acusado de abusar sexualmente de crianças entre os 3 e os 5 anos, chegou a dizer a Cristina Ferreira: “As crianças são muito mais fáceis de criar empatia connosco do que os pais”. 

A formação profissional do babysitter condenado

Começou por se formar na área através de um curso de auxiliar de ação educativa e passou de seguida por creches, escolas básicas, centros educativos e um centro paroquial. Só depois, em part-time, ao fim do dia ou aos fins de semana, é que começou a ajudar a “cuidar dos filhos dos outros”, como refere no “Você na TV”, cobrando 6€ por cada hora de serviço (mais 1€ a partir das 21 horas). O babysitter trabalhava por conta própria, mas também estava inscrito em duas agências de amas e babysitters.

“Cheguei a receber muitos ‘não’. Não percebo porquê. Há pai e há mãe e os dois têm jeito para a coisa”, revela João Fraústa e continua referindo: “Não sei do que [os pais] têm medo”.

O babysitter explica no programa que auxiliava as crianças na alimentação, na higiene, nos trabalhos de casa e brincava com elas. Até ser preso, divulgava os seus serviços na internet.

Na descrição de um dos anúncios do Facebook, em agosto de 2018, pode ler-se: “Babysitter disponível com totalidade horária no mês de agosto! Durante o resto do ano, durante a semana, a partir das 19h, até ao fim da noite. Posso pernoitar. Disponível de manhã até às 9h (arranjar as crianças para a escola etc). Fins de semana e feriados totalmente disponível. Zona de Oeiras, Sintra, Cascais, Lisboa e arredores. Preços acessíveis e negociáveis”.

As vítimas reveladas na acusação

João Fraústa deslocava-se às residências, mas também a um hotel de luxo. O jornal “Público” adianta que os serviços no Hotel da Penha Longa, em Sintra, resultaram do contrato com uma empresa de trabalho temporário, a Talenter. Uma vez que o resort não tinha serviço de babysitting, os serviços de João Fraústa eram a solução que muitos pais procuravam para deixar os seus filhos durante a estadia no hotel.

Foi o que aconteceu quando, em 2017, João Fraústa foi contactado por um casal que estava no Hotel da Penha Longa para tomar conta de duas crianças, do sexo masculino, com cerca de 3 e 4 anos, revela a revista “Sábado“.

Ellen DeGeneres fala sobre o abuso sexual de que foi vítima por parte do padrasto

De acordo com a acusação, o arguido deitou os menores e, de seguida, despiu-os da cintura para baixo, abusando dos mesmos. O babysitter só parou os abusos sexuais “quando se apercebeu que as crianças estavam a acordar”.

O jornal “Público” contactou a Talenter para perceber como funciona o recrutamento dos colaboradores. A empresa declarou apenas que a contratação é feita “no exímio e escrupuloso cumprimento com as obrigações legais”. Quanto aos serviços prestados disse que estes “são de rigor e referência, assentes nas boas práticas das atividades e em conformidade com a lei”.

Segundo dados da Polícia Judiciária, o pedófilo tomou conta de várias crianças hospedadas no resort — algumas com poucos meses de vida — pelo menos 15 vezes entre 2017 e 2018. O próprio confessou às autoridades que tinha dificuldades em controlar-se perante crianças do sexo masculino e que fez “carícias a uma ou duas crianças”.

Mas outro caso foi ainda relatado: em setembro de 2018, o João Fraústa foi contratado por um casal, para quem já tinha prestado serviços, para cuidar de uma criança com 6 anos entre as 19h e a 1h. Os pais pediram-lhe que “vigiasse e cuidasse do menor, que lhe desse banho e jantar e que o deitasse”, diz a acusação de acordo com a mesma revista.

E os atos voltaram a acontecer. Depois de dar banho à criança, o predador começou a praticar sexo oral à criança — com esta ainda despida. A acusação revela que o menino pediu ao abusador que parasse, mas o homem continuou, tendo até virado a criança para molestar outras partes do corpo. O abuso terminou depois de o rapaz implorar várias vezes que o babysitter parasse.

Porque é que os alvos eram crianças entre os 3 e os 5 anos?

Numa confissão à Polícia Judiciária, João Fraústa admitiu que abusava de crianças que ainda mal falassem, aproveitando as ocasiões em que dormiam: “Assim que notava que estavam a acordar parava e ia para longe para ver se eles não se apercebiam do que se tinha passado”, admitiu o abusador e justificou dizendo que “as crianças mais novas têm menos capacidade de comunicar aos pais”.

Na conta de Instagram do homem condenado pelos abusos sexuais a menores, podem ler-se vários comentários de ódio na última fotografia publicada: “Que nojo”, “só espero que morras” e “espero que nunca mais nos apareças à frente monte de merda. São crianças”. Numa outra fotografia mais antiga, onde aparece uma criança, outra utilizadora escreve: “Essa menina deve ter sido uma das vítimas, coitada”.

O jornal “Público” refere que o pedófilo não pediu acompanhamento psicológico na cadeia por vergonha de ter de partilhar a sua intimidade.