Beatriz Tomé pegou nos amendoins produzidos no terreno de familiares e de pequenos produtores nacionais e descascou-os à mão. Depois de torrados e triturados, o resultado era uma manteiga feita apenas com amendoins — a Pura, como decidiu chamar-lhe — e colocou-as nos frascos. De seguida, pela primeira vez, foi vendê-la para a Feira Pombalina, em São João da Pesqueira, em Viseu.

No fim da feira tinha vendido um frasco. Mas de um passou para vários e atualmente tem já 25 sabores disponíveis. O negócio cresceu fruto do positivismo de Beatriz: “O amor pelo que fazemos e a força com que acreditamos em nós e nos nossos sonhos é essencial”, conta a fundadora da Manteiguiz à MAGG. Foi então que “a ideia arquitetada num pedacinho de papel se tornou um projeto de vida”.

Um projeto que nada tem que ver com a licenciatura em História ou o mestrado que Beatriz, de 23 anos, está a tirar em História Contemporânea. Apesar das áreas de formação, sabe que as saídas profissionais estão bastante limitadas e é por isso que a Manteiguiz está nos planos para o futuro: “Não são todas as pessoas com a minha idade que se podem dar ao luxo de poderem dizer que têm um negócio próprio”.

Beatriz Tomé é a fundadora da Manteiguiz

Beatriz Tomé/Manteiguiz

Ingredientes: amor, persistência e solidariedade

À receita das manteigas de frutos secos juntou-se mais um ingrediente que tornou o projeto mais doce: a Carolina. “Durante uma das muitas viagens que faço de comboio, ao atualizar a página de Instagram, dou de caras com uma fotografia da Carolina. Com apenas 25 anos e uma carreira brilhante pela frente no mundo da dança, a Carolina tinha recebido um duro diagnóstico: cancro nos pulmões, ossos e cérebro, e pedia ajuda financeira para conseguir arcar com os custos dos tratamentos”, conta Beatriz.

A fundadora da Manteiguiz percebeu que podia ajudar, mas não sozinha: uma vez que tem mais de três mil seguidores no Instagram, sentiu que juntos podiam fazer a diferença ao associar a gula a uma causa. Por isso, cada vez que fizessem encomendas à Manteiguiz, metade do valor passaria a reverter a favor da Carolina Gil. Apesar de inicialmente Beatriz ter estabelecido um prazo (31 de agosto), as receitas recolhidas continuam a contribuir para a jovem bailarina de 25 anos.

“Há quem pense que somos amigas de longa data. Eu ainda não tive o privilégio de conhecer a Carolina”. Ainda assim, desde o início que Beatriz sentiu que devia ajudar até porque, como conta, o cancro levou-lhe a avó materna e por isso tem uma maior sensibilidade para este tema.

Mas esta não é a única causa que Beatriz apoia. A sustentabilidade é outra das áreas a que a Manteiguiz está associada. Não só porque o processo de produção é feito manualmente e com produtos locais, como também pelo facto de aproveitar as cascas dos amendoins para fertilizar a terra dos terrenos de família.

“Para aqueles que têm plantas em casa e que consomem regularmente amendoins, por favor não deitem as cascas para o lixo. Utilizem-nas como fertilizante, ou ofereçam-nas às floristas ou agricultores da zona, acreditem que as aceitarão de muito bom grado”, sugere Beatriz.

A Rosa, a Rafaela, a Clara — cada manteiga tem o seu nome

Manteiguella (avelã com chocolate) e Maria Canela (amendoim com canela)

Beatriz Tomé/Manteiguiz

A Pura, manteiga 100% amendoim, foi a primeira, mas hoje há uma vasta gama. A Clara (nome da mãe da jovem de 23 anos) também é 100%, só que neste caso é feita a partir de cajus, e as restantes têm, além dos frutos secos, ingredientes complementares.

A base da Rosa (que é também o nome de uma das tias de Beatriz) é a manteiga de caju, mas a esta é adicionada pimenta rosa. Até agora as versões ainda se mantêm saudáveis (sem açúcares envolvidos) mas também as há para os mais gulosos.

Ora, falemos da Rafaela, que é uma manteiga de avelã com Kinder ou da Pura com a bolacha Filipinos — à qual são adicionados pedaços da bolacha de cacau com cobertura de chocolate branco.

Mas há tantas que não saíamos daqui. Vá, só mais uns exemplos de umas variedades irreverentes: a Mulatinha é feita com a manteiga de amendoim e chocolate em pó, a Caramela com caramelo salgado, e a Pistácia com manteiga de pistácio e chocolate branco.

“A manteiga de avelã com chocolate, a manteiga de caramelo salgado e a manteiga de amêndoa com canela são neste momento as mais pedidas”, refere Beatriz.

Andamos todos a guardar mal a manteiga de amendoim

Como usar? Beatriz tem algumas sugestões

Até agora tem estado a pensar nas manteigas de frutos secos e em quão bem ficam barradas no pão, ou, como sugere Beatriz, nas panquecas, na fruta ou mesmo nas pizzas.

Pensou bem, mas há mais: “Tenho clientes que utilizam o óleo natural da manteiga de amêndoa para fortalecer as pestanas, outras que utilizam a manteiga de sementes de abóbora para nutrir as pontas do cabelo ou até mesmo como máscara facial”.

Mas, ainda assim, as sugestões para consumir a manteiga não se esgotam e a fundadora do projeto tem várias dicas para quem gosta de se aventurar nas combinações: “A manteiga de amêndoa e canela vai muito bem com melancia ou melão. A manteiga de caju e pimenta rosa vai bem com uma posta de carne assada na brasa. E se à manteiga de sementes de sésamo se adicionar uma pitada de sal, azeite, alho em pó e pimenta preta obtemos um molho divinal para saladas”.

3 fotos

Quanto aos preços, estes variam de acordo com o fruto seco e com o tamanho do frasco — há três disponíveis. “Todos sabemos que os produtos artesanais têm um valor mais alto que os industrializados, mas comparando a qualidade e o preço, vale a pena”.

Para ter um exemplo, se optar pelos frascos de 40 ml custa 2€ no caso da Pura, 4€ a Caramela, 4,45€ é o valor da Rosa.

Junto com as mesmas vem um cartão escrito à mão pela própria fundadora do negócio. Por mais simples que seja a mensagem, Beatriz diz que cada um deles leva um pouco do seu coração. “Não sei o que o futuro reserva para a Manteiguiz mas, por mais que cresça, estes pormenores continuarão a existir. São aquilo que melhor carateriza o meu projeto e, no fundo, aquilo que eu sou”.

Para já, sabe que o futuro vai trazer um novo produto à Manteiguiz: as farinhas de frutos secos. Beatriz tem ainda outras ideias em mente — como a realização de workshops juntamente com pessoas que foi conhecendo e que, como ela, têm projetos especiais — e a venda das manteigas em feiras. Mas há mais.

“Quem sabe se não será este ano que terei oportunidade de visitar a casa da Cristina Ferreira”, refere Beatriz, uma vez que os programas de televisão também estão na lista de planos a concretizar.