Ela é uma mulher que vive nos subúrbios de Londres e que parte à descoberta de uma experiência pessoal e intensa. Chama-se Fleabag, interpretada pela incrível Phoebe Waller-Bridge, e é só uma das protagonistas mais interessantes da televisão ao representar cada um de nós na procura de resposta a perguntas tão difíceis como “quem somos?” e “para onde caminhamos?”.

Embora os entusiastas e fãs de televisão já viessem a alertar para a qualidade de “Fleabag”, o sucesso e o reconhecimento tem vindo a ser ganhos aos poucos. Em parte, a explicação está no facto de pertencer a uma plataforma de streaming menos conhecida ou, pelo menos, com menos impacto do que a concorrência.

É que “Fleabag” faz parte do catálogo da Amazon Prime que, no auge das negociações, conseguiu ultrapassar a proposta da Netflix que também estava de olho na série. Seja como for, a 71.ª gala de entrega dos Emmys que decorreu esta segunda-feira, 23 de setembro, tornou-a numa das séries mais faladas de sempre.

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Além de ter ganho o prémio de Melhor Comédia, passando por cima de produções como “Barry”, “Veep” e “Russian Doll”, a produção valeu ainda a estatueta de Melhor Atriz Principal e Melhor Argumento a Phoebe Waller-Bridge — que representa, escreve e realiza sem nunca desapontar em nenhuma das áreas.

Mas o que é que a série tem assim de tão especial? Muitas coisas.

1. A série acerta no dilema das relações do século XXI

Como qualquer série de comédia que se preze (embora em “Fleabag” existam vários elementos dramáticos), é importante que esteja atenta aos aspetos mundanos da vida de cada um — como o dilema das relações e do arrependimento que existe quando nos enrolamos com alguém de quem não gostamos assim tanto.

Na busca de identidade de Fleabag, a protagonista passa por vários encontros amorosos, quase todos eles complexos, e com desfechos trágicos. E tragédia é a palavra chave numa série que, bem ao estilo britânico, é negra, subversiva e irreverente. Com uma protagonista que tem o descaramento de saber que está a ser observada pelos espectadores.

2. A protagonista interage com o espectador e provoca-o

Os millennials vão reconhecer esta técnica de “House of Cards”, mas a verdade é que a quebra da personagem existe desde as peças de teatro da antiguidade. Falamos daquele momento em que uma personagem ignora todas as regras do meio em que se contra e se dirige diretamente ao público.

Os objetivos são vários: desde procurar validação para as suas ações ou parar dar algum contexto do porquê de estar a vestir-se à pressa enquanto alguém lhe soube as escadas do prédio à velocidade da luz.

Tal como em “House of Cards”, em “Fleabag” a técnica permite dar acesso à interioridade da personagem e perceber o que realmente pensa fora do contexto em que a vemos atuar.

É por isso que, ao longo das duas temporadas, a protagonista fala recorrentemente para a câmara naquele exercício perverso de reconhecer que a estamos a observar. Mas é também por isso que Phoebe Waller-Bridge é a alma da série.

3. Olivia Colman é a vilã detestável que não sabia que precisava de ver

Antes de assumir o papel de Rainha Isabel em “The Crown”, Olivia Colman deu vida à vilã de “Fleabag”. E a primeira vez que a atriz aparece em cena não parece ser tão má como revela ser mais tarde.

Mas à medida que a história vai avançando, as ações de Colman vão ficando cada vez mais agressivas, sujas e detestáveis que não temos remédio senão torcer por Fleabag, com todas as suas transgressões e comportamentos reprováveis.

Tal como grande parte do elenco, a personagem de Olivia Colman não tem nome e é apenas conhecida como a madrasta maldita da série. E segundo um dos produtores da série, terá sido a atriz a pedir a Phoebe Waller-Bridge que lhe desse a oportunidade de “representar uma valente cabra”. A criadora da série não pensou duas vezes e deu-lhe o papel.

4. “Fleabag” é perfeita para maratonas de binge

Aponte isto só para ter noção do que andou a perder e que podia facilmente ter visto numa semana: “Fleabag” tem duas temporadas de seis episódio cada e que nunca ultrapassam os 30 minutos de duração. Isto significa que toda a série lhe ocupa cerca de 5 horas de vida e, portanto, pode ser facilmente vista na totalidade sem grande esforço.

A série aposta também em histórias contidas nas suas temporadas. E embora a segunda vá ao encontro do que aconteceu na primeira, há também a criação de uma nova narrativa e novos dilemas que não requerem que veja tudo por ordem (embora corra o risco de não perceber certas dinâmicas entre as personagens principais).

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5. Fleabag é, tal como nós, cheia de incongruências e falhas

Há uma tese que tenta explicar por que motivo a série “Twin Peaks” não se tornou tão memorável como “Os Sopranos”, “Breaking Bad” ou “Mad Men”. A explicação pode estar na falta de um sacana sem escrúpulos que conduzisse a história, como aconteceu nas três produções que marcaram a era dourada da televisão.

O forte de “Fleabag” pode estar na introdução de uma mulher que, embora não seja uma vilã, é repleta de incongruências, de falhas. Transgride leis, mente, faz pouco dos namorados que se dizem fartos de serem usados por ela.

No fundo, Fleabag tem um bocadinho de todos nós e talvez por isso seja tão familiar reconhecer-lhe o esforço que sente em encaixar numa sociedade cada vez mais politicamente correta e irritadiça.

6. É hilariante (e às vezes demasiado)

Ver “Fleabag” é não saber exatamente onde é que a história (ou uma piada) nos vai levar. Mas o facto de ser uma comédia britânico remete imediatamente para um contexto onde parece não haver regras. E na série vale tudo, desde falar de sexo sem filtro, criticar o politicamente correto do século XXI ou até fazer humor depreciativo — o que impede que a protagonista seja, por si só, um bully.

É o facto de a personagem não gostar de si mesma que lhe permite ter uma visão mais negra e derrotista (ainda que injusta) do mundo e das pessoas que a rodeiam. Tudo isto com o humor britânico que têm tanto de subversivo como de chocante e hilariante.

Em Portugal, as duas temporadas de “Fleabag” estão disponíveis no catálog da Amazon Prime Video.