Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Cara leitora,

Para começar, talvez seja importante clarificar alguns conceitos relativos a amor e amizade, e no que é que um e outro se tocam (ou não), se estendem (sim ou não?), se expandem (talvez não).

Sentir que o seu namorado “é só seu amigo” podia ser algo bom, não obstante esse “só” denunciante do facto de a sua frase acusar algum tipo de frustração ou falta em relação a algo que sente não existir na vida a dois. É que se podemos ser bons amigos sem sermos namorados, é impossível ser-se bom namorado sem antes ser amigo.

Inclusive, há quem diga que os namoros que surgem a partir de uma amizade são os mais duradouros e os mais fáceis de se concretizar.

Antes de serem namorados, é importante, portanto, que a leitora e o seu parceiro sejam amigos. Da mesma forma, mesmo depois de a relação se tornar mais séria, é necessário que a amizade continue a existir, pois na altura em que a paixão se for, é ela (a amizade) que assegurará o amor.

Tenho familiares e amigos tóxicos. O que é que posso fazer para lidar com isso?

Mas nem tudo são rosas, não é verdade? Também o amor e a amizade têm bad hair days, marcas de catapora, estrabismo galopante e desvio de septo.

Na verdade, o que me parece implícito na sua questão não é *exatamente* a “amizade” enquanto “o” problema (como referi, se o tem por amigo, maravilha), mas sim – e talvez este seja o termo a empregar – algum comodismo.

Traduzido em ‘psicologuês’ corrente: “Sinto que o meu namorado e eu estamos numa relação nem-carne-nem-peixe, mais a dar para um linguado já esfriado, com língua de porco desenxabida, meia salsicha por esquentar e sem grelos a acompanhar”. Tudo isto servido num morno ou mesmo frio (como a Dobrada à moda do Porto que, segundo consta, num restaurante, des-serviram a Pessoa) dia a dia pardacento e adocicadamente comodista.

A propósito, disse ele (o Pessoa) assim:

“Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo…

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.”

(s.d./Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944)

Querida leitora, há coisas que não se podem comer frio. E o amor é uma delas.

E para manter um grande amor ou vivenciar uma relação de maneira mais profunda, é preciso compreender, sem tabus, como as trocas afetivas funcionam.

Então vamos lá.

Por dentro das relações

No contexto das relações interpessoais, as três componentes do amor, de acordo com a teoria triangular desenvolvida pelo psicólogo Robert Sternberg, são a intimidade, paixão e compromisso. A intimidade engloba os sentimentos de apego, proximidade e vínculo; a paixão engloba o sentimento de conexão e atração sexual; e o compromisso engloba a decisão de permanecer com a outra pessoa, e a longo prazo, a partilha das conquistas e planos com “o/a” tal.

Tudo isto quer dizer o quê? Que, geralmente, a quantidade de amor experienciada depende da força absoluta das tais componentes, e o tipo de amor experienciado depende das forças relativas de uns em relação aos outros. Diferentes estágios e tipos de amor podem ser explicados como diferentes combinações dos três elementos. Por exemplo, a ênfase relativa em cada componente muda com o tempo como uma relação romântica se desenvolve.

Noutras palavras, um relacionamento baseado num único elemento tem menos probabilidade de sucesso do que aquele baseado em dois ou três elementos.

Note, porém, que muitos são os fatores que realmente podem acabar com um amor e/ou transformar uma paixão numa amena “amizade” de costumes, bem dentro de uma estranha e “romântica” friendzone tecida pelas malhas do comodismo. É como se os tons de uma tela perdessem as cores fortes, por acumulo de poeira ou exposição ao sol. Pura falta de cuidado.

Mas, bom, em maior ou menor grau, todos os casais, em algum momento da relação, já se perguntaram: “Será que eu realmente amo esta pessoa ou estou com ela só porque me acostumei?”. Esta dúvida parece recair sobre dois sentimentos que aparentemente exigem posturas diversas: amor e amizade.

Talvez alguns conceitos careçam aqui de maior reflexão.

Se é possível apaixonarmo-nos por um amigo/amiga, supomos que a amizade e o amor possam ter uma íntima correlação. Se nos tornamos amigos/amigas de quem amamos, o mesmo também se aplica, ora bolas.

“A minha namorada quer viver comigo mas eu não me sinto preparado. Como é que lhe digo isto sem terminar a relação?”

Resumindo numa linha: podemos acrescentar amor à amizade e amizade ao amor.

Mas então, porque é que em muitos casos (e o seu não me parece ser exceção) quando uma pessoa se questiona sobre o facto de o amor ter-se tornado amizade, fica a inquieta impressão de que algo se perdeu?

A leitora quando me diz “sinto que o meu namorado é só meu amigo” expressa-o com a sensação de que lhe/vos falta alguma coisa, certo? De que algo (importante) foi subtraído da vossa relação? A ser assim, o que será?

Dito (e perguntado) de outra forma, o que será que uma mulher espera de um homem?

Por fora das relações

De todas as queixas que escuto as mulheres fazerem sobre um homem noto que existe sempre um incómodo subliminar presente em quase tudo o que me dizem. E esse estorvo monstro, qual é, qual é? “Ele não teve atitude”.

“E isso é o quê?, poderão perguntar muitos cérebros masculinos para os quais a palavra “atitude” é um mumbo jumbo de todo o tamanho, ou não fosse, realmente, uma das palavras mais abrangentes e menos específicas indexadas no dicionário.

Meus amigos, não se apoquentem. Eu facilito-vos a vida e, no dicionário amoroso, dou-vos algumas entradas possíveis para o que poderá querer dizer “ter atitude” num relacionamento de casal.

Às vezes, ter atitude é tomar uma postura ativa, digna, íntegra que valorize um bem maior e preserve a relação amorosa seja no começo, no auge ou no fim.

Às vezes, ter atitude tem mais que ver com o comportamento que tipicamente surge na própria definição de muitos homens, como seja por exemplo o ser confiante, pro-ativo ou ter iniciativa (com a conotação do que seria uma masculinidade “alfa”). Iniciativa no domínio da sedução, inclusive, na dança do acasalamento, contrariamente aos homens designados “beta” que esperam que a mulher dê o primeiro passo.

Às vezes, ter atitude é tudo isto e mais alguma coisa, ou nada disto e simplesmente o acaso de no meio de uma discussão quotidiana mais acalorada, ele lhe pespegasse um beijo molhado, selando a querela e trazendo-a de volta para a sua doçura feminina, mesmo que por alguns instantes a leitora resistisse e achasse que ele a interrompeu inoportunamente.

Infelizmente, este tipo de situação está mais para um script de filme Hollywoodesco do que para as cenas de uma vida real.

E nisso, as mulheres adoram iludir-se. Insistem em pensar que os homens têm de adivinhar tudo o que querem, pensam ou desejam, sem ao menos terem de alvitrar.

Também há homens que, por conta da sua educação, adotaram comportamentos mais aprumados e regrados e talvez tenham feito uma manobra exagerada para lidar com os seus desejos e instintos. Passam a recusar a sua força e intensidade como sinal de desrespeito, agressividade e imaturidade, tendo-se tornado desde cedo meninos precoces e conscienciosos.

Talvez seja assim também consigo, mas muitas mulheres, no consultório, queixam-se que até encontraram o parceiro“ideal”, simpático, bom de coração, atencioso, estável, querido, mas… não tem muita fibra para se posicionar em momentos de crise de forma assertiva e destemida. Mesmo na cama, às vezes são um pouco passivos e até desajeitados, e imaginam que o sexo acontece sem uma boa dose de dedicação e empenho.

Trapalhadas na cama

O problema é que a gentileza desacompanhada de vivacidade e algum fulgor pode ser tão incompleta quanto o tipo de pessoa cheia de vida e totalmente egocêntrica.

São os denominados “nice guys”, e para eles pode existir uma estrada a ser percorrida na busca de si mesmos e de um estilo de vida que inclua amor e excitação, paz e intensidade saudável, afetividade, companheirismo e instinto.

Ao ler este texto, talvez os “bons rapazes” dirão que defendo o egocentrismo como o garante de sucesso na vida sentimental. Longe disso. Se eles aprenderem a tomar a vida nas suas mãos, serão o tipo de homem mais incrível e irresistível, no entanto, enquanto se renegarem e remeterem a si mesmos ao lugar e rapaz pálido e perfeito padecerão de relacionamentos cheios de namoradas gratas pela sua bondade, mas insatisfeitas.

É que o céu limpo com um pouco de sol e calor é bem-vindo, tal como um beijo na boca destemperado também pode salvar almas.

Mas na prática o que fazer?

— Criem espaço e tempo emocional para conversas que resolvem.

Inevitavelmente, há fases nas relações (sobretudo, as mais longas) em que o desejo pode esmorecer, contando que os olhos não deixem de dialogar. A afinidade pode alterar a temperatura, o carinho continua, mas na antecâmara dos vales e sonhos, importa perceber se dentro dessa amizade *ainda* existe amor.

Se for amor companheiro o que vos une – e não apenas comodismo costumeiro – na vontade de prosseguirem juntos, partilhando planos de vida e desafio, o que se pode fazer é refletir sobre a experiência vivida até aqui e limpar a alma para os próximos tempos, iniciando movimentos de reconquista mútua e recomeço.

Repare. Serem ótimas pessoas é muito lindo mas, na realidade, não basta. É preciso haver desejo. Sem desejo, fica difícil manter um relacionamento amoroso (saudável, pelo menos).

Ele disse-me que não estava pronto para uma relação séria. E agora?

— Incentivem um outro tipo de conexão.

Propondo uma interação mais sofisticada que iniba a “urgência” pelo sexo em si, mas que o estimule naturalmente. Talvez o script padrão precise ser alterado para que vocês percebam uma dimensão mais subtil e ainda mais potente entre ambos.

No que se refere ao estilo de vínculo essencial (a questão da “amizade”, lembra-se?), ou o modelo do contacto usual, vocês já “bateram a meta”. Só que agora há um desafio sem guiões pré-definidos. Para isso, vocês precisam entender que talvez haja um descaso mais ou menos consentido, da vossa parte, em tomar a dianteira para este tipo de aprofundamento.

O fogo quando é de menos faz falta, faz frio, é escuro e desconfortável. É preciso acertar o tom, compassar o ritmo, entregarem-se genuinamente e deixarem-se embriagar de labaredas na medida certa.

E depois? Depois é aprender a manter acesas somente as brasas.

Os filmes e os romances, porém, enganam-nos. Dão-nos a ilusão de que podemos (ou temos que) estar ininterruptamente apaixonados, ardendo na fogueira sem se ver, mas o amor (quando é amor) está longe de se resumir a isso.

A paixão é imperdível, mas não deixe de saborear as subtilezas de um amor tranquilo (um “amor tranquilo com sabor de fruta mordida” que Caetano, sobre um poema de Cazuza, neste tema, que poderá escutar, tão bem sintetizou):

— Procurem equilibrar subtileza com ardência

É a ardência (a paixão) que rompe a terra para deixar nascer os frutos do amor.

A intenção é ganhar intimidade com a pessoa e ampliar o leque de comunhão emocional. A excitação pode ressurgir a partir da coragem de ambos em se redescobrirem como pessoas, afinal, o sexo não deveria ser a única bitola para se saber se o relacionamento corre bem.

Ser espontâneo com os próprios desejos é essencial para acontecer algo sexual. Algumas vezes, o homem que não tenta uma abordagem mais direta pode ser visto como amigo, bom ouvinte, confessor e só.

E é isto, muitas vezes, que está por detrás dos lamentos femininos ao dizer que “sinto que o meu namorado é só meu amigo”.

Para ter atitude, o homem precisa ter uma potência que não nasce da força, sensação de superioridade ou vitória pessoal sobre a mulher. (Ufff, feministas podem adiar o by-pass). A atitude que as mulheres esperam é que ele tenha iniciativa de agir e encarar todo o tipo de situações que ele ou eles, enquanto casal, enquanto pessoas, enquanto tudo, sejam capazes de produzir (sem se demitirem disso).

Esta atitude exige uma certa maturidade auto-consciência para reconhecer que nem tudo segue da maneira mais satisfatória ou venturosa, mas de forma realista.

“O castelo de sonhos colapsou? Sem problemas, construímos outro.” Esta é a atitude que uma mulher espera de um homem.

Viver ao lado de alguém é um grande desafio a ser enfrentado diariamente. Pode ser que os apaixonados não percecionem desta maneira, mas a verdade é que a construção de um relacionamento dá-se diariamente, a cada palavra proferida, gesto, olhares e comportamentos.

Para além disso, não somos seres assexuados nem tão pouco eunucos emocionais.

Assim, se por um lado, nem sempre o amor ou a amizade são o suficiente para permanecer ao lado de alguém, é necessário entender que cada um é responsável pela construção de um relacionamento sólido ou não. E é isso o que possibilita que cada um seja um voyeur dos seus próprios comportamentos e se disponha a fazer o seu possível (ou o seu melhor) para que o outro se sinta satisfeito ao seu lado.

É importante lembrar, no entanto, que às vezes o amor e o hábito podem coexistir numa relação (sendo amizade, como já percebeu, um ingrediente indispensável nesta equação), mas o que o que importa é perceber quando o primeiro já não existe. Sem amor, nenhum relacionamento saudável tem chão para durar ou progredir.

Agora, relevante é também dizer que, por vezes, só amor não chega.

Reinventar a relação é uma das formas de aplacar esse sentimento de estagnação ou frustração. Mas para isso, é necessário que as duas partes se reinventem a si mesmas também. Nem sempre é fácil chegar até aqui. Não raras vezes, a insatisfação com o relacionamento é vista apenas por uma das partes, enquanto a outra, acostumada, sente-se satisfeita com tudo e não vê necessidade de mudar.

Quando isso acontece, o diálogo é essencial. Mão na mão, olho no olho, mas sem dente por dente. Beijo na boca. Boca a boca, numa comunicação aberta, tranquila, firme e sincera (difícil, ein?).

Uma das formas de dar mais uma oportunidade ao amor é buscar ajuda de um profissional que auxilie tanto a pessoa quanto o casal a olharem para dentro de si e identificarem onde – e se – há problemas a serem resolvidos.

Com um olhar externo, imparcial, qualificado, um psicólogo pode ajudar o casal a auto-conhecer-se (tal coisa existe), vislumbrar um futuro juntos e a identificar as possíveis falhas de comunicação ou de atitudes que estão a prejudicar o relacionamento e os respetivos níveis de satisfação com o mesmo.

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Não há receitas de bolo, obviamente, pois cada caso é único, mas é importante relembrar (uma e outra vez, quer aqui como na vida) que o amor precisa ser regado, estrepitosamente vivido, e o desejo deve ser exercitado sempre. Para se ser feliz é preciso ter coragem. E ter coragem pressupõe algum grau de atitude.

O amor e a intimidade devem ser construídos com sensação, conexão, partilha, toque e fantasia.

Então, sejam amigos e amantes ao mesmo tempo e o relacionamento tornar-se-á ainda melhor. Para se des-cobrirem e descobrirem numa vida a dois os desafios e as delícias de uma relação.

Às vezes, é o que basta para recobrar o cuidado com o outro e o respeito para consigo, e cada um aprender a invocar, nessa valsa au pair, a melhor versão de si mesmos.

Até para a semana!