Os primeiros 15 minutos de “Unbelievable” deviam ser obrigatórios para toda a gente. Na nova minissérie da Netflix, inspirada numa história verídica, vemos a polícia a chegar a casa Marie Adler. Sentada no chão, enrolada num cobertor e com uma chávena de chá nas mãos, a jovem adolescente está um caco.

Marie foi vítima de uma agressão sexual.

Chega um agente, diz que está ali para ajudar. Tira um bloco de notas do bolso e pergunta o que é que aconteceu. “Fui violada”, responde Marie. Foi, mas ninguém vai acreditar nela. Mas já lá vamos.

Marie conta o que se passou naquela noite. Com todos os pormenores, dos mais básicos aos mais sórdidos. E volta a fazê-lo a outras pessoas — depois do agente vem o detetive, mais tarde uma enfermeira que quer ouvir a história “para os registos”. Uma, outra e outra vez, Maria revive um dos momentos mais traumáticos da sua vida vezes sem conta na noite em que tudo aconteceu.

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Seguem-se os exames, a tortura de estar deitada numa maca de pernas abertas, enquanto um estranho lhe insere instrumentos médicos na vagina. Sai do hospital com um saco de medicamentos, uma longa lista de efeitos secundários que podem surgir da toma da medicação e segue novamente para a esquadra. Vai ter de contar a sua história mais uma vez, para no final ainda lhe dizerem que tem de escrever um texto na primeira pessoa a relatar o que aconteceu.

E Marie está apenas no início. Sem querer estragar a minissérie a ninguém, vão seguir-se mais interrogatórios, perguntas difíceis, dúvidas sobre a veracidade do que aconteceu e muitas ofensas de quem não acredita que este crime não é apenas imaginação de uma jovem perturbada.

Em maio deste ano, Sara (nome fictício) escreveu um texto na primeira pessoa para a MAGG sobre uma noite que fez tudo para esquecer. Aos 19 anos, acordou um dia com as cuecas ao contrário e as leggings rasgadas no meio das pernas. Não se lembrava de nada do que tinha acontecido, e durante dez anos optou por manter-se assim.

Quando finalmente decidiu contar a sua história, nas redes sociais, recebeu comentários como “O mundo também não é justo para os homens” ou “Enfim…. já diz o ditado: quem anda a chuva molha-se”.

Não foram comentários deixados por homens — estes dois em particular eram de mulheres —, por isso não façamos disto uma guerra de sexos. Homens ou mulheres, quase ninguém quer saber das mulheres violadas. O sistema não está preparado para lidar com estes casos com a devida sensibilidade, e a sociedade é degradante ao ponto de colocar a culpa nelas. Nelas.

Nelas. Estas mulheres nunca mais voltarão a ser as mesmas. Nunca mais vão ficar sozinhas à noite da mesma maneira, nunca mais vão confiar no sexo oposto da mesma forma. Vão ter dificuldade em envolver-se sexualmente novamente ou, pelo contrário, vão adotar uma série de comportamentos de riscos só para sentirem que estão em controlo do seu corpo. Vão sofrer, até ao resto dos seus dias, com o abuso sexual que sofreram. Nunca serão capazes de o esquecer, por mais que lutem por isso.

E nós? Nós dizemos-lhe que a culpa é delas.

Não é. Uma violação é um crime hediondo, que deixará marcas para o resto da vida. Mas a culpa não foi, não é, e nunca será vossa.

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Os primeiros 15 minutos de “Unbelievable” deviam ser obrigatórios para toda a gente, repito. No entanto, a dureza do momento pode desincentivar muitas mulheres a apresentarem queixa. A preferirem aceitar logo à partida que a culpa é mesmo delas, e que portanto mais vale lidarem com isso e seguirem em frente. Não sou ninguém para julgar uma mulher que decide não apresentar queixa, mas acho que cabe a todos nós dizermos-lhes que esse não é o caminho.

Da mesma forma que um homicida é preso, julgado e condenado, da mesma forma que um ladrão, um pedófilo ou qualquer outro indivíduo que comete um crime, tem de pagar por aquilo que fez judicialmente, os violadores também. O silêncio nunca será a solução para o problema, porque desta forma eles continuaram cá fora.

Mas nós, sociedade, temos o dever de tornar este processo mais simples. E começa por parar de dizer disparates. Existem mulheres que mentem, que dizem que foram violadas e não foram? Sem dúvida. Da mesma forma que existem pessoas que simulam roubos ou até a sua própria morte. Devem ser condenadas? Sem dúvida também. Mas não nos podemos esquecer desta frase: “Inocente até prova do contrário”.

Começa por pararmos de dizer disparates, como disse, mas continua na forma como pressionaremos a seguir o sistema para mudar as regras. Não podemos ter violadores com pena suspensa. Não podemos obrigar uma vítima a contar a sua história 30 vezes na mesma noite. Não podemos tratá-la com um desrespeito que agudize ainda mais o trauma. Não podemos, simplesmente não podemos.

Sobre “Unbelievable”, vale a pena ler o artigo que o Fábio Martins escreveu esta semana, sobre o que é verdade e o que é mentira nesta história. Depois de ver a minissérie e de ler este texto, vai ficar chocado.

Mas vale a pena também ler o texto que Ana Luísa Bernardino nos traz esta semana, sobre um jovem de 19 anos que violou seis raparigas. Junto de uma psicóloga de jovens e adolescentes, tentamos traçar um perfil do agressor sexual juvenil — porque sim, também há jovens a violar outros jovens, ou até mesmo crianças.

Ironicamente, mas não menos triste, no caso desde miúdo de 19 anos foi o próprio a entregar-se à polícia. Se isto não diz muito sobre o caminho que temos a percorrer daqui para a frente, não sei o que dirá.

Também esta semana, sentámo-nos à conversa com a monja Coen. Fez os votos monásticos em 1983, viveu oito anos num mosteiro do Japão e hoje é seguida por uma legião. Nesta conversa, diz-nos que é urgente que nos reencontremos connosco e com o que nos transcende. A ler.

Saltando para temas mais leves, neste momento temos duas grávidas de 7 meses na redação. As hormonas até têm estado mais ou menos controlados, mas as dores nas costas, o desconforto constante e as idas à casa de banho de cinco em cinco minutos, não têm sido nada fáceis.

O que não tem sido fácil também é o chamado “cérebro de grávida“. Fabíola Carlettis está a passar por isto na primeira pessoa, e conta-nos a sua experiência e a de outras mulheres. Mariana nunca sabia onde tinha deixado o carro, Guga ligou para a avó para vir conhecer a piscina que não tinha. Uma obstetra explica o que é afinal isto do “pregnancy brain”.

Até para a semana.