Beatas no caminho? Eles guardam-nas todas. E um dia construiram uma prancha. Foi assim com Taylor Lane, impulsionador do projeto The Cigarette Surfboard, que aceitou o desafio lançado pela empresa de surf Vissla, em colaboração com a Fundação Surfrider, uma organização ambientalista americana sem fins lucrativos que trabalha para proteger e preservar os oceanos de todo o mundo. O objetivo era criar um artigo de artesanato de surf com materiais reciclados para levar para a competição internacional de surf. 

Taylor teve então a ideia de pegar num tipo de lixo que polui as praias e os oceanos: as beatas de cigarro. Talvez tenha sido a melhor escolha, já que este é material que não falta nas praias, oceanos e em cada canto da cidade: “Há 5,6 triliões de beatas todos os anos. Mesmo que sejam levadas para longe do oceano, irão encontrar o caminho de volta para lá”, refere Taylor numa entrevista à revista de surf “Carve“.

O surfista apresentou então uma prancha com mais de dez mil beatas apanhadas na costa da Califórnia. Esta criação levou-o ao primeiro lugar da competição em 2017 e a partir daí o sucesso foi somando conquistas (e pessoas). A Taylor juntou-se Ben Judkins, para um novo desafio: fazer um documentário sobre surf ambiental. Para isso lançaram uma campanha de crowdfunding para arrecadar 18 mil euros. Não só conseguiram este valor, como ultrapassaram-no em quase dois mil euros. A produção já começou.

Mas quem são os criadores do projeto? Taylor Lane é designer industrial e Ben Judkins é cineasta. Duas áreas que combinaram na perfeição para a criação do projeto. Mas estes já não são os únicos nomes envolvidos: Jack Johnson — o músico, ativista ambiental e surfista profissional — também se juntou à dupla. Conheceu o The Cigarette Surfboard na conferência internacional Marine Debris, em San Diego, no ano passado.

Quando soube que Taylor e Ben iam construir mais pranchas, convidou-os para irem para o Havai, a sua terra, viagem que se concretizou este ano. “A minha experiência com a prancha de cigarros foi complicada no início, mas qualquer prancha boa é complicada no começo”, conta Jack Johnson num vídeo de divulgação.

Os três apanharam então milhares de pontas de cigarro nas praias da Califórnia e transformaram-nas em pranchas funcionais. “Eu acho que a prancha de cigarros demonstra que temos um problema, e nós procuramos como fazer parte da solução. Mas tentamos aproveitar esse processo ao mesmo tempo, sem sentir que fazemos isso apenas porque tem de ser e porque temos um problema. Pode ser muito divertido fazer parte disto”, continua o músico no mesmo vídeo.

O documentário pretende mostrar toda a jornada de Taylor enquanto constrói as pranchas feitas de pontas de cigarros e a evolução da técnica — cada nova prancha é mais leve, mais forte e funcional. Além disso, o objetivo é envolver as pessoas na temática, em especial a comunidade do surf, para que adiram às pranchas mais amigas do ambiente e lutem ao mesmo tempo por um oceano saudável.

“Acho que a comunidade e a indústria do surf têm uma grande obrigação e oportunidade para fazer mais. A forma como nos sentimos deve ser apoiada por mais ações na preservação do oceano e na proteção das ondas e dos lugares que amamos. Há muita coisa realmente boa a tentar mudar para melhores práticas, mas ainda há muito a fazer”, refere Ben à revista de surf.

O mesmo acrescenta que a mentalidade do filme é simbólica da mentalidade e da ideologia “longe da vista, longe do coração”: “Estamos a prejudicar-nos a longo prazo”.

É por isso que, em forma de alerta, o filme apresenta várias problemáticas, como “o impacto das grandes indústrias e governos Vs. o impacto do consumidor individual”, coloca questões — “quais são os principais valores do surf e como é que isso se traduz em problemas para a saúde dos oceanos?” — e apresenta ainda soluções criativas, como é o caso de projetos de limpeza e prevenção.

Veja como são as pranchas do projeto The Cigarette Surfboard.

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