O espetáculo arrancou sem surpresas. A mais recente gala dos Emmys, que aconteceu esta segunda-feira, 23 de setembro, começou sem um apresentador que assumisse o controlo da cerimónia ou desse voz a algumas das piadas mais controversas em cima do palco.

E embora as quatro horas de evento tenham sido suficientes para mostrar todos os vencedores nas categorias nomeadas, a gala decorreu sem grandes momentos memoráveis e pouca polémica. 

Em Portugal, a transmissão estava assegurada pela SIC Caras que, apesar dos intervalos constantes e dos mesmos anúncios publicitários, acompanhou a emissão da Fox sem grandes problemas. Exceto quando, durante o anúncio de um dos vencedores numa das categorias principais, perdeu a ligação — obrigando-nos a recorrer à imprensa internacional.

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Não há dúvidas de que os Emmys são uma das galas mais importantes da indústria da televisão e o frenetismo que causam levam a erros e pequenos deslizes durante os diretos. Foi precisamente isto que aconteceu quando, durante o tempo em que a SIC Caras se manteve indisponível, decidimos observar a cobertura feia pela “Entertainment Tonight”.

Só que a meio da transmissão do canal americano houve uma qualquer falha com o guião do apresentador e seguiram-se uns minutos de silêncio longos e constrangedores. E toda a gente sabe o quão desconfortável é o silêncio. Especialmente se for durante um especial de televisão. E em direto.

Mas de volta ao arranque dos Emmys, que começaram com alguma força, para a perder ao longo da cerimónia. Sem apresentador, Anthony Anderson surgiu em frente a uma câmara com a missão de “salvar os Emmys”. Correu pelo palco, atravessou os bastidores e decidiu que a melhor forma de o fazer seria pedindo à mãe que o ajudasse a roubar as estatuetas expostas, e que ainda não tinham dono.

Foi neste preciso momento que encontrou Bryan Cranston, a estrela de “Breaking Bad”, que lhe falou (embora na verdade estivesse a falar para todos nós) da importância daqueles prémios e da televisão.

“A televisão nunca foi tão grande, nunca importou tanto e nunca foi tão incrivelmente boa como agora”, disse de olhos postos na plateia. Os pelos dos braços arrepiaram-se, num misto de emoção e saudade de uma das figuras mais importantes do meio, e começava assim a 71.ª cerimónia de entrega dos Emmys.

Depois de exibido um clipe de vídeo com imagens de algumas da séries nomeadas, como “A Guerra dos Tronos”, “Killing Eve” e “Veep”, começaram a ser entregues os primeiros prémios. E o primeiro e único momento mais arriscado (não chega para dizermos polémico, lamentamos), aconteceu quando RuPaul levou para casa o prémio de Melhor Programa de Reality TV.

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Thomas Lennon, o comentador de serviço dos Emmys, lançou farpas a uma das estrelas da indústria sem nunca a mencionar pelo nome. Após a vitória de RuPaul, Lennon revelou que os produtores da cerimónia lhe tinham pedido para mandar cumprimentos a uma atriz, vencedora de um Emmy, que pudesse estar a ver o programa desde a prisão.

Na verdade, não passava de uma brincadeira com a situação atual de Felicity Huffman que, no início de setembro, foi condenada a duas semanas de prisão pelo seu papel no escândalo das admissões à faculdade — o esquema que permitiu que jovens pudessem entrar nas faculdades de elite dos EUA.

Segundo as várias investigações, a atriz terá pago cerca de 12 mil euros para que um conselheiro de faculdade corrigisse as respostas erradas nos exames da sua filha mais velha.

Thomas Lennon não deixou passar ir em branco e mostrou-se solidário, ainda que ironicamente, com Felicity. “Esperemos que essas duas semanas passem depressa. Mantém o nariz levantado”, foi a reação do comentador enquanto mantinha um sorriso maldoso nos lábios. No mínimo, constrangedor.

Outro dos momentos mais constrangedores da gala aconteceu quando Kim Kardashian e Kendall Jenner subiram ao palco para apresentar os vencedores em Melhor Programa de Variedades.

O que é que as Kardahian têm que ver com os Emmys? É a pergunta que fica na cabeça depois de ver a cerimónia mas que, para as socialites americanas, faz todo o sentido — a julgar pela descrição que fizeram do seu programa durante o evento.

“A nossa família sabe, em primeira mão, como a boa televisão é feita por pessoas reais que só querem ser elas mesmas e dar a contar as suas histórias sem filtro e sem argumento”, referindo-se ao programa “Keeping Up With the Kardashians”.

Pergunta para um milhão de euros: não houve nenhuma alminha que pudesse ter lido aquilo que as Kardashian iam dizer antes de elas, efetivamente, o dizerem? Parece que não e o público não perdoou.

Ouviram-se risos e gargalhadas da plateia e tanto Kim com Kendall mostraram-se visivelmente irritadas com a troça de que estavam a ser alvos. Será que era uma piada bem orquestrada por todo os envolvidos? Os fãs da influenciadoras dizem que sim, mas as imagens mostram precisamente o contrário e ninguém está verdadeiramente convencido.

Mas era junto à plateia, onde as celebridades de televisão e Hollywood estavam sentadas, que se fazia a festa. A série da noite era “A Guerra dos Tronos” e foram vários os vídeos a ser partilhados nas redes sociais que davam conta do reencontro do elenco.

Neste vídeo, filmado por um jornalista do “The Hollywood Reporter”, Kit Harrington abraça Sophie Turner. Os atores mantém uma relação próxima mesmo depois de a série ter chegado ao fim.

Pouco tempo depois, todo o elenco da série subiria ao palco para uma homenagem em conjunto, nos quais estiveram presentes os atores Alfie Allen e Gwendoline Christie — que se autonomearam para o Emmy depois de não terem sido proposto pela HBO.

Não demorou muito até que as críticas começassem a surgir nas redes sociais. “Alguma vez uma série teve um tratamento semelhante ao que ‘A Guerra dos Tronos’ está a ter?”, foi a pergunta deixada por uma utilizadora que se queixava do favoritismo que a gala estava a demonstrar.

No entanto, cerca de meia hora depois voltou a acontecer o mesmo — mas com o elenco de “Veep”. E tudo ficou bem. A ideia, afinal, passava por dar destaque a algumas das grandes séries nomeadas que tinham terminado este ano.

Os discursos, que são sempre os elementos mais fortes do processo de aceitação de um prémio, não desiludiram. Depois de vencer o Emmy de Melhor Atriz Secundária em Série de Comédia pelo seu papel em “The Marvelous Mrs. Maisel”, Alex Borstein contou a história de como a avó sobreviveu ao Holocausto.

“A minha avó estava na fila para ser alvejada quando perguntou: ‘O que acontece se sair da fila?’. O guarda respondeu: ‘Não vou ter coragem de disparar sobre ti, mas alguém vai ter’. Ela saiu da fila naquele momento e, por isso, estou aqui com os meus filhos. Por isso, senhoras, saíam da fila”, gritou apelando à ação e a contrariar a inércia.

Também Michelle Williams teve um discurso forte e memorável quando aceitou o prémio de Melhor Atriz em Minissérie pelo papel em “Fosse/Verdon“.

“Vejo isto como o reconhecimento daquilo que é possível quando confiam que uma mulher seja capaz de fazer as suas escolhas e ter voz. Quando pedi mais aulas de dança e de canto [para o papel], disseram-me que sim. Quando pedi uma peruca diferente ou uns dentes falsos, disseram-me sempre que sim. E todas essas coisas precisam de esforço que, por sua vez, custa dinheiro. Mas os meus patrões nunca presumiram saber mais do que aquilo que eu precisava para fazer o meu trabalho”, defendeu de olhos postos na câmara.

Peter Dinklage, que ganhou o prémio de Melhor Ator Secundário em Série de Drama por “A Guerra dos Tronos”, obrigou a Fox a censurar parte do seu discurso quando aceitou a estatueta. “Foram 10 anos de muito esforço e suor, mas que juntou pessoas incrivelmente talentosas [na versão em inglês o ator o usou o termo ‘the most talented, motherfucking people’].”

Antes de a gala terminar, houve ainda tempo para recordar todos os produtores, atores, realizadores ou pessoas influentes ligadas à cultura pop que morreram. O momento foi acompanhado de vídeo e música, onde se homenageram celebridades como Stan Lee e Peter Fonda.

Os humoristas Stephen Colbert e Jimmy Kimmel subiram ao palco e disseram que aquela edição dos Emmy “estava a ser uma merda”, em parte porque não podiam fazer aquilo que eram pagos para fazer: apresentar uma cerimónia.

De facto, e embora as quatro horas não tenham custado a passar, a falta de apresentadores talvez potencie poucos momentos memoráveis e interessantes a não ser os prémios que, convenhamos, estavam quase todos fechados assim que foram anunciados.

Além de “A Guerra dos Tronos”, a comédia da Amazon, “Fleabag”, foi a grande vencedora da noite ao vencer três dos prémios a que estava nomeada. Mostramos-lhe a lista dos vencedores nas categorias principais dos Emmys.

Melhor Série de Drama

  • “A Guerra dos Tronos”

Melhor Minissérie

  • “Chernobyl”

Melhor Ator Principal em Série de Drama

  • Billy Porter (“Pose”)

Melhor Atriz Principal em Série de Drama

  • Jodie Comer (“Killing Eve”)

Melhor Atriz Secundária em Série de Drama

  • Julia Garner (“Ozark”)

Melhor Ator Secundário em Série de Drama

  • Peter Dinklage (“A Guerra dos Tronos”)

Melhor Série de Comédia

  • “Fleabag”

Melhor Argumento de Comédia

  • Phoebe Waller-Bridge (“Fleabag”)

Melhor Ator Principal em Série de Comédia

  • Bill Hader (“Barry”)

Melhor Atriz Principal em Série de Comédia

  • Phoebe Waller-Bridge (“Fleabag”)

Melhor Atriz Secundária em Série de Comédia

  • Alex Borstein (“The Marvelous Mrs. Maisel”)

Melhor Ator Secundário em Série de Comédia

  • Tony Shalhoub (“The Marvelous Mrs. Maisel”)

Melhor Ator em Minissérie ou Filme

  • Jharell Jerome (“When They See Us”)

Melhor Ator Secundário em Minissérie ou Filme

  • Ben Whishaw (“A Very English Scandal”)

Melhor Atriz em Minissérie ou Filme

  • Michelle Williams (“Fosse/Verdon”)

Melhor Atriz Secundária em Minissérie ou Filme

  • Patricia Arquette (“The Act”)