Dormir uma sesta pode não significar que seja preguiço, mas que quer cuidar da sua saúde. Pelo menos é o que diz o estudo publicado pelo jornal “BMJ” esta segunda-feira, 9 de setembro, cujo objetivo seria perceber qual a associação entre a frequência e a duração das sestas e a ocorrência de doenças cardiovasculares, fatais e não fatais. A investigação teve com base uma população de 3.462 suíços sem histórico anterior de doenças cardiovasculares.

O resultado? Aquele que mais gostaria de ouvir: há vantagens em dormir a sesta. Isto porque os investigadores revelam que “os indivíduos que dormem a sesta uma ou duas vezes por semana, têm menor risco de ter incidentes cardiovasculares”. Já quanto à duração da sesta, não foi encontrada nenhuma associação com um maior ou menor risco de problemas cardiovasculares.

Mas uma vez que os dados do estudo são relativos à população da Suíça, a MAGG falou com um especialista do sono para perceber se fazer a sesta é realmente uma boa prática. Antes disso, o pneumologista Vítor Fonseca começa por explicar qual a importância do sono para a saúde do coração.

“É do conhecimento atual da ciência que doentes com má qualidade de sono, e pessoas que trabalhem por turnos, têm uma maior probabilidade de desenvolver doenças do foro cardiovascular e cérebro-vasculares (AVC), bem como de aumentar o risco de diabetes e dislipidemia [níveis anómalos de lípidos no sangue]”. O especialista do hospital CUF Cascais acrescenta ainda que um mau sono está associado a maiores riscos para a saúde em geral e não apenas para o coração.

Nesta lógica, se pensarmos numa pessoa que tem uma boa noite de sono, não deveria ser necessário recorrer a uma sesta, certo? Errado. Em alguns casos pode ser necessário: “Em doentes com fatores de risco, que sobretudo apresentem hipersonolência diurna e que tenham fatores de stresse elevados, acredito que a sesta ocasional será benéfica na sua saúde em geral”.

Se por um lado é recomendado que uma noite de sono tenha entre sete a oito horas, por outro não há um consenso para o tempo médio de uma sesta. Vítor Fonseca refere que a literatura recomenda 20 a 30 minutos de sesta, tempo que está associado a uma diminuição dos níveis de cortisol, a hormona responsável pela sensação de prazer e de bem-estar. Contudo, o especialista indica que um outro estudo, feito na Alemanha, mostra que sestas superiores a uma hora estão associadas a um aumento de incidentes cardiovasculares, contrariando os resultados do recente estudo dirigido por Nadine Häusler, médica de medicina interna no Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça.

Apesar da controvérsia, o especialista aponta vários benefícios de dormirmos a sesta. Além daqueles que são apresentados pelo estudo suíço, Vítor refere que as sestas são importantes para o nosso metabolismo endócrino, devido à produção de serotonina (conhecida como a “molécula da felicidade”) e à redução dos níveis de cortisol, que levam à diminuição dos níveis de stress e ansiedade. “Do ponto de vista laboral existem algumas publicações que demonstram um aumento da produtividade e diminuição de acidentes laborais em quem dorme uma curta sesta”, acrescenta.

Adormece a ver televisão? Pode estar a prejudicar (e muito) o seu sono

Com tantos benefícios, não lhe faltam razões para implementar esta prática. O problema é que se às vezes adia uma ida à casa de banho porque o ritmo de trabalho é agitado, dificilmente terá tempo (ou local) para fazer uma sesta. “É uma pratica mal vista por muitas entidades patronais, e a maioria dos locais de trabalho não apresentam áreas que permitam esta prática da sesta”, refere o pneumologista.

No entanto, existem já algumas empresas com ideias inovadoras e que promovem a capacidade imaginativa e criativa dos seus trabalhadores, através da implementação de áreas de lazer, onde os trabalhadores podem fazer a sua sesta. Ainda assim, esta é uma situação pontual. Em Portugal esta prática é mais comum apenas em algumas zonas, sobretudo nas mais rurais, cuja população pertence a uma faixa etária mais envelhecida.

Esta faixa etária faz parte de uma exceção encontrada no estudo suíço. É que o resultados não revelaram maiores benefícios cardiovasculares em adultos com mais de 65 anos. Apesar de a conclusão não ser concreta, os resultados podem estar relacionados com o facto de terem mais problemas de saúde e por dormirem a sesta durante maiores períodos de tempo — o que, de acordo com o estudo alemão indicado por Vítor Fonseca, estão associados a um maior risco de doenças cardiovasculares.

Mas mesmo que os adultos com mais de 65 anos (ou menos, em alguns casos) não queiram dormir a sesta para evitar as doenças cardiovasculares, é quase inevitável adormecerem assim que encostam a cabeça no sofá — mesmo que tenham tido uma boa noite de sono. Porquê? “Podemos ter vários fatores para tal. As doenças e a medicação que a pessoa toma podem alterar de certa maneira o seu padrão diário e os níveis de cortisol”.

Além disso, por norma os idosos dormem menos tempo e têm menores períodos de sono profundo. A inatividade física é outro dos fatores que pode servir como indutor de sono para uma sesta. Contudo, “cada caso é um caso e existe atualmente uma grande variabilidade entre pessoas”, conclui o especialista.