É no livro “Eu, Maria das Dores, me confesso”, apresentado na passada quinta-feira, 12 de setembro, que a socialite condenada a 21 anos de cadeia conta, na primeira pessoa, como planeou e ordenou o assassinato do marido, Paulo. Maria das Dores tenta contextualizar a história, que começa com o grave acidente de viação que ela e o marido sofreram, e que levou a que tivessem de lhe amputar a mão e parte do braço esquerdo. A partir daí, entrou numa onda depressiva, que levou a um afastamento do casal. De acordo com Maria das Dores, Paulo já teria amantes regulares, e isso estava a destruí-la, até porque tinha a sensação de que a qualquer momento ele a iria deixar.

“Sentia-me atraiçoada, enganada, enfurecida, cheia de ódio (…) O Paulo estava quase a abandonar-me, mas eu não iria permiti-lo. A decisão estava tomada. Quando, cinco minutos depois, me encontrei com o João Paulo ia pedir-lhe que matasse o meu marido”, começa por contar. João Paulo era uma espécie de moço de recados do casal, que havia sido apresentado a Maria das Dores por Duarte Menezes, na época um famoso cabeleireiro de Lisboa. O diálogo entre Maria das Dores e João Paulo é revelado no livro.

“— Quero que sofra o mesmo que eu estou a sofrer (…)
— Como, doutora? (…)
— Hoje vais encontrar-te com ele por causa das torneiras, não é? (…)
— Sim, doutora.
— Então quando estiveres no apartamento quero que simules uma luta e depois quero que lhe partas um braço. É um ingrato e quero que sofra da mesma maneira que me fez sofrer (…)
— Mas doutora, isso não é assim tão simples… Como vou simular uma luta com o engenheiro? Como vou partir-lhe um braço? E se algo corre mal?
— Pois, se correr mal, faz o que tens a fazer.
— Como assim, doutora? (…)
— Se algo correr mal, então mata-o (…)”

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Maria das Dores não se considerava “capaz de levar a cabo” os seus “desejos”. “Por isso pedi ao João Paulo que o fizesse por mim”. A socialite contraria a versão da imprensa por aquela altura, que revelou que o homem que matou Paulo, bem como o seu amigo, Paulo Horta, tinham a promessa de receber 150 mil euros. “Porque razão aceitou ele [João Paulo] cometer o assassinato? Isso não sei (…) Eu não lhe prometi 150 mil euros do dinheiro do seguro, como tantas vezes disseram os meios de comunicação social (…) Juro pelos meus filhos que não prometi esse dinheiro ao João Paulo. Apenas lhe falei dos 1500 euros que tinha levantado para lhe pagar o trabalho das torneiras, ainda que, na verdade, estivesse a pagar-lhe para matar o meu marido. Sim, foi o que lhe paguei, nesse dia, no Campo Grande, minutos depois de cometer o homicídio. Bastou menos de uma hora para acabar com a vida do meu marido”.

O crime decorreu no dia 20 de janeiro de 2007, um sábado, no apartamento que Maria das Dores e Paulo planeavam arrendar na Avenida António Augusto Aguiar, no centro de Lisboa.  “Como tinha combinado com ele, às três da tarde, cheguei à avenida António Augusto Aguiar. Encontrei lugar para estacionar e o Paulo já estava à minha espera na calçada.

— Olá.
— Olá.

Saudámo-nos de uma forma curta, sem emoção, à frente do prédio onde poderíamos ter sido felizes. Mas a nossa história estava destinada a correr mal. Tínhamos decidido mudar-nos para lá, em regime de arrendamento, para vender a casa do Paço do Lumiar onde vivíamos. Queríamos mudar de ares e também nos daria jeito o dinheiro da venda. Os gastos do nosso estilo de vida mantinham-nos presos à necessidade de termos cada vez mais dinheiro. Tínhamos começado a fazer umas remodelações naquele apartamento, antes de nos mudarmos, mas as obras não estavam a correr bem. Tivemos uma queixa do vizinho de baixo, as obras foram embargadas e no final o nosso plano de nos mudarmos caiu por terra. Já tínhamos montado umas torneiras caras e modernas, e o Paulo tinha decidido trocá-las por umas antigas. Também queria partir as banheiras novas que tínhamos montado. Tudo para que o vizinho que tinha apresentado a queixa, porque pelos vistos queria ficar com o apartamento, não pudesse desfrutar daqueles melhoramentos. E por isso tinha pedido ajuda do João Paulo, que por sua vez tinha pedido ajuda ao seu amigo Paulo Horta. O trabalho consistia em mudar as torneiras e partir as banheiras, mas o que acabaram por partir foi a cabeça do Paulo (…)”.

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Maria das Dores garante que continua “a estremecer” quando se lembra daquele sábado.

“Naquela tarde, levei o Duartinho às casa da prima Sofia.

— Ele até pode dormir aqui — sugeriu ela. A mim pareceu-me uma boa ideia. Assim poderia ter uma longa conversa com o meu marido. E, se iríamos lavar roupa suja, o melhor seria fazê-lo sem a pressão do tempo.

Agora que recordo o que aconteceu dá-me a sensação de que estava a viver em modo bipolar. Por um lado já tinha pedido ao João Paulo para matar o meu marido, mas no resto do tempo atuava como se na realidade essa conversa nunca tivesse acontecido (…)

À porta do prédio, aproximei-me do Paulo séria e sem sorrisos (…) O Paulo parecia farto de mim e eu estava demasiado nervosa para reclamar mais atenção (…) Pouco antes de ele chegar já tinha ligado ao João Paulo para o avisar de que iríamos subir, queria que estivesse preparado.

— Já sabes que o elevador me dá claustrofobia — disse ao Paulo, quando entrámos no prédio. Embora fosse no sexto andar decidimos subir pelas escadas. O Paulo, uma vez mais, parecia saturado. Creio que não compreendia porque razão tinha decidido acompanhá-lo e era óbvio que não lhe podia explicar. Tinha razão. Não havia necessidade nenhuma de que eu estivesse ali. Talvez o tenha feito para disfarçar e procurar o um alibi com o qual pudesse sair impune do crime que estava quase a ser cometido. Agora compreendo que não foi a melhor decisão. Ele seguia à frente e eu seguia-o, concentrada Única e exclusivamente no que tinha de fazer. Assim que chegámos ao andar, a porta estava aberta. Ele entrou primeiro e quando foi a minha vez de entrar não o fiz. Agarrei-me à maçaneta da porta e fechei-a, ficando do lado de fora. E depois, com o coração a bater a toda a velocidade, desci as escadas em passo de corrida, e não parei até chegar ao carro, disposta a sair dali o quanto antes. Entrei no veículo, meti a chave na ignição, mas não consegui arrancar. O que estás a fazer?, Perguntei-me num instante de lucidez. E quis voltar atrás no tempo. Procurei na mala, à pressa, o telemóvel. O mesmo que tinha usado para comunicar com o João Paulo, o mesmo com o qual apenas uns minutos antes o tinha avisado de que tínhamos chegado, sinal para dar início ao nosso terrível plano. Desbloqueei-o e com tanta pressa com o nervosismo toquei na tecla remarcar. A voz do João Paulo tardou apenas uns segundo a aparecer.

— Não faças nada, por favor, não faças nada — supliquei-lhe. — Vou subir.
— É melhor que não suba — E depois desligou o telemóvel.

O tom de voz dele assustou-me. E, por isso, arranquei com o carro e segui o plano. Se tivesse subido, teria conseguido evitar o assassinato? Ou talvez também me tivessem matado a mim…”

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Embora tivesse desmentido sempre o seu envolvimento no crime, agora, Maria das Dores assume que foi, efetivamente, a mandante do assassinato, o que lhe valeu os 21 anos de cadeia a que foi condenada. “Sim, confesso. Eu mandei que te matassem. Nada nem ninguém tem o direito de mandar tirar a vida a outrem, isso agora é óbvio para mim, e também muito doloroso, muito mais do que as pessoas imaginam. Equivoquei-me na vida, atuei sem pensar, por impulso. Magoada, trocada por outras mulheres, posta de parte, como um farrapo. Sem braço, sem autoestima e cheia de dores — no corpo e sobretudo no coração”.

A socialite mostra, ao longo do livro, e por diversas vezes, arrependimento. “Arrependo-me tanto, Paulo. (…) Fui egoísta, burra, completamente isenta de inteligência. (…)”.

O maior desejo de Maria das Dores é o de, um dia, ter o perdão do filho que tinha com Paulo, Duarte, na altura com 7 anos, e que nunca mais viu, por decisão dos avós paternos, pais de Paulo, que o têm criado. “Agora sonho e acredito que um dia poderei ouvir o meu filho dizer: ‘Mãe, já te perdoei’. Mas acordo e ainda estou na cadeia, com tantos anos já passados e ainda outros pela frente. (…) A minha outra sentença é sentir que no mais fundo do meu coração nem num milhão de vidas haverá perdão que me liberte do sentimento de culpa por ter-te roubado a vida”.