A terça-feira (17 de setembro) estava a ser de loucos e ainda não tínhamos parado um segundo. Eram 14h30 e estávamos à porta da Bertrand do Chiado a aguardar a Monja Coen, que passava por Lisboa a propósito do livro, editado pela Editorial Planeta, que acaba de chegar a Portugal: “A Sabedoria da Transformação“. Assim que nos vemos, trocamos sorrisos e desta parte dá-se uma tentativa irrefletida de cumprimentar a líder espiritual com um beijinho na cara.

“São hábitos culturais japoneses. Não sei dá beijos em monges”, respondeu-nos calmamente, enquanto nos sentávamos numa mesa da livraria. “É bom você saber. Da próxima vez que encontrar monges na vida, você já sabe”, acrescenta. Já celebrou os votos monásticos em 1983, mas lembra-se da imprevisibilidade do jornalismo. A Monja Coen não se esquece dos tempos em que era Cláudia Dias Baptista de Souza, uma repórter, de São Paulo. Este ofício deu-lhe mundo, fê-la questionar e levou-a ao Budismo Zen, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Daqui, seguiu para Nagoia, no Japão, onde viveu durante oito anos. De regresso ao Brasil, difunde o que sabe e torna-se numa líder espiritual. Guia palestras assistidas por milhares e colabora com um canal de YouTube, o MOVA, seguido por milhões. Foi a primeira mulher e a primeira monja de descendência não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil.

Mas Monja Coen também ri, dá gargalhadas, faz piadas, diz que é impaciente e enerva-se como qualquer pessoa. Garante-nos que os monges não estão sempre zen e a meditar. Sabe falar, com uma calma, descontração e lógica que nos prendem a um olhar que não corresponde aos 72 anos de vide que acumula.

Ocupa a vida com a partilha de todo conhecimento que juntou, num apelo à auto-conhecimento, à entre-ajuda, à noção de que somos todos parte do mesmo. Nesta conversa, diz-nos que é urgente que nos reencontremos connosco e com o que nos transcende.

Antes de ser monge, foi jornalista. Como era a sua vida nesta altura?
Era uma vida muito agitada. Eu era repórter da geral, portanto entrevistava pessoas de todas as classes sociais. Nunca sabia o que é que ia acontecer. Chegava para ler a pauta e fazia aquilo que estava acontecendo no dia. Era muito estimulante, muito agradável e, ao mesmo tempo, muito enriquecedor. Era um trabalho que abria a consciência. Saia da minha casa, da minha família, dos meus valores, para encontrar pessoas com outros valores, outras famílias ou sem famílias. Foi muito rico.

Fiz algumas matérias de repórter especial, as mais longas. Uma vez fui para o nordeste, porque um jovem de 18 anos tinha morto o mandante do homens que mataram o pai dele. Ele nasceu no dia em que o pai dele morreu. E a família o educou dizendo: “Quando você tiver 18 anos, você vai matar esse homem”

Durou quanto tempo?
Três anos, dos 18,19 até aos 22. Foi muito interessante porque me abriu a consciência. O que é o mundo? O que são as pessoas? Entrevistei desde a senhora mais pobrezinha, de uma favela, até o príncipe do Nepal, a rainha Elizabeth [Rainha Isabel II, de Inglaterra]. Fazia de tudo, desde política a crime ou moda. Fiz algumas matérias de repórter especial, as mais longas. Uma vez fui para o nordeste, porque um jovem de 18 anos tinha morto o mandante dos homens que mataram o pai dele. Ele nasceu no dia em que o pai dele morreu. E a família o educou dizendo: “Quando você tiver 18 anos, você vai matar esse homem”. O irmão dele se tornou num pistoleiro e matou todos os envolvidos na morte do pai, menos o mandante. Quando esse menino fez 18 anos, foi lá e matou o homem.

Conheceu-o?

Eu fui entrevistá-lo na cadeia. E ele estava todo feliz, porque tinha cumprido com a sua missão. E eu falei com a prefeita da cidade e ela disse que a pena dele não seria muito grave, porque se tratava de uma questão de honra. São valores diferentes. É importante conhecer esses outros olhares. Todo o mundo pensa que as pessoas veem que nem você e não é assim. Não pensam.

É através jornalismo que tem contacto com o mundo da meditação.
É. Fiz uma matéria sobre sociedades alternativas, na Califórnia. Lá tinha o zen budismo, entre outras coisas. Já faziam reciclagem, não usavam agrotóxicos, já tinham outra maneira de olhar a realidade. Na idade que eu tinha, você quer mudar o mundo — pensa que essa sociedade não está boa, porque tem uns com tanto e outros sem nada. Tanta desigualdade. Na altura estávamos [o Brasil] com um governo militar, com muitos colegas de redação indo presos, torturados ou desaparecendo. Aí, você fica-se questionando: não tem outra maneira de ser no mundo?

Nisto, comecei a olhar para essas alternativas. Pouco tempo antes, tinha havido a guerra do Vietname e os monges se queimavam em praça pública para chamar a atenção do mundo para que a guerra cessasse. Tínhamos três revistas principais nessa época no Brasil e a capa das três era o monge sentadinho, em meditação, pegando fogo. Isso foi muito impressionante. Que controlo é esse? Ao mesmo tempo, os Beatles estavam meditando. O jornalismo, esses acontecimentos, vão começando a construir um movimento em mim.

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Lembra-se da primeira vez que meditou sozinha?
Não, mas a gente senta e acha que está meditando. Eu sentava e fazia: “ohmmm” [risos]. Fui começando a meditar sozinha, com lições que me enviavam por correio e a praticar de forma mais sistemática. Tinha exercícios de energizar, para sentir o corpo, de sentar, ficar quieta. Depois, me deram um livro sobre ondas mentais alfa, escrito por uma jornalista. Nesse livro ela entrevistava várias pessoas e uma conclusão da neurociência dizia que quando nós estamos em meditação profunda, nós estamos em alfa, que é a onda mental com que está, por exemplo, um goleiro [guarda-redes] que pega um golo do Ronaldo. Se ele não estiver em alfa, ele não pega.

O Ronaldo para marcar também precisa estar em alfa. É a onda de precisão absoluta, de foco completo. É como a bailarina que quando dança já não pensa nela, na música, nos sapatinhos — tudo se tornou numa coisa só. E eu pensei: “Nossa, que interessante. Será que eu atinjo o alfa?”. Tentei procurar uma clínica psicológica e não encontrei. Mas um dos entrevistados [do livro] era um monge zen. E perguntavam para ele: “O que é que você acha de usar eletrodos para induzir o estado alfa?”. E ele disse: “De que é que adianta entrar pela janela?”. Eu pensei: “Eu quero essa porta”.

Onde é que a encontrou?
Na lista telefónica. Fui procurar e encontrei a Zen Center de Los Angeles. Telefonei e fui lá porque eles tinham meditação para iniciantes. Não voltei mais. Fiquei lá por uns quatro anos, enquanto estava trabalhando no Banco do Brasil. Fui fazendo aos pouquinhos: ficava um dia com eles, dois dias, depois fiz um retiro de um fim de semana, depois de uma semana. Depois dessa semana, falei para eles: “É isso que eu quero para a minha vida. Quero me tornar monge.” E eles: “Imagine, você, vem de uma família católica. Nem sabe o que é budismo”. E eu disse: “Mas eu aprendo. Eu quero e vou aprender.” Nisso, minha mãe questionava: “Filha, porque é que vai para uma religião do outro lado do mundo, você nasceu católica. Se quer ser religiosa, seja freira. E eu falei: “Não, mãe. É isso que faz sentido para mim.” Me ordenaram monge, depois de a minha mãe finalmente aprovar.

As pessoas se esquecem que não existem só os seus pares, os seus grupos, os seus olhares. Há um sítio onde nada disso existe, porque somos um só”

É obrigatório os pais aprovarem?
Tem. Buda pede aprovação da mãe e do pai, vivos ou mortos. Os nossos pais estão dentro de nós. Se você não convence pai e mãe dentro de você, você não está convencida também, você não convence o mundo. No momento em que eu os convenci, o professor também se convenceu e falou que íamos marcar minha ordenação. Fui ordenada em janeiro e em outubro pedi para ir para um mosteiro feminino no Japão.

Foram oito anos num mosteiro, num país e culturas distantes. Como é que era a rotina?
Era muito boa. Foi difícil, mas era bom. Acordávamos às 4 horas da manhã, tínhamos de estar em 20 minutos sentadas na sala de meditação. Tínhamos dez ou 15 minutos para arrumar cama, abrir a porta, lavar o rosto, lavar os dentes, estar inteira e vestida para estar na sala de meditação. Achava que não dá tempo, mas dá. Começávamos a meditação às 4h20, depois disso ia para as liturgias, que era noutra sala e levava uma hora e meia. Depois, íamos fazer fascina — sou uma especialista em fascina. Nós nos revezamos em todas as funções. Tínhamos aulas: aulas de budismo, de arranjo de flores, da cerimónia do chá, aulas de como contar histórias para crianças de uma maneira japonesa, muito específica. E assim foi.

Já sabia falar japonês? Como é que comunicava?
Passado dois anos acabei por aprender um pouquinho de japonês. Mas falo e compreendo mais do que é relacionado com o budismo do que da vida comum.

Mas comunicávamos por gestos. Falávamos por gestos. Não precisava de falar muito — o mosteiro não é um sítio de conversa. E a gente aprende a ler o outro. Se você não lê a palavra, lê o corpo. E outra coisa que é muito do zen é que você não corrige o outro com palavras — você espera que o outro perceba que está fazendo uma coisa que não é adequada. Isso era uma dificuldade. Eram culturas diferentes. Houve dificuldades culturais, sobre a perceção de como vivemos. No início, eu parecia muito rude. Como é que você fala com uma pessoa que não te entende? Você diz: “Pega”, “levanta”, “senta”. Houve uma vez em que eu fui servir chá para um convidado da minha superior e falei: “Beba”. Ela ficou vermelha e disse assim: “A Coen precisa de aprender japonês” e me permitiu ter aulas fora do mosteiro. Até então eu não podia sair, porque estava em clausura.

Quanto tempo tinha passado em clausura?
Dois anos. Depois tive aulas na associação cristã que tinha grupos para estrangeiros. Mas depois tive uma graduação, e fiquei de novo em clausura. A professora foi lá durante uns tempos ainda.

Entrevista a Antônio Fagundes. “Eu sou bem normalzinho, tenho uma vida bem normalzinha”

Houve momentos no mosteiro em que sentiu vontade de desistir?
Eu chorava [risos]. Eu só chorava. E pensava: “Que foi que eu fiz para merecer isso? Que karma é esse?”. Que dificuldade. Mas aí eu subia para a biblioteca, que era o único lugar que tinha cadeiras — de resto, a gente tinha de sentar com as pernas dobradas e apoiadas no chão, que doía horrores —, pegava nos livros de budismo em inglês e ficava traduzindo, porque as aulas eram todas em japonês. Custou, mas foi bom. Às vezes ficava tristinha, sozinha, chorava, mas nunca à frente dos outros. E quando ficava cansada de ouvir uma língua que não conhecia, eu subia para uma sala que não tinha ninguém, mas em cinco minutos as monjas que compartilhavam o quarto comigo estavam lá perguntando se estava tudo bem.

A cultura japonesa é do coletivo e não do individual. Então, você está sempre com o grupo e fazendo o que ele está fazendo. Acho que essa é uma das maiores dificuldades para quem vem de um país onde o indivíduo é considerado mais importante — o importante é o que você pensa, o que quer fazer, o que você acha do mundo. Lá não é assim. Foi interessante. Foi um trabalho muito bom.

Sente-se sempre zen? Nunca se chateia?
Ó, se não chateio. Esta noite tive uma noite não zen, maravilhosa. Eu viajo hoje à noite para o Brasil e ontem quando cheguei ao hotel para fazer o check-in descobri que, quando fiz a reserva, em vez de colocar 17 de setembro, coloquei 17 de outubro. Passei a noite inteira telefonando para a TAP, para o banco. Isso começou às 9 horas da noite e foi até às 5 e meia da manhã. Foi uma maravilha: de repente me vi deitada na cama, sem conseguir dormir, esperando. Então falei “vamos respirar” que é o que eu ensino para todo o mundo. Respirei e pensei que ia dar tudo certo. Mas será que ia dar? Claro que ia dar, mas só dá se a gente fizer para ficar bem. Passei uma noite muito sofrida. Portanto, não podemos dizer: “Ela é zen” e ela não está sempre “ah, vai ficar tudo bem, vamos meditar”. Não é assim. Eu não sou assim. Pode ser que um dia me torne. Há uma frase do Papa Francisco que diz: “A procura é o encontro. E o encontro é a procura.” E temos um sutra, que é um ensinamento de Buda, em que ele termina dizendo: “Estou indo, estou indo, cheguei, já fui e continuo indo.” A prática e o autoconhecimento não têm fim.

Está errada então a ideia popular de que um monge é sempre sereno e quieto.
Alguns são, mas isso é uma coisa da natureza deles.

Nunca conseguimos pôr a nossa natureza de lado?
Não. Não podemos. Sua Santidade Dalai Lama esteve no Brasil e tivemos um encontro só de budistas no hotel. E ele disse assim: “Sabe há quanto tempo eu medito? Desde os 6 anos de idade. A partir  dos 16 eu comecei a entender o que eu fazia. Sabe o que mudei nesses 60 anos? Isto [faz um gesto com os dedos, a mostrar que foi pouco].” O mais importante do zen é reconhecer-se, é sermos nós.

Eu fui no Porto e vi escrito assim: ‘Cuide do mar’. E eu pensei: ‘Que bonito’. Mas é pena porque temos de lembrar as pessoas para cuidarem do mar, a não sujarem as praias, para recolherem o lixo. Temos de nos ensinar, porque nos esquecemos”

Mesmo das que não gostamos?
Sim. Tem que começar a gostar. Tem que acolher. Toda a prática meditativa passa pela ideia de nos acolhermos a nós mesmos. Porque somos seres humanos, com falhas, com luz e sombra. Não pode ser luz o tempo todo. A vida também é você ver a sua sombra, ver onde está mais fraco e perceber onde é que se tem de fortificar. O importante é perguntar porquê: porque é que fica fragilizada, porque é que fica zangada. Temos de olhar para dentro, até ir a um sítio que transcende o próprio eu.

"A Sabedoria da Transformação" é um convite à reflexão. Está à venda por nas livrarias por um preço recomendado de 15,50€

No seu livro fala sobre a transformação e relata vários episódios da sua vida. Houve algum que lhe tenha dado uma aprendizagem especial?
Tem muitos. A gente tem muitos momentos de iluminação, de despertar. As coisas do jornal foram muito fortes. Uma vez, tive de ligar para uma senhora, depois de o marido ter sido assassinado, porque tinha de fazer o boneco [perfil] dele. E eu é que dei a notícia para ela de que ele tinha morrido. São coisas que nos afetam. A primeira matéria assinada que eu fiz era sobre um traficante de maconha que foi assassinado. Eu fui lá de noite, onde também estavam os policiais. E tinha um menino no chão — um menino, um adolescente — todo furadinho de bala, cheio de formigas andando em cima. Uma senhora passou por mim na escada e disse para mim: “Será que é meu filho?”. De repente, você pensa que pode ser filho de qualquer pessoa. Essas coisas começam a mexer com você, com valores, com o sentido da vida: o que é que estamos fazendo aqui? Porque é que isso é tudo desse jeito? Não pode ser doutro? Colegas meus começaram a ir para a clandestinidade. Mas não era isso que eu queria. Eu não acredito na violência como forma de acabar outra violência. Meu pai me dizia para eu viver por aquilo em que eu acredito. Então eu nunca fui por esse caminho. Foi por esse outro. A crise existencial é questionar. E questionar é mais essencial do que a resposta.

De que valores nos esquecemos?
Nós deixámos de perceber que estamos todos ligados, que somos a vida da terra, que somos um só corpo, com tudo o que existe. Nós estamos separados: brigamos com o outro, com a natureza, não sabemos cuidar da nossa casa comum, que é a Terra, que são as águas. Eu fui no Porto e vi escrito assim: “Cuide do mar”. E eu pensei: “Que bonito”. Mas é pena porque temos de lembrar as pessoas para cuidarem do mar, a não sujarem as praias, para recolherem o lixo. Temos de nos ensinar, porque nos esquecemos. Também deixamos sujeiras emoções — sentimentos, raivas, femicídio. Há mulheres apanhando. Vivemos numa sociedade em que o homem não se adaptou à mudança do papel da mulher. Ela era a sua escrava, que estava à sua disposição. Na hora em que ela deixa de ser serva, ele não sabe o que fazer com isso. Nós temos que trabalhar isso e isso vai depender das mães, porque tudo começa em casa. Mas dos professores também. É um processo. Nós estamos mudando o olhar de gerações. Como é que é o casamento? O menino leva o noivo até ao altar. Na mulher não: a noiva vai com o pai que entrega ela para outro homem. Ainda há muita diferença.

Como é que vê o quadro político brasileiro?
Coitadinhos de nós [risos]. Eu fui visitar o Lula na cadeia [Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, preso em Curitiba pelo envolvimento na Operação Lava Jato], porque toda a segunda-feira ele recebia um religioso e me chamaram para ir lá. Ensinei ele a meditar. Tivemos uma conversa muito boa sobre o que se pode chamar de Deus ou não, o que são práticas espirituais e o que é que ele pode fazer na situação em que está. Achei ele uma pessoa tão verdadeira, que você olha nos olhos e não está escondendo nada. Ele está lendo muito, que era uma coisa que antigamente ele não fazia. Se ele precisava de saber sobre um assunto, ele chamava um especialista e entrevistava. Agora não. Ele fica sozinho e lê muito.

O que nós temos agora é um governo que pensa nas minorias, nas lideranças, nos empresários. É um governo com um presidente que fala coisas que não são politicamente corretas. Mas eu acho que faz parte da personagem que ele criou, que é uma personagem que nessa última eleição quis vencer o PT [Partido dos Trabalhadores]. Eles quiseram acabar com esse partido, acabar com esse líder, porque ele estava lá há muito tempo e as pessoas gostavam muito dele. Então, começaram uma campanha muito negativa. E cheia de manhas. Mas a história é um pêndulo que vai para um lado e para outro. A gente sabe que ele está indo para um lado agora — e não é só no Brasil. Isso está em toda a parte.

De onde é que vem?
As pessoas se esquecem que não existem só os seus pares, os seus grupos, os seus olhares. Há um sítio onde nada disso existe, porque somos um só. Chegar lá é a minha proposta. O livro fala sobre isso.

Tem uma filha.
Tenho uma filha, neto e bisnetos.

Como é que foi gerir a vida familiar ao longo deste tempo todo?
Meu pai e minha mãe me ajudaram a cuidar dela, mesmo antes de me tornar monja, porque, quando comecei a trabalhar no jornal eu entrava à 1 da tarde e saia de madrugada. Meu marido foi embora, eu tentei viver sozinha, mas não consegui e fui morar com a minha mãe, que me ajudou a criar a minha filha.

Um monge budista zen tem de cumprir o celibato?
O budismo da tradição japonesa não tem celibato, mas eu prefiro estar só. Eu já tive depois de ser monja. Tinha jurado que não ia casar com mais ninguém. Mas conheci um monge japonês, nós nos casamos por um período e resolvemos depois que era melhor ficar separado. Ele voltou para o Japão e eu fiquei no Brasil. Quando você começa a ser professora e começa a ter muitos alunos, a relação pessoal fica mais difícil, porque não dá tempo para cultivar. A relação individual, dois a dois, precisa de cultivo. Não dava tempo e nós fomos nos separando. Mas ficou tudo bem, ficámos amigos até à morte dele. Foi uma coisa bonita.