Susa Monteiro, 39 anos, tem no olhar a timidez típica de um artista com medo da rejeição. Nasceu em Beja, onde ainda vive, e passou por uma fase de transição ao trocar as artes do espetáculo e o trabalho como caracterizadora de cinema e teatro pela ilustração e a banda desenhada. Atualmente, pega nos lápis e nos pincéis como quem sabe exatamente como deve vestir os figurantes de uma peça de maneira a que a mensagem não se perca por entre atos.

Já ilustrou livros (um deles sobre Beja), contou histórias e nos últimos dez anos foi quem deu cor e imagem às crónicas de António Lobo Antunes na revista “Visão”. Em pleno recinto da Comic Con — onde veio promover o seu trabalho —, conta à MAGG que o contacto surgiu de forma muito natural quando uma das agências a convidou.

Estávamos em 2009 e Susa viria a assumir essa responsabilidade por mais dez anos até março, altura em que o escritor decidiu abandonar as crónicas semanais. A ilustradora nunca soube o que o escritor realmente achava do seu trabalho e também nunca perguntou. “Sou sensível e tenho medo de críticas. Não sou corajosa”, mas quem a conhece diz precisamente o contrário.

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É que a ilustradora decidiu largar a área do teatro e do cinema para abraçar uma outra que ainda hoje é vista com maus olhos em Portugal.

Mas como qualquer artista, não perde a esperança. “A tendência é para que isso vá perdendo relevância”, diz enquanto as mãos lhe tremem. Assumidamente tímida, criativa e melancólica, Susa Monteiro fala daquilo que hoje é a sua paixão. E do único sonho por concretizar.

Como uma pessoa que vive de histórias, lembra-se das primeiras que leu?
Li alguma banda desenhada em pequenina mas eram as obras que todos conheciam, como as histórias do Tintim, a Mónica ou a Mafalda. Mas mais a sério, foi a partir dos 25 anos.

Começou tarde?
Agora tenho 39 [risos]. Diria que para a ilustração não comecei muito tarde porque sempre desenhei e pintei. Tanto o é que a ilustração surgiu-me naturalmente quando comecei a trabalhar. A atenção para a banda desenhada é que começou lá para os 25 anos quando entrei para um ateliê de banda desenhada em Beja, que ainda hoje existe. Foi aí que comecei a ver que o meio ia para lá das histórias da Mafalda e da Mónica.

De que forma é que as primeiras histórias a marcaram?
O mais engraçado é que as primeiras histórias não me marcaram de maneira nenhuma, só depois de ter um primeiro contacto com alguns dos autores europeus é que fiquei fascinada.

Como é que olha para o meio da banda desenhada?
Acho que é uma fonte de expressão artística incrível. Mas reconheço que a maior parte das pessoas não tenha noção disso e ache que não há mais nada para lá dos super-heróis. Isso vê-se muito aqui na Comic Con onde há esse universo fantástico e repleto de heróis. Mas o meio tem muito mais do que isso. É precisamente como o cinema — há o cinema mais comercial e depois há o independente e de autor.

Não é, portanto, consumidora desse tipo de estilo de desenhos?
Pelo contrário, gosto de tudo um pouco e até vou ao cinema para ver filmes com super-heróis. Fui ver os Vingadores, gosto do Batman… Mas atenção, gosto como sou capaz de gostar de outra coisa qualquer. Não é uma paixão. E serve muito bem naquele contexto em que queremos descontrair e precisamos de algo que nos entretenha. Quando precisamos de mais do que isso, de algo que seja mais aprofundado e menos superficial, sabemos que há opções. Isto é válido para a banda desenhada, para o cinema ou para a televisão.

Consigo apreciar, por exemplo, a arte e a criação de um super-herói embora ache que não é nada pessoal e que há toda uma receita que, para fazer dinheiro, tem de corresponder às diretrizes de um meio e das empresas envolvidas.

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Ainda há muito preconceito com a área?
Há vários tipos de preconceito e qualquer pessoa que vá a França consegue perceber que em Portugal ainda existe muito essa ideia de que os desenhos são para crianças. Em França é exatamente o contrário: toda a gente, de todas as idades, lê, discute e compra banda desenhada — alguma até para adultos e mais violenta, introspetiva ou profunda.

Como cá essa banda desenhada mais adulta ainda é pouco conhecida, há quem continue a perpetuar os mesmos estereótipos de sempre. Mas a tendência é para que isso vá perdendo relevância, muito devido ao cinema que continua a apostar em adaptações de histórias que começaram com desenhos e que se tornam agora em autênticos fenómenos.

Esse fenómeno é também um reflexo do contexto político e social em que vivemos em que o clima tenso leva a que tenhamos vontade de ser salvos?
Não sei se é isso ou se pelo facto de, desde sempre, as pessoas precisarem de arte e de cultura para preencherem as suas vidas. Precisamos disso para que a nossa existência faça sentido e o fantástico sempre existiu — até mesmo na religião. A vida da maior parte das pessoas é monótona e é através das histórias, da fantasia e do fantástico que sonhamos. O mundo é um sítio complicado e as histórias fazem dele um lugar mais tolerável.

Enquanto contadora de histórias mais íntimas e pessoais, também sente esse preconceito?
Tenho tido a sorte de o meu trabalho ser muito acarinhado, embora ache que não encaixa dentro do estilo da Comic Con. Claro que têm vindo pessoas falar comigo, que me conhecem e que conhecem o meu trabalho, mas está um bocadinho à margem daquilo que é mais apreciado aqui.

Estudou Realização Plástica do Espetáculo e durante alguns anos trabalhou com figurinista, caracterizadora e aderecista para o teatro e para o cinema. Sempre foi uma pessoa muito ligada às artes?
Durante esse breve período da minha juventude, achei que o teatro e o cinema eram os meios certos para mim. Mas depois fui vendo que não, que eram áreas que não me permitiam exprimir a minha criatividade e onde estava quase sempre dependente dos gostos e das vontades dos outros.

Mas embora esses dois meios tenham feito parte da minha vida de forma temporária, sempre me considerei uma pessoa muito ligada à artes do espetáculo. Aliás, e por coincidência, o cinema tem voltado um bocadinho à minha vida. Especialmente a parte que envolve toda a arte plástica em redor de um filme. Mas gosto de quase todas as expressões artísticas.

Por influência?
Creio que sim, porque na minha família existem várias artistas. Algumas pessoas, quando nascem, sabem exatamente aquilo que querem fazer e eu sempre soube que o meu futuro e a minha vida passavam pelo desenho e pela pintura.

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MAGG

O que é que é capaz de exprimir através do desenho que lhe seja impossível por palavras?
Tudo. Sou muito tímida e isso traduz-se na dificuldade que sinto ao pensar e desenvolver novas histórias. Apesar de ter algumas escritas por mim, nunca senti que tivesse vocação para a escrita. Por serem geralmente curtas, parecem-me muito poéticas embora eu não considere que aquilo que faço seja poesia.

Mas nunca foi fácil para mim exprimir-me em palavras, na escrita ou oralmente, e o desenho veio colmatar essa falha.

O desenho é mais íntimo?
Não é pensado nem calculado. Quando desenho, estou exprimir-me tal como sou. É sincero.

É poesia ilustrada e em movimento?
Sim. O nosso trabalho é sempre fruto das nossas vivências e das nossas influências. Por isso, é inevitável que o que passe para o papel seja aquilo que tenho necessidade de deitar cá para fora. Nesse sentido, talvez seja poético e até sirva como catarse à minha melancolia.

Isto foi o que sempre quis fazer?
Sem dúvida.

Sente que está a viver um sonho?
Ainda não cheguei lá. O meu sonho é pintar, mas não quero passar por mal-agradecida. Felizmente, a vida corre-me bem e faço aquilo que gosto.

É difícil fazer o que faz e viver disso em Portugal?
Cada vez mais, sim.

E tem tido essa sorte.
Muito graças ao facto de fazer ilustração para a imprensa, porque a edição de livros em Portugal é muito mal paga para o trabalho que dá. Viver da BD é impossível e os valores que recebemos pelos livros são tão baixos que não compensam. O que ajuda a que este sonho seja sustentável é o aparecimento de outros trabalhos como ilustrar para a imprensa ou para empresas.

As histórias que cria são com base naquilo que conhece ou fruto da curiosidade, de querer saber mais e pensar em coisas que só existem na sua cabeça?
É-me difícil responder a isso, porque tudo o que faço é muito natural ao ponto de às vezes não saber muito bem para que sentido vai. Às vezes não é bem uma história, é mais um momento. Mas tento sempre que seja pessoal e honesta.

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No seu livro “Beja”, por exemplo, há uma base que é a cidade onde nasceu e que conhece muito bem. Foi-lhe difícil retratar a cidade onde viveu através de imagens?
A ilustração não foi a parte difícil. Difícil foi ser elogiosa porque estou muito zangada com a minha cidade. O propósito desse livro — e de outros focados noutras cidades — era convidar as pessoas a visitá-las e a conhecer todos os pontos menos óbvios. O que não é fácil numa localidade pequena.

Eu fiz aquilo no inverno mas retratei as paisagens como se estivéssemos no verão ou na primavera, por serem as minhas estações preferidas. É também quando Beja está mais bonita e vale a pena visitar.

E o que é que está mal em Beja?
Faltam pessoas, consequência do desinvestimento em todo o interior do País. O facto de alguém começar um projeto, ter pessoas à volta, estar entusiasmada e depois perder o emprego é desesperante. E tudo se resolvia se as universidades chamassem mais pessoas. Se houvesse trabalho para que mais pessoas se pudessem fixar aqui — porque em Beja existe muita qualidade de vida. Só faltam oportunidades.

Como surgiu a oportunidade de ilustrar as crónicas de António Lobo Antunes para a revista “Visão”?
Através de uma agência à qual pertencia. A revista pediu, em 2008, a vários ilustradores que ilustrassem uma das suas crónicas e eu acabei por ser a escolhida para continuar.

Alguma vez o conheceu?
Nunca.

Mas teve feedback?
O facto de ele aceitar que fosse eu a ilustrar as suas crónicas durante anos significava que ele estava a gostar. Mas como sou tímida, não vou à procura de reações. Tenho muito medo.

Apesar de não ir à procura, a verdade é que os projetos chegam até si.
Tenho mesmo muita sorte. Nunca enviei um portfólio porque sou realmente tímida. Sou sensível e tenho medo das críticas e da rejeição. Não sou corajosa, mas tenho sido capaz de deixar que o meu trabalho falasse por si e agradasse quem o visse.