Durante anos, Marie foi o rosto de uma mentira e de um crime que não cometeu. Estávamos em 2008 quando, na altura com 18 anos, a adolescente foi violada durante horas por um homem que lhe entrou em casa e a amordaçou. A jovem denunciou o caso às autoridades e foi sujeita a várias sessões de interrogatório — durante as quais adicionou e subtraiu detalhes importantes sobre o que tinha acontecido.

Embora fosse vítima de violência sexual, a versão de Marie foi contestada pela polícia que chegou mesmo a acusá-la de fabricar acusações e inventar um caso que, devido à incoerência dos detalhes, nunca poderia ter acontecido. Mas aconteceu. Uma série de violações em vários estados dos Estados Unidos comprovou isso mesmo: havia um predador sexual à solta com um modus operandi muito específico.

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Além de não deixar quaisquer vestígios de ADN no local do crime, o violador tirava sempre fotografias às vítimas que agredia antes de as obrigar a tomar banho.

Mas demorou muito até que essas violações fossem associadas à de Marie. Principalmente porque a jovem recuou nas acusações e admitiu que aquilo que tinha dito à polícia era mentira. Não era.

Depois de ter originado uma reportagem, vencedora de um prémio Pulitzer em 2015, a história é agora recuperada numa nova minissérie da Netflix chamada “Unbelievable” — que a crítica diz ser importante por nunca perder o foco do que é realmente importante: as vítimas e o processo doloroso por que passam quando decidem denunciar.

E embora seja um produto de entretenimento, o que envolve sempre alguma liberdade criativa, quase tudo o que se vê no decorrer de “Unbelievable” é real. A única exceção é talvez o nome de Marie que, na série, ganhou o apelido Adler. Fora da ficção, a identidade da jovem, que agora tem 29 anos, foi preservada por todos aqueles que conheceram a sua história em primeira mão.

Ken Armstrong, um dos jornalistas que assinou a reportagem, escreveu no Twitter que os detalhes expostos na série são muito fiéis ao que realmente aconteceu.

“No primeiro episódio da série, depois de denunciar a violação, Marie vai até ao hospital para uma série de exames. Nessa cena, ficamos a saber quantas amostras de ADN foram retiradas do corpo dela e de que partes. Ficamos também a saber aquilo que ela ouve no hospital, que muito possivelmente pode espoletar nela pensamentos suicidas. Todos estes detalhes são verdadeiros”, esclarece.

O facto de o jornalista ter lido os relatórios médicos e de ter tido acesso ao caso de Marie dá-lhe confiança para reforçar isso mesmo.

“Eu sei porque li os verdadeiros relatórios médicos. A cena é fria e poderosa. Susannah Grant [a realizadora] quis captar a forma como uma investigação pode ser também um componente do trauma. Para isso, deixou que os factos falassem por si.”

E até mesmo as personagens se mantiveram fiéis às figuras reais a que correspondiam. O agente da polícia que acusou a Marie de mentir, por exemplo, é retratado na série com um agente sério e não um vilão — precisamente porque a figura real em que é baseada também não o é.

“O Eric Lange foi escolhido para interpretar o detetive no caso de Marie. Ele podia ter transformado a personagem num vilão, mas não o fez. Porque o homem real nunca o foi. É um polícia que se sentou comigo e assumiu os seus erros, com a consciência plena de que eram horríveis”, conta.

Será que eu também me pus a jeito?

Segundo o jornalista, que manteve o contacto direto com Marie mesmo depois de a reportagem ter sido publicada, esta chegou mesmo a ver a série. Embora difícil, terá dito a Ken Armstrong que achou “Unbelievable” uma produção “excelente” e que lhe permitiu fechar este ciclo da sua vida.

A produção da Netflix destaca ainda a relação que a adolescente tem com as duas mães adotivas, as principais responsáveis por fazer chegar as suas dúvidas acerca da violação ao detetive. Segundo a publicação feita pelo jornalista, e tal como é mostrado na série, a verdadeira Marie não guardou rancor e manteve o contacto com ambas.

“Depois de ver todos os episódios, Marie ligou-lhes e assegurou que a série não as tentava demonizar. E até as encorajou a ver. Ao ver o último episódio da série, e a condenação do suspeito, deu-lhe a conclusão que precisava para seguir em frente”, revela.