Conseguimos, à primeira, perceber tudo o que o menu apresenta, ainda que por ali faltem representações tipicamente portuguesas. Sabemos que a focaccia vem de Itália, que o croissant é francês e que o abacate já é do mundo. “E isto? Vegemite?”, perguntamos, com o dedo apontado para uma das opções a ser servida em pão torrado. “Ui, isso é um golpe arriscado da nossa parte”, admite Lisa que, ainda que seja australiana, viveu mais de 20 anos em Bali, uns meses na Suíça e está ainda a adaptar-se ao paladar português. “Não sei se vai gostar”, avisa. Mas o que estes australianos não sabem é que nunca se subestima um palato pelo qual já passaram coisas como sarrabulho, ainda que agora mais virado para a quinoa.

Lisa traz uma tacinha de Vegemite, uma pasta escura que deixa o cérebro confuso entre o doce e o salgado, e ensina-nos que primeiro se põe a manteiga, depois aquele patê escuro e só depois se leva à boca. Semicerra os olhos à espera da nossa reação e quando dizemos: “Olha, é bem bom”, respira de alívio e deixa sair um “I love Portugal”.

No13

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Morada: Travessa do Carvalho, 13, Lisboa
Telefone: 910 405 921
Horário: 8h-21h. Segunda e terça-feira 8h-18h. Fecha ao domingo

Lisa Taffin e Andrew de Sousa formam a dupla que correu meio mundo e assentou em Lisboa para abrir um restaurante no qual o destaque é dado ao café e aos pratos sem fronteiras. “O Vegemite é tipicamente australiano, é certo, mas vejam o resto da carta, há de tudo um pouco”, aponta Andrew. E há mesmo. No No13, no Cais do Sodré, a ideia é juntar ao bom café, pratos do mundo e para todas as horas.

Para quem gosta de comer de uma taça à colher, há o já clássico açai bowl (6,50€), o Bliss Bowl com fruta, aveia e abacate (6€), o iogurte com fruta e granola (5,50€) e o Bircher Muesli, uma espécie de overnight oats mas feitas com sumo de maçã em vez de água ou leite (4,50€).

Ainda a pensar no pequeno-almoço, há croissants com manteiga e mel (2,50€) ou com fiambre trufado (4,50€) e as tostas, que podem ser do já nosso tão conhecido Vegemite (2,50€), como de abacate e queijo feta (7€), ricotta e fruta cozida (7€) ou de manteiga de frutos secos (2,50€).

Expresso ou de filtro? No Buna, o café é sempre de especialidade

Nos pratos quentes, a pensar no almoço, são os ovos que mandam. A Mortadella Egg Roll é feita com mortadela grelhada, maionese picante e ovo estrelado (8€), o Green Eggs & Ham leva fiambre grelhado, ovo escalfado, pesto em pão de massa lêveda, e há ainda uma sandes com ovos mexidos, bacon e queijo halloumi (12€).

A tudo isto pode juntar um batido de fruta, um chocolate quente ou um café. “Atenção, o Andrew tira o melhor café do mundo”, avisa Lisa, obrigando o sócio a dar uso imediato à máquina incrível que ocupa parte do balcão.

Além destas opções para o dia, no No13 também tábuas de queijos e enchidos, a pensar nos fins de tarde, que Lisa e Andrew querem que seja com menos café e mais vinho.

Correram o País à procura dos pequenos produtores e dos grandes vinhos. “Ainda ontem esteve cá um cliente que nos confidenciou que tirou férias para viajar por Portugal de maneira a provar os melhores vinhos, e que o melhor tinto bebeu-o aqui”, salienta Andrew. Deixamos a dica: era um Quinta dos Termos, uma propriedade familiar próxima da Serra da Estrela.

Uma dupla improvável

Andrew e Lisa não são um casal nem amigos de longa data. “Na verdade, conhecemo-nos há um ano”, comenta Lisa, uma designer de interiores que deu ao espaço o seu cunho pessoal e do qual se nota os anos que viveu em Bali. Como muitos dos que trocam a Ásia pela Europa, Lisa optou por Portugal. “Tem muitas semelhanças”, garante, perante o nosso ar de surpresa. “A vida é simples, as pessoas são simpáticas e o clima é quente”, explica. “E esta luz? Não se encontra em mais lado nenhum”, completa Andrew, que como bom filho de emigrantes portugueses, viu o seu nome adaptado ao destino australiano, mesmo que o apelido “Sousa” não deixe grande margem para dúvidas.

Mortara. O café que junta Brasil, Itália e Portugal

Ainda que toda a vida se tenha identificado como português, muito mais do que como australiano, não pensava voltar para o País do qual os pais saíram tão cedo. Mas foi a mulher, sueca, que fez finca pé assim que pôs os olhos em Lisboa.

Trabalhou como gerente do Café Janis, onde Lisa foi tomar café num dos seus primeiros dias em Lisboa. Apercebeu-se do sotaque australiano de Andrew e da qualidade do café que lhe saia das mãos e pensou que seria boa ideia juntarem-se em dupla e abrir um espaço em nome próprio onde pusessem ao serviço de Lisboa todas as suas competências: bom café, comida de todo o mundo e uma decoração que pede que se fique sempre mais um bocadinho. “Trouxe o espírito de Bali comigo”, comenta Lisa, a apontar para os candeeiros de verga e as mesas de madeira tosca.

8 fotos

Mas para não pensarem que aqui não se respira Portugal, Andrew apresenta-nos o Elvira, um bolo ao qual deu o nome da mãe e com quem aprendeu tudo o que sabe sobre cozinha. Os seus olhos enchem-se de lágrimas quando fala da sua Elvira e os nossos arregalam-se de satisfação assim que provamos a nossa. É que aquela Elvira vem em forma de fatia húmida de pistachio, amêndoa e um xarope de açúcar e limão que faz valer cada caloria.

O No13 prepara-se em breve para servir jantares secretos, durante os quais o restaurante fica exclusivamente preparado para receber um grupo de pessoas que vem totalmente ao desconhecido. “Não vamos revelar o menu e vamos incentivar a que as pessoas se sentem ao lado de desconhecidos”, explica Andrew, que começa já a reunir uma lista de chefs convidados. Uma das primeiras será Alessandra Lauria, uma italiana que se mudou recentemente para Portugal para ensinar os portugueses a fazer e a comer a verdadeira massa fresca. “Já estou a imaginar os pratos, o vinho, as conversas à mesa”, descreve Andrew, entusiasmado.

Oferecemo-nos para cobaias de uma dessas experiências, ainda que com uma condição: venha a comida de Itália, de França ou servida numa pasta escura em pão torrado, não vamos embora sem uma fatia de Elvira.