A personagem tem quase 80 anos e embora nunca tenha desaparecido do imaginário da banda desenhada, a popularidade no cinema tem sido crescente. De contornos polémicos, negros e imprevisíveis, o Joker é o maior vilão dos comics de Batman e já foi interpretado no cinema por Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto. O próximo ator vai ser Joaquin Phoenix em “Joker”, o filme que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza e que tem estreia marcada para 3 de outubro em Portugal.

Sobre a personagem, Nuno Duarte, argumentista de televisão e de banda desenhada, diz à MAGG que a sua criação surge em meados de 1940 e envolta em polémica — características que a viriam a marcar nas décadas seguintes. É que embora os direitos autorais estejam acreditados a Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson, as suas versões sobre a origem do conceito divergem.

Porque é que está toda a gente a falar da série “The Boys” que já tem 9,0 no IMDb?

“Bob Kane disse que a ideia surgiu depois de Bill Finger lhe ter mostrado o filme ‘O Homem Que Ri’, enquanto Jerry Robinson defendeu que o conceito surgiu depois de retirar a carta joker de um baralho de cartas e adaptar a estética do vilão àquela figura.”

Uma vez criado, o Joker assumiu uma posição de contraste direto face ao super-herói. “Se o Batman representa a ordem e a justiça obcecada, então o vilão é o outro lado da moeda ao dar corpo à desordem, ao caos e à anarquia.” E a verdade é que até nas cores se assiste a essa contraposição que Nuno diz ser quase infantil.

“Ao contrário do que acontece com a maioria dos heróis, o Batman é negro, obscuro e sério enquanto o vilão apresenta cores mais vivas e até uma personalidade aparentemente mais divertida, ainda que psicótica. O Joker surge como um palhaço que vive muito intensamente o jogo entre gato e rato a que se presta com o herói e isso dá-lhe gozo. É um agente do caos”, explica.

Mas porque a evolução é necessária, até porque o público assim o exige, a maneira como se construíam as narrativas mudou por completo na década de 80 com o lançamento de livros de banda desenhada mais negros — fruto também da forma como a sociedade se foi transformado.

Nuno Duarte é argumentista de televisão e de banda desenhada

“The Dark Knight Returns” é, para Nuno Duarte, um desses exemplos. Nesta história, Bruce Wayne — o homem por detrás da máscara do morcego — tem 55 anos e vive há 10 anos sem vestir a capa de super-herói. Mas uma nova ameaça obriga-o a assumir o cargo de defensor da cidade, com tudo o que isso tem de bom e de mau.

“Aqui o Joker aparece como uma celebridade mediática e pomposa, que gosta de andar sempre com batom nos lábios e que é conhecido por toda a gente. É um tipo de loucura que todos gostam de celebrar e isso revela o zeigest daquele período. Quase como que a lançar a hipótese de que as celebridades estão acima do bem e do mal.”

Mas seria no livro “The Killing Joke”, de 1988, que se entraria na psique do vilão e na definição do caos. “É aqui que se percebe que os planos do Joker nem sempre têm de fazer sentido porque o que interessa é que ele é uma figura que vive do e para o caos.”

Uma das páginas de "The Killing Joke", quando o Joker surge depois de ter caído num tanque de resíduos químicos

Samuel Costa/MAGG

A história dá a conhecer um homem trabalhador e de família que, por uma sucessão de acasos infelizes, acaba por enlouquecer e tornar-se na personagem que hoje conhecemos depois de cair num canal de resíduos químicos. É a partir daí que se convence de que o único propósito na vida é provar que todos estão a um dia mau de cederem à loucura e cometerem as maiores atrocidades possíveis.

“Basta um dia mau para reduzir o homem mais são à loucura. É a esta distância que o mundo está da posição em que me encontro. Apenas a um dia mau”, lê-se numa das vinhetas do livro.

No mesmo ano seria ainda lançada a história que hoje é conhecida como “A Death in the Family” e que ficou conhecida por permitir aos fãs decidir, via voto telefónico, o destino do segundo Robin, o assistente do Batman.

O público votou na morte do herói e Nuno Duarte não tem dúvidas de que isto mostra “a subversão de valores em que se preferiu que o vilão prevalecesse” — embora também tenha muito que ver com o facto de a personagem de Robin não ser das mais queridas dos fãs.

Um dos momentos de "A Death in the Family", em que o Joker espanca o segundo Robin

DC

Por retratar uma personagem polémica, o filme “Joker”, que ainda não estreou, também já está envolto em controvérsia. E há quem garanta que a produção de Todd Phillips pode ser problemática por tentar criar empatia e até desculpabilizar os atos de um homem que é levado para um lado mais negro.

A preocupação é partilhada pelo argumentista, embora só tenha o trailer como ferramenta de análise. “Parece-me que este filme quer dar uma origem muito mais dramática e mostrar como um homem reage psicologicamente ao desmoronar do mundo à sua volta. Acho que por aí pode haver apologia da violência, do caos, do rir para não chorar.”

Mas enquanto o “The Killing Joke” explica a origem do vilão, ainda que muito ao de leve, neste novo filme “parece ser uma origem mais humana e até apologista do que ele venha a fazer”. E isso desculpabiliza-o. Ainda assim, Nuno diz que poderá ser interessante caso isso aconteça já que, pelo menos em cinema, a personagem nunca foi capaz de estabelecer esta relação de empatia com os espectadores.

“O Joker sempre gerou fascínio. E pela primeira vez também pode ser interessante mostrar essa relação de empatia por um psicopata”, mesmo tendo em consideração o clima de violência dos Estados Unidos da América, por exemplo. Mas também para isso Nuno Duarte tem a resposta pronta.

“A sociedade de hoje tolera menos exemplos de apologia de psicopatas e não sei se aceitaria tão bem um ‘Taxi Driver’ ou ‘Laranja Mecânica’. Vivemos numa era do politicamente correto que talvez se tenha instaurado porque deixámos de mostrar essa violência que existe e que está presente na nossa vida”, defende.

E ao contrário da vasta galeria de vilões que existem nas histórias do Batman, o Joker destaca-se porque é uma personagem que não quer dinheiro ou poder mas sim ver o mundo a arder — como é referenciando no filme “O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan.

“O fascínio no Joker está no poder da imprevisibilidade. É um vilão completamente inverosímil, livre de regras e que usufrui de uma liberdade de consciência quase perversa. As pessoas estão fartas de regras e gostam do fator surpresa”, que o Batman por si só não consegue trazer por estar repleto de regras, de limitações e de um código de conduta.