O ano letivo 2019/20 arrancou oficialmente entre 10 e 13 de setembro, mas com as várias escolas e colégios espalhados pelo País a iniciarem as aulas em dias diferentes — com algumas a fazê-lo só na sexta-feira —, podemos falar de um arranque a meio gás.

Esta segunda-feira, 16 de setembro, marca a primeira semana completa oficial do regresso às aulas. No entanto, algumas crianças e jovens ainda estão com a cabeça nas férias, as rotinas normais ainda não estão implementadas a 100%, e os pais assumem o papel de seguranças para garantir que não escapa nada aos filhos, desde o material que têm de levar na mochila até à hora de ir dormir.

Agora que as bolas de Berlim e os mergulhos ficaram oficialmente em stand-by até ao próximo verão — ou pelo menos até ao fim de semana, se as temperaturas altas se mantiverem —, pedimos ao pediatra Sérgio Neves uma ajuda para os pais ajudarem as crianças a entrar nos eixos.

Espreite as cinco dicas do coordenador da unidade pediátrica da Clínica de Santo António, e prepare-se para um regresso às aulas sem grandes turbulências.

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1. Respeitar as horas de sono necessárias

Ter o sono em dia é uma das medidas mais importantes, quer para crianças como para adultos. Para os miúdos, uma boa rotina de sono é sinónimo de um melhor rendimento escolar, melhor disposição e ainda contribui para um estilo de vida saudável.

E falando em números, quantas horas é que as nossas crianças devem dormir? “Em idade escolar, entre os 6 e os 11 anos, as crianças devem dormir nove a dez horas. Os adolescentes podem dormir oito a dez, mas considero as nove horas um bom número de referência”, afirma Sérgio Neves à MAGG.

O pediatra Sérgio Neves alerta para a necessidade de os miúdos não terem uma agenda recheada de atividades

O pediatra explica também que o ajuste aos horários depois das férias deve ser feito de 30 em 30 minutos. Ou seja, se o seu filho costuma ir dormir às 21 horas em época de aulas, mas permite-lhe ficar acordado até às 22h30 durante as férias, “cerca de uma semana antes do início das aulas, é ir ajustando até chegar à hora normal de ir dormir”.

Mesmo aos fins de semana, a rotina não deve ser muito alterada. De acordo com o especialista, “as oscilações na rotina de deitar não devem exceder os 30 minutos a uma hora, com riscos de alterarem o biorritmo dos miúdos”.

2. Não aos ecrãs

Os ecrãs, sejam eles os jogos de consola, televisão, smartphones ou computadores, são um dos grandes inimigos dos pais. Mas para além de terem outras contrariedades, estar exposto a estes mesmos ecrãs pouco antes da hora de ir dormir pode perturbar a rotina de sono, fazendo com que as crianças foquem a sua atenção antes de irem descansar, o que dificulta (muito) o ato de adormecer.

“Cerca de 30 a 40 minutos antes de irem para a cama, as crianças não devem estar expostas aos ecrãs. Para além da luminosidade ser prejudicial, esta é uma atividade que capta a atenção e concentração, principalmente quando falamos de jogos, e não é recomendado estimular o cérebro dessa forma antes da hora de ir dormir”, esclarece Sérgio Neves.

3. As atividades físicas e desportivas também estão proibidas antes da hora de dormir

É verdade que muitos dos nossos filhos têm uma agenda tão ou mais preenchida do que a nossa: é a escola, o ATL, as atividades extra-curriculares, as aulas de inglês no instituto e ainda os treinos de futebol, ténis ou dança. Assim, é um facto que muitos miúdos acabam por desempenhar as atividades desportivas ao final do dia, às vezes até às 21 horas, quando o ideal era já estarem a dormir.

Mas isso não é muito saudável. “Não recomendo atividades físicas intensas e desportivas até pouco antes da hora de dormir, ou até muito tarde, o que faz com que a hora da cama seja esticada”, salienta Sérgio Neves.

O pediatra realça que, “idealmente, as crianças e jovens deveriam parar com este tipo de atividades cerca de três horas antes de irem dormir, de forma a que o corpo possa descansar, e ainda existir tempo para o jantar, banho e estar com a família”.

Sérgio Neves reconhece que as agendas dos miúdos estão cada vez mais complicadas e cheias, mas alerta os pais para a necessidade um melhor ajuste entre o tempo escolar e as atividades — e ainda salienta a importância do tempo passado em convívio familiar.

“Estamos a perder o hábito de uma família estar toda junta ao final do dia, a falar do que se passou, a passar tempo de qualidade. Há muitas famílias que já nem conseguem juntar-se à mesa de jantar, porque todos os elementos chegam a casa a horas diferentes, com rotinas diferentes. Há que existir um esforço para recuperar isso.”

4. Cuidado com as refeições

Se ao almoço os pais não conseguem ter grande intervenção naquilo que os filhos comem — embora seja importante manter-se a par das ementas escolares e comunicar com a escola para perceber se o seu filho anda a fazer as refeições de forma adequada —, o mesmo não se passa ao jantar, onde tem total controlo.

De acordo com o pediatra, e a pensar numa dieta saudável mas também já na hora de ir dormir, o jantar dos miúdos deve ser composto por sopa, prato e fruta. E há coisas proibidas: “Devemos evitar os refrigerantes e doces, que são excitantes, despertam as crianças e resultam em dificuldades em adormecer. Para além de pouco saudáveis, claro está”.

O mesmo se aplica a fast-food, snacks e leites com chocolate antes de ir dormir. E caso o seu filho jante mais cedo e tenha necessidade de uma ceia, como um biberão de leite antes de adormecer, tenha em atenção a higiene oral.

“Muitas crianças, principalmente as mais novas, até aos 5 anos, ainda bebem um biberão ou um copo de leite antes de se deitarem. Mas a higiene oral não deve ser descurada e, se existe a necessidade do leite, os dentes só deverão ser escovados após esta ingestão, para as partículas do leite não ficarem nos dentes até à manhã seguinte”, refere Sérgio Neves.

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Quanto aos lanches, caso os prepare em casa, o especialista avisa que deve evitar bolos açucarados, leites com chocolate e sumos, e optar por opções mais saudáveis como um pão de cereais, fruta ou iogurte com cereais. “Devemos afastar-nos de bolos e bolachas sem qualquer qualidade nutricional.”

5. Ajude-os a fazer a mochila — mas ofereça autonomia

Com a cabeça ainda na praia e numa rotina sem horários, onde brincar era a principal e única atividade, é natural que as crianças andem um pouco mais esquecidas nos primeiros dias de aulas. Assim, ao final do dia, os pais podem ajudar os filhos a preparar os livros e o material para o dia seguinte, mas não devem fazer tudo por eles.

“Os adultos podem ajudar na organização do material, e devem verificar regularmente se os filhos têm a pasta organizada, os cadernos em dia, etc.. No entanto, é importante que também ajudem os filhos a ganhar autonomia, os envolvam na preparação de tudo, seja da mochila, do saco de Educação Física, da pasta de Educação Visual, para que os miúdos aprendam a fazer tudo sozinhos e não sejam sempre os pais a fazer isso por eles”, afirma Sérgio Neves.