Começo este texto cheia de vergonha. É melhor dizer desde já isto para que compreendam como não me orgulho de nada do que vou dizer a seguir. Da mesma forma que algumas pessoas detestam olhar para fotografias antigas ou recordar paixonetas da escola, eu também abomino pensar na pessoa que era antes de a Marta Cerqueira entrar na minha vida. Mas é importante explicar-vos isto para que entendam como as coisas mudaram, portanto cá vai: há dois anos, quando a MAGG nasceu e eu conheci a Marta, eu não queria saber de reciclagem.

O caso era grave. Eu não tinha a menor dúvida de que o aquecimento global era uma realidade e que era essencial agir para salvar o planeta. Eu era uma pessoa informada, consciente e até preocupada, só que escondia isso tudo numa gaveta no cérebro etiquetada com o nome “Não me vou chatear com isto agora”. E era assim que não separava o lixo — a sério, nem o vidro —, tinha milhares de sacos em casa — que às vezes me enervavam e iam de rajada para o lixo (comum, claro) — ou deixava beatas na areia da praia — qual é o problema? São só beatas, isto com o tempo degrada-se.

Repito: eu sabia que o aquecimento global era uma realidade. Mas estava tão embrenhada na minha vida e nos meus problemas que achava que isso me dava o direito de não fazer nada. Até porque não era como se eu fosse a única — poucas pessoas à minha volta tinham esse género de cuidados, portanto era um tema no qual conseguia facilmente não pensar.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a Marta falou comigo sobre o assunto. Só me fez uma pergunta: “Porque é que não reciclas?”. Usei todos as desculpas do livro: “Eu sei que é importante, mas esqueço-me”, “A minha casa é demasiado pequena para um caixote do lixo com divisões”, “Dá tanto trabalho separar o lixo”, “Não sei onde é que ficam os ecopontos”, “Isto provavelmente já não vai mudar nada, estamos tão mal…”.

É claro que a Marta refutou cada uma das minhas desculpas. E, qual Nemo arrancado à força do aquário, o meu cérebro estrebuchava, abanava-se efusivamente e fazia um curto-circuito constante porque, caramba, a verdade é que não havia mesmo uma única justificação válida para não reciclar. Como ela me disse, é o mínimo que todos nós podemos fazer. O problema não vai surgir amanhã, o problema está aqui, agora — a cada animal que morre com o estômago cheio de plástico, a cada dia em que acontecem fenómenos meteorológicos inexplicáveis, a cada ano que a terra aquece mais um bocadinho.

Gostava de dizer que esta conversa me transformou no imediato, mas não é verdade. Cada uma seguiu a sua vida e a Marta não voltou a tocar tão cedo no assunto — o que foi ótimo, porque nestas coisas de mudar ideias pré-concebidas, quanto maior a insistência, pior o resultado. Mas, meses depois, lançou-me um desafio: “E se começares só a separar o plástico do lixo comum?”.

Não havia como dizer não àquilo. Era só mais um saquinho ao lado do balde do lixo, era só separar o plástico, não tinha de pensar assim tanto. Era o plano perfeito. Um dia depois, tinha o meu caixote com o lixo comum praticamente vazio e um saco cheio de plástico. A minha cara foi de horror. A sério. Como é que era possível?

Foi aqui que tudo começou. Olhar para a quantidade inacreditável de plástico que eu, sozinha e a morar no meu pequeno T1, produzia, deixou-me estupefacta. A seguir a isso comecei a reciclar tudo e a adotar medidas cada vez mais sustentáveis. Ainda tenho um longo caminho a percorrer, não tenham dúvidas — estou muito longe de ser uma pessoa zero waste, mas já digo não aos sacos, tento comprar a granel, não atiro beatas para o chão e evito tudo o que seja plástico. Não sei se será suficiente, mas sei que tenho de fazer a minha parte. Assim como todos vocês têm que fazer a vossa.

O problema é que não fazemos. Se me odiou ao ler estes primeiros parágrafos, fico contente. Se se identificou com a minha despreocupação, é porque está na altura de mudar alguma coisa. Infelizmente, e considerando a quantidade de pessoas à minha volta que continuam sem reciclar e a usar as mesmas desculpas que eu um dia usei, diria que a grande maioria se vai encaixar no segundo grupo. E, lamento, não pode ser. Está na altura de todos pensarmos nisto — e agora.

Foi a pensar nisso que decidimos dar um bocadinho da Marta a todos os nossos leitores. É assim desde esta terça-feira, quando se estreou a rubrica “Vai querer saco?“. Sempre com humor e de forma muito descontraída, ela mostra-nos todas as semanas as aventuras e desventuras de quem luta por um mundo melhor e dá-nos truques para sermos mais sustentáveis, um saco de papel de cada vez. E porque isto da teoria é muito giro mas também é chato como o caraças, também nos dá exemplos práticos de coisas que faz no dia a dia. Esta semana, por exemplo, partilha connosco a foto do seu carrinho de compras, cheio de autocolantes dos produtos que foram pesados. Porque é que precisamos de 20 sacos de plástico para 20 produtos diferentes? Não precisamos. Só é preciso pensar diferente.

Caros leitores, deem as boas-vindas à Marta. Espero que ela mude as vossas vidas como mudou a minha. E antes de irem a correr ler a crónica, aproveitem para espreitar a entrevista a Bea Johnson, a guru do zero waste. É uma pessoa normal, ok? Contrariamente ao que algumas pessoas pensam, ser sustentável não é ter um rótulo de hippie colado na testa. É só querer saber se amanhã ainda vai haver um planeta chamado Terra.

Esta semana, chegou às livrarias o livro de Maria das Dores, a socialite portuguesa que mandou matar o marido e chocou Portugal. A MAGG esteve na apresentação de “Eu, Maria das Dores, Me Confesso” e conta-lhe tudo o que aconteceu. Mostramos-lhe também o que leva uma pessoa a inscrever-se para doar medula óssea e a desistir — aconteceu com 80 pessoas só no ano passado. Muitas vezes são apenas mitos, e são esses que desmistificamos com um hematologista.

Mas há mais. Demi Lovato partilhou uma fotografia com celulite e a internet não queria acreditar. Será o fim da ditadura do corpo perfeito? Foi isso que a jornalista Ana Luísa Bernardino foi tentar perceber. Já Catarina Ballestero esteve mais de 1h30 ao telefone com a mãe de Gonçalo, uma criança com uma doença rara e 95% de incapacidade. Só há três casos desta mutação genética reportados no mundo inteiro. “Tínhamos mais hipóteses de ganhar o Euromilhões”, disse à MAGG Tânia Vargas. Uma história comovente mas que revela também uma força excecional.